Sábado, 25 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

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Matrix, farsa & tragédia

Por lgarcia em 13/01/2004 na edição 259

TEATRO E VIDA

José Arrabal (*)

A bem da verdade, a vida é um ovo que encontramos. Ovo de ave ou de serpente.Mais a liberdade para escolher o vôo. [Galileu Mar, no romance Diga Trinta e Três Se Conseguir Respirar ]

O sistema dominante de organização da ordem social sempre tentou nos convencer de que a vida real é um teatro, mero conjunto de representações virtuais na convivência cotidiana.

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De algum modo, nos fazer crer que a vida é um teatro, um baile de máscaras, um show de efeitos, com suas etiquetas e normas de procedimentos, jamais deixou de ser empenho dos senhores da suposta casa do dito espetáculo da vida, em seus esforços de plena dominação social da história humana.

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Nos dias de hoje, agarrados a seus sonhos totalitários para o futuro e mantendo a vida num estado brutal de guerras, competição e consumismo, efetivamente com mais empenho do que em qualquer outro período da história humana, os senhores do poder e da riqueza planetária prosseguem, ansiosos, querendo nos impingir a idéia e a prática de que existência individual e/ou social é um teatro despido de realidade real. Teatro a ser obedecido e cumprido nas suas mais rigorosas marcas, por parecer demasiado perigoso estar fora de seu riscado e do ordenamento de sua representação.

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A onipresença comportamentalista dos meios de comunicação de massa é uma evidência dessa farsa trágica que se quer impor a todos, na contemporaneidade. O mais devastador dos terrorismos de nossa época.

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Os jornais, as revistas, o rádio, a televisão, a publicidade e mesmo os meios de lazer e diversão do circuito comercial, desinteressados em nos apontar percursos para a vida viva, na imensa maioria das vezes tornam a noção de realidade uma farsa ou até mesmo uma tragédia e, com isso, nos empurram à idéia de que a vida não passa de uma permanente festa de mascarados. Com essa encenação da existência, mascaram as contradições da vida social e deformam o desenvolvimento de nossa identidade, pois produzem desejos sempre frustrados, em que o sabor da vida tem o gosto de algo que se espera e jamais acontece.

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Deste modo se viaja pelas páginas de Caras, pelos fetiches de Playboy e da G-Magazine, através dos textos devidamente cifrados dos noticiários de economia, política, cultura e lazer, nos jornais, viagem com malas plenas de masturbações apressadas viabilizadas pelo sexo virtual das salas de bate-papo na internet, mais as posturas da TV, o bom-tom das aparências, o senso comum dos estereótipos, o gosto produzido, conceitos de prazer alimentados com competição e exibido consumismo, tudo organizado no intuito da instauração vertical de toda uma ordem comportamental ditada ao cidadão que há de reapresentá-la no teatro da vida, conforme o seu mais adequado bigbrother, forjada felicidade que vive sem jamais ser realmente feliz. Felicidade que é tão-somente uma farsa, espetáculo que não suporta seu rosto sem máscara, o dia seguinte, a hora da verdade de cada um e da sociedade.

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[O momento mais feliz, em um baile de máscaras, acontece quando os amantes retiram suas máscaras, encerram o baile e adentram na vida com a alegria que alcançam, ao se permitirem o encontro real de suas mútuas afetividades. Então, por que regredir? Por que fazer da vida uma festa de mascarados? Se precisamos disso, dessa regressão, que seja no intuito, no empenho de retirarmos as máscaras a favor de mostrarmos nossas fisionomias, com a coragem da liberdade de sermos quem somos realmente. O baile de máscaras não é mais belo do que a vida viva. Até pode ser mais lúdico do que a vida viva, uma brincadeira, espécie de treino para a vida viva, necessidade de quem ainda teme viver a vida com transparência. Contudo, a vida é que é a vida. O baile de máscaras nada mais é do que um baile de máscaras. Não se vive uma vida plena, se nos condenamos a uma vida que é tão só uma festa de mascarados.]

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A toda hora, no dia-a-dia, recebemos, por múltiplos canais de informação, adequados scripts de modelos comportamentais para nossa existência, lado a lado à insistência na idéia do desesperado perigo que é viver com autonomia, senso crítico, identidade precisa e segura do que se é. Tudo é modelo, script comportamental para a vida, como se esta fosse um espetáculo teatral a se reproduzir, enquanto, também, se planta no espírito, na consciência, nos gestos, na cultura e na iniciativa dos homens, o medo da vida real com liberdade para a felicidade.

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O melhor da vida viva dos homens não é fazer de suas vidas um teatro, um jogo de exibições, espetáculo virtual impalpável, vazio, oco, mero conjunto de imagens, aparências, efeitos e fetiches. Disto sempre há de restar sofrida vertigem nos sentimentos de quem assim se exibe. Devido ao sabor exigente da verdade em nosso ser inteiro, toda essa encenação culmina por se tornar um frustrado e deprimido engodo. O melhor da vida viva de um ser humano é poder viver sem medo, sem frustração, com grandeza pessoal e auto-estima, liberdade material e cultural, justiça, afeto e fraternidade, viver, assim, toda a realidade de sua identidade mais íntima em paz e harmonia, mesmo na convivência crítica da sociedade. Vivenciar a vida como um teatro é abrir mão da liberdade para a conquista da felicidade individual e/ou social na história humana.

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A bem da verdade, a vida individual/social não é, nem pode ser um teatro, porque a vida deixa marcas, experiências e vivências, traumáticas ou não, na medida do assentamento das práticas da vida em nosso inconsciente e nos costumes de um povo.

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O ator de um espetáculo teatral, ao contrário das pessoas em seu cotidiano, tem a possibilidade de deixar seu personagem nos bastidores do teatro, quando volta para casa, após terminado o seu trabalho cênico. Na vida individual/social não temos como fazer isso conosco. Não há bastidores para nos deixar. Sempre nos levamos conosco, por mais fantasias ou máscaras que inventemos a nosso respeito, seja, essa invenção, uma farsa para os outros ou para nós mesmos.

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Nos mais íntimos sentimentos que temos de nós mesmos, sempre somos a verdade do que somos, gostemos ou não de ser assim. Se gostamos, é mais fácil o percurso para o bem-estar pessoal. Se não gostamos, bate em nossa cara a baixa-estima. Daí, passamos a conspirar contra nós mesmos, sempre nos atrapalhando na vida.

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Cada um é todos os passos que dá até si mesmo, até onde está e até quando está. Com esses passos juntados a outros passos seguintes, tem-se o que cada um há de ser no porvir. Fator que não ocorre com o ator, no teatro, em sua relação estabelecida com a personagem que representa, por mais que essa personagem possa lhe influenciar, tal qual nos influencia a leitura de um livro. A personagem, tão somente, fica para trás, torna-se mera memória de um trabalho que o ator realizou. Nós – na vida real – jamais ficamos para trás de nós mesmos, salvo se nos alienamos na loucura, na amnésia ou em alguma outra enfermidade comportamental, psíquica e/ou neurológica.

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Na vida real individual, não somos, nem podemos ser personagens de nós mesmos. Somos tão somente nós mesmos. E, se, no dia-a-dia, não vivemos essa verdade em harmonia e tranqüilidade conosco, a vida vira um desarranjo, um desencontro com a vida, contínuo desviver através da neurotização de nós mesmos, situação complexa e dolorosa que pode chegar às mais diversas formas e modos de alienação comportamental e/ou psicológica, no decorrer da travessia traumática desse desajuste, infelicidade pessoal da identidade com a própria identidade. O que sempre acontece quando o desejo do não ser congela e imobiliza o ser que se é.

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[De nada adianta armar espetáculos, tecer redes comportamentais, viver atrás de máscaras, fingir que a vida é um teatro, praticar fantasias de felicidades aparentes, relações de poderes forjadas, encadeamentos de culpas e punições, nada disso adianta, pois a dor prossegue, deixa marcas na identidade de quem se recusa a vencer os seus medos com o uso da coragem de viver por inteiro de corpo e alma. A dor prossegue e deforma quem se submete ao medo de ser, de amadurecer, tornar-se intenso, mais seguro, mais firme, mais real na inteireza essencial da emoção com a razão, do desejo com a liberdade, sem farsas de si mesmo.]

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A vida, também, não é um teatro porque vivemos contingências sócio-históricas que nos referenciam, pontuam e limitam nossos movimentos individuais e sociais. Podemos até alterar, transformar essas contingências, porém, somos sempre marcados por suas existências reais.Assim, cada um é uma série de histórias particulares, familiares e sociais, que antecedem e acompanham a vida, promovendo e/ou definindo posturas e fatos nas inter-relações da existência com o(s) outro(s). Uma alteração ou transformação desse quadro sempre há de considerar a presença dessas histórias.

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Este é um outro fator que não acontece com um ator de teatro, na representação de sua personagem em espetáculo. O ator constrói a personagem. Ela é, apenas, seu trabalho de criador com talento e técnica. Trama e trato que não se consegue fazer e exercer na vida cotidiana e real, vale frisar, porque não somos personagens de nós mesmos. E, se alguém ainda insiste em ser, no porvir o que lhe aguarda é a vertigem da identidade demolida, da alienação de si mesmo, até da demência provável. Porque somos identidades reais num dado lugar social, numa dada época, numa dada individualidade, no interior de uma dada história, enquanto vivemos nossa história pessoal, nossa identidade em construção e progresso.

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Fugir disso, imaginando que a vida é um teatro, será mera alienação, demolição da identidade, percurso da neurotização à demência crescente de si mesmo. O que se deve evitar, para uma vida em bem-estar viável. [ É o que faz de modo heróico o protagonista do filme Uma Mente Brilhante, no enfrentamento de sua progressiva patologia, sua demência.]

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A vida inspira o teatro. O teatro pode inspirar a vida. Mas, a vida não é um teatro, porque vida é vida, teatro é teatro.

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Em síntese, procurando ser bem claro e sendo bem concreto, imaginemos duas crianças: Um pobre menino negro africano e um menino rico, branco, norte-americano. Não são personagens de seus corpos e espíritos. São vidas reais com suas histórias. Se fossem tão somente personagens de um espetáculo, o pequeno menino africano jamais morreria de fome.Ele não interpreta a sua morte. Ele morre. De fome.

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Portanto, é vasto engodo imaginar que se pode fazer da vida um teatro, fazer da pessoa real uma personagem de si mesmo. Brincar com tamanha farsa é deveras trágico. Sobretudo, quando se é um jovem em formação.

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Cada um precisa ser de modo crescente e dinâmico quem realmente é, no desenvolvimento e construção de sua identidade.

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Viver de modo fantasioso e mascarado, agir, construir e prosseguir a própria vida como se vivesse um teatro, uma encenação da existência traz, para quem assim faz, todo um acúmulo de situações frustrantes e frustradoras, igualmente, ansiosas, sem paz e tranqüilidade. Ser um eterno Peter Pan, fazer disso um modelo ou perfil cotidiano, não efetiva uma felicidade concreta, com auto-estima, auto-confiança, segurança para crescer e enfrentar os passos da existência que cabe ser vivida. Muito menos traz concreta felicidade e segurança para o desenvolvimento emocional de uma identidade, quando se sonha, se imagina, se faz-de-conta que alguma outra identidade ou outro alguém pode viver a vida por nós ou assumir as conseqüências de nossa vida por viver. [Aliás, esse é o conteúdo da vertigem, o fracasso compulsório a que se condenam as relações interpessoais estruturadas como um teatro de relações de poder. Por sua vez, no reverso disso, é sábia e justa a afirmação emblemática de que “é preciso de liberdade para poder unir”. E, no caso, poder é sinônimo de potência pessoal, íntima, e, jamais, sinônimo de dominação do outro.]

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Na vida real, só as crianças têm precisão de brincar de ser quem não são. Quanto o fazem, contudo, sabem que estão brincando. Ademais, crianças são crianças só enquanto são crianças. Adultos não são crianças, muito menos atores de sua vida, pois que a vida não é uma representação da vida. A vida é a vida conforme se é e se está sendo a cada instante.

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Se não somos quem realmente somos, nos tornamos uma identidade incompleta, sempre pedindo desculpas a si mesma e ao outro a quem se engana com o macaqueamento da identidade falsa, encenada, teatralizada. Por medo da liberdade de ser quem se é, ao se viver a vida como se fosse uma festa de mascarados, tem-se a construção de uma identidade em colapso, que sucumbe às culpas de seus próprios medos. Aquele que age desse modo sempre se reverte em alguém à procura de ser desculpado ou punido por si mesmo e/ou pelo outro.

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Nesse jogo de culpa, punição e desculpa, quem entende e/ou vive a vida como um baile de máscaras planta em si fértil semente de masoquismo e submissão. Por conseguinte, no reverso do que se aspira, também, desenvolve desejos de sadismo e dominação. O que de modo algum é território da felicidade pessoal e/ou coletiva, sendo tão somente expressões de identidades inconclusas, fragmentadas, acuadas, com seus corpos e espíritos escravizados, enfermos e apartados do mais essencial sentido da vida humana, que é viver com liberdade para a felicidade.

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Sabe-se, devidamente, que um dos costumes mais dramáticos, cênicos, enfim, mais teatrais, na contemporaneidade, é a crescente predominância do sadomasoquismo em relações interpessoais.

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O medo da vida, implantado pelo brutal estado de macro & micro guerras que presenciamos no dia-a-dia, redimensionado e promovido pelos meios de comunicação de morte, na vida cotidiana, tem instigado o surgimento crescente de expressões opressivas de poder, dominação e submissão, nas relações interpessoais, expressões interpretadas como modelos de afetividade. Assim, naturaliza-se a dor, a humilhação e a auto-anulação como práticas encenadas de prazer, o que é uma instauração fascista no âmbito mais íntimo da vida. Nas relações de trabalho acontece trânsito semelhante. O desemprego e o medo de perder o emprego torna sádico o patrão e submisso, o empregado. Na empresa tem-se o campo de concentração. No Departamento de Recursos Humanos, o forno crematório!

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Trágica teatralização da existência que se expressa como eco evidente de determinados projetos de poder interessados em transformar o planeta num estado totalitário promovido pela tecnologia de ponta e pelos meios de controle de massa,gerido pelos aparelhos da burocracia militar através de macro & micro redes invisíveis de controle individual e social, até mesmo com a determinação de critérios e praticados desejos mais íntimos e dos prazeres, no comportamento cotidiano. Certamente, esse controle totalitário do prazer e da intimidade, teatralizado como ritual nas relações interpessoais, tornado feitio virtual e pré-produzido de felicidade, tem o intuito de perpetuar o mando amplo de mega-corporações internacionais do capital financeiro, da indústria tecno-armamentista e do crime organizado. Pântano obscuro de drogas. Farinhas do mesmo saco.

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A prática da vida como um teatro é um jogo de falas e marcas prévias, de etiquetas e efeitos especiais, holografias de imagens virtualizadas do real, enfim, teatro de representações tomadas como sólidas, embora ocas, vazias de verdades concretas e/ou substâncias palpáveis na existência de um cidadão que, em seu cotidiano, é alimentado e enfraquecido por toda uma estimulada competitividade com o(s) outro(s) e pelo consumo vicioso de bens materiais e simbólicos, sentido e essência de sua existência. Enquanto esse seu pretenso teatro, produzido como virtualidade da vida e da felicidade humana, é tão somente o alicerce básico e o sonho fundamental da consolidação de um projeto totalitário de ordenação e domínio da sociedade planetária.

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A bem da verdade, contudo, por ser história, movimento de contradições, a vida não é um teatro, nem pode tornar-se um teatro, muito menos esse teatro de virtualidades do real, pois que o real é real nas suas relações causais, material e concreto, mesmo quando simbólico. É com sua verdade, no enfrentamento real de suas contradições, que se alimenta e se dá vida viva à existência social. E é tão somente com a dinâmica de verdades reais que as mais íntimas carências podem ser supridas e superadas, no encontro do prazer e da felicidade interpessoal.

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Se a vida fosse viável como um teatro, os bem alimentados recrutas norte-americanos não estariam morrendo às dúzias e às pencas no Iraque. E a invasão do Iraque, a guerra oleosa de mister George Bush, seria deveras não mais do que uma partida de videogame, uma guerra virtual, conforme o próprio Mr. Bush prometeu a seus soldados, suas famílias, à nação americana e ao mundo. Doloroso teatro, frustrado videogame, realmente. De certo modo, a valorosa resistência do povo iraquiano à brutal invasão dos EUA, no seu dia-a-dia, deveras, cuida de desmascarar e desacreditar o poder de Matrix. Sua guerra não é um teatro, muito menos uma ilusão.

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Nada trazemos dos sonhos, senão, sonhos. Muito menos traremos da virtualização do real satisfações ou felicidades que completem as reais aspirações de nossos desejos mais íntimos ou de nossas necessidades sociais. Submeter-se à prática da vida como um teatro faz do indivíduo e da sociedade meros marionetes de invisíveis poderes, por sinal, bastante reais.

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No âmbito da vida individual, essa submissão desequilibra toda a harmonia de uma identidade em progresso, condena seu desenvolvimento psíquico a distorções, por forçosa frustração advinda do abismo existente entre uma possível realização do desejo no interior da realidade real e sua inconseqüente, desfeliz, dramática teatralização, vivência sempre mal sucedida com a virtualização do real. Condição existencial trágica, que enfraquece ainda mais essa identidade distorcida, daí, submissa, ansiosa por submeter-se a poderes externos que, no seu ilusório entender, lhe podem fornecer segurança e conceder prazer a sua existência de quem que não sabe viver por ter medo da vida, medo da liberdade.

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Nesse limite da realidade de sua vida, despida de liberdade, essa identidade virtualizada se impossibilita para construir qualquer percurso no rumo de uma felicidade que não seja mera e frustrante encenação teatral, irrealidade, em sua desfeliz existência mascarada.

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Assim sendo, acreditar que a vida real é um teatro ou pode ser vivida como um teatro, uma festa de mascarados, é abrir mão da liberdade para a conquista da felicidade seja individual, seja social, no andamento da história humana. É viver a vida submisso à escravidão voluntária, é ser farsa e tragédia de si mesmo, perder-se do sentido de humanidade, desumanizar a vida em sociedade.

(*) Jornalista e escritor

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