Quinta-feira, 19 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

PRIMEIRAS EDIçõES > GUERRA & JORNALISMO

Matinas Suzuki Jr.

Por lgarcia em 20/01/2001 na edição 105

ARMAZÉM LITERÁRIO

Autores, idéias e tudo o que cabe num livro

GUERRA & JORNALISMO

"Reportagem de guerra", copyright Último Segundo (www.ultimosegundo.com.br), 16/01/01

"‘Exatamente às 8h15 da manhã no horário do Japão, em 6 de agosto de 1945, no momento em que a bomba atômica explodia sobre Hiroshima, Toshiko Sasaki, uma funcionária do departamento pessoal da East Asia Tin Works, tinha acabado de se sentar no seu lugar no escritório e estava voltando a sua cabeça para conversar com a garota da escrivaninha ao lado’ (John Hersey, em ‘Hiroshima’)’

Minha jovem jornalista,

Olá! Quanto tempo, némesmo? Saiba q é sempre bom receber sua correspondência. Não, não se preocupe q vc não me incomoda. Ao contrário, sempre preciso pensar um pouco na minha profissão quando respondo a vc. E isso é bom para mim.

Vc me diz q está lendo o livro do Fernando Morais. ‘Corações Sujos’. Boa. Vc diz q leu o meu Cartão Postal sobre ele. E tem algumas dúvidas. O livro pode ser considerado uma grande reportagem? Se pode, como ele sabe o q se passava na cabeça das pessoas e como ele pode reproduzir fielmente os diálogos entre os personagens?

Vc diz q teve as mesmas dúvidas quando leu, recomendado por um professor, o livro do Fernando Morais sobre o Chateaubriand. E tem ainda mais uma pergunta: por q o jornalismo nas guerras é considerado o jornalismo mais nobre?

Bem… não sei se vou conseguir responder a tudo. Vou tentar, começando pelo final. Os relatos mais importantes da história foram relatos de fatos heróicos. Foram relatos épicos. Em parte, o jornalismo vem dessa tradição milenar de comunicação de fatos militares. No jornalismo de guerra se retratam os grandes tiranos, é nele que conhecemos os grandes heróis ou estadistas, é nele q se mostram os destinos de um povo ou de uma nação e também é nele q os jornalistas correm risco de vida.

Vc leu o livro do Gay Talese sobre o ‘The New York Times’? Pois bem, ali vc deve ter visto q grande parte dos jornalistas q passaram a ocupar cargos importantes na ‘velha dama grisalha’, como o jornal ficou conhecido, nos anos 60 foram repórteres que cobriram, na Europa, a 2a. Guerra Mundial. O jornalista que trabalha na guerra passa por experiências limites que, de certa forma, o amadurecem para o exercício da profissão em sua plenitude. O Leão Serva, meu companheiro de iG, poderá te dar mais detalhes sobre a experiência de se cobrir a guerra – ele que esteve em algumas.

Muitas vezes, um relato jornalístico importante sobre a guerra não é um despacho escrito no momento em que ela está ocorrendo. A grande matéria escrita por John Hersey sobre a bomba de Hiroshima -já q estamos falando sobre os japs e a 2a. Guerra -, considerada quase q unanimemente como a maior reportagem do século 20, saiu na edição da revista ‘The New Yorker’ do dia 31 de agosto de 1946, vinte e poucos dias depois de a bomba ter sido despejado sobre aquela região japonesa de onde vieram os meus avós.

Outro relato sobre guerra q merece ser lido, ‘Casualties of the War’, foi publicado na mesma ‘The New Yorker’ em 18 de outubro de 1969, três anos depois dos fatos terem ocorrido no Vietnã do Sul. O repórter Daniel Lang nem sequer esteve no palco dos conflitos naquele país asiático: sua reportagem foi quase q inteiramente feita entrevistando os personagens depois de eles retornarem aos EUA e baseada nas transcrições do julgamento dos quatro soldados americanos q seqüestraram, estupraram e assassinaram uma garota vietnamita.

Muita gente boa atribui ao relato de Hersey sobre Hiroshima como o início do q se chamou depois de ‘literatura de não ficção’ ou de ‘literatura de realidade’. Basicamente, o q era feito era trabalhar acontecimentos, entrevistas e pesquisas etc., coisas q realmente aconteceram, e dar a elas uma estrutura de ficção – de romance, de novela – para aumentar a dramaticidade e o peso dos fatos apurados. Gay Talese, por exemplo, seguidor desta tradição, dizia que ele não estava muito preocupado com o que as pessoas nas reportagens dele falavam, mas com o que elas pensavam. Ele sempre perguntava aos seus entrevistados o que estavam pensando quando os fatos q Talese estava apurando ocorreram.

De certa maneira, Fernando Morais é um dos grandes repórteres no Brasil que herdaram esta tradição. É por isso q vc tem essas dúvidas sobre se o livro dele é ou não é uma grande reportagem. É. Mas não no sentido de reportagem q vc está aprendendo na sua escola de jornalismo. Trata-se de um tipo de reportagem mais amplo, mais profundo e mais bem escrito q está desaparecendo da imprensa – inclusive da americana. Lá, como aqui, esse tipo de reportagem emigrou para o livro. Para o infortúnio das revistas.

Continue me escrevendo. Um beijo,

M, de, se ele me permitir, Morais

PS: O relato de ‘Casualties of the War’ virou filme e passou no Brasil com o título de ‘Pecados da Guerra’."

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