Terça-feira, 19 de Novembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1064
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Mauro Chaves

Por lgarcia em 16/01/2002 na edição 155

ELEIÇÕES 2002

"Os Sarneys e o charme da miséria ? 2", copyright O Estado de S.Paulo, 12/1/02

"Muitos podem estar se perguntando, com certa perplexidade: se, de todos os Estados brasileiros, o Maranhão é o que apresenta a situação social mais calamitosa, mantendo (desde 1985) o pior PIB per capita do Pais; se o Maranhão tem hoje a maior parcela da população (62,37%) vivendo abaixo da linha de miséria (menos de R$ 80 por pessoa, por mês), de acordo com o Mapa da Fome da Fundação Getúlio Vargas (FGV); se, nas duas gestões da governadora Roseana Sarney, a pobreza só cresceu no Maranhão, pois, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o número de famílias que lá vivem com até meio salário mínimo aumentou 37% – enquanto no resto do País diminuiu 22%; se, nas duas gestões da governadora Roseana Sarney, cresceram tanto a mortalidade infantil quanto a evasão escolar – segundo dados da mesma respeitada instituição, contidos no Censo 2000; se, segundo a última medição do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) da ONU, o Maranhão está no mesmo patamar de miséria de nações africanas como Gana e Congo – e basta lembrar que 39,8% das casas maranhenses não têm sequer banheiro ou sanitário; como se explica, então, o fato de a governadora Roseana Sarney alcançar um bom índice de aprovação em seu Estado?

E como se explica o fato de, nos últimos 36 anos – isto é, desde 1965, quando José Sarney se elegeu governador do Maranhão -, o eleitorado maranhense ter escolhido, para o governo do Estado, uma seqüência ininterrupta de correligionários e amigos diletos de José Sarney (João Castelo Ribeiro Gonçalves, Oswaldo Nunes Freyre, Luiz Rocha, Epitácio Cafeteira, João Alberto, Édison Lobão e a filha Roseana Sarney), se nesse tempo todo o Maranhão, que no passado fora um marco cultural e histórico do País, entrou em franca decadência econômica, social e cultural?

Decifremos o enigma. Antes de mais nada, a família Sarney exerce domínio absoluto sobre todo o sistema de comunicação do Maranhão. É dona do principal jornal – O Estado do Maranhão – e do principal sistema de rádio e televisão – o Sistema Mirante e o Mirante Sat, que recebem o sinal da Rede Globo. Os outros dois sistemas de TV mais importantes do Estado pertencem a correligionários e/ou diletíssimos aliados da família, como é o caso do dono da Difusora (que recebe o sinal do SBT), senador Édison Lobão, e do dono da TV Praia Grande (que recebe o sinal da Bandeirantes), deputado estadual Manuel Ribeiro, há oito anos presidente da Assembléia Legislativa do Maranhão (onde a governadora tem 36 dos 42 membros).

Interagindo com o governo, num processo de publicidade institucional massificada, intensa e constante, os sistemas de comunicação social maranhense exercem, com perfeição, um duplo papel. Primeiro é o de manter um clima permanentemente festivo, com a divulgação diuturna das promoções governamentais, dentro da estratégia de programação político-espetacular denominada ?Viva?. Trata-se do seguinte: o governo maranhense organiza, permanentemente, festejos públicos em diferentes locais, com ampla concentração popular, tendo como pólo de atração artistas famosos, danças, farta venda de bebidas, etc. Batiza-se a grande festa de acordo com o nome do bairro ou da região escolhida: por exemplo, ?Viva Renascença!?, ou ?Viva Maiobão!?, ou ?Viva Liberdade?, ou ?Viva Bairro de Fátima?, ou ?Viva Madre Deus?, ou ?Viva Anjo da Guarda?. Certamente é uma iniciativa inspirada na velha prática dos imperadores romanos, denominada panem et circenses (embora sem panem, pelo que talvez mais apropriado fosse denominar cachaçorum et circenses).

O segundo papel fundamental do integradíssimo sistema de comunicação controlado pela família Sarney consiste em abafar tanto fracassos administrativos quanto irregularidades apontadas ou investigadas – seja pelos Tribunais de Contas, pela Polícia Federal ou pelo Ministério Público -, que acabam deixando de se tornar, pela absoluta desinformação popular, objeto de pressão por parte da opinião pública maranhense.

Dentre os inúmeros exemplos de atuação dessa mordaça comunicológica, poderiamos mencionar o caso do Pólo de Confecções de Rosário, um ambicioso projeto de U$ 20 milhões – a cerca de 100 km de São Luís -, inaugurado pomposamente (com a presença de FHC), para gerar 4 mil empregos. Na verdade, tratava-se do conto-do-vigário de um chinês de Taiwan interessado em vender máquinas de costura – e que acabou preso em Manaus, por estelionato. E o que era para ser uma moderna cooperativa, alardeada pela governadora, se tornou uma minguada produção artesanal, que só emprega cerca de 400 pessoas, ganhando em torno de R$ 100 por mês (por falta de coisa melhor). Ou o caso da Usimar, projeto orçado em R$ 1,3 bilhão, que teve aprovação recorde (com o empenho total da governadora e de seu marido) na Sudam, levantou com rapidez inédita R$ 44 milhões e evaporou (pelo que o Ministério Público entrou com ação civil contra Roseana e Jorge Murad). Ou o caso Salangô, projeto de irrigação destinado à produção de arroz e cítricos, que recebeu cerca de R$ 60 milhões há anos, não produz nada e está eivado de graves irregularidades (inclusive superfaturamento), segundo o TCU. Ou o caso do projeto de despoluição da Lagoa de Jansen (centro de São Luís), que também gastou R$ 60 milhões (federais) para não despoluir nada, além das graves irregularidades (inclusive superfaturamento) apontadas pelo TCU. Ou o caso da ?estrada fantasma? Paulo Ramos-Arame, onde foram gastos U$ 33 milhões em obras inexistentes. Ou o caso da duplicação do Projeto Italuis – R$300 milhões -, obra de saneamento também com graves irregularidades (inclusive superfaturamento) apontadas pelo TCU.

Nada disso é trazido à discussão pública pelos veículos de comunicação maranhenses. E, convenhamos, uma população em que 39,8% de seus integrantes não podem nem dispor de chuveiros e privadas na própria residência, e para a qual não foram construídas novas salas de aula nos últimos sete anos, que tipo de espiríto crítico poderá ter desenvolvido – nas últimas três décadas e nos últimos sete anos – dentro da anestesiante festividade com que tem sido embromada a sua sensação de real (mesmo que charmosa) miséria?"

"Roseana faz merchandising na Globo", copyright Folha de S.Paulo, 13/1/02

"O governo do Maranhão fechou um acordo de merchandising com a TV Globo. A partir de amanhã, a emissora exibe na novela das oito, O Clone, cenas de pontos turísticos do Estado, cuja governadora, Roseana Sarney, é pré-candidata do PFL à Presidência da República.
Em troca da exibição de imagens dos Lençóis Maranhenses, de São Luís e de outros pontos turísticos, o governo proporcionou à Globo transporte, alimentação, segurança e liberação dos locais para gravação.

A Central Globo de Comunicações afirmou que o merchandising foi acertado em contrato.
A informação foi negada por Antônio Carlos Gomes Lima, assessor de comunicação do governo, que afirmou não ter havido pagamento em dinheiro nem permuta. Mas assessores ligados a Roseana confirmam o acordo.

A idéia principal seria promover o Estado às vésperas da inauguração de uma nova estrada de acesso aos Lençóis. Com a nova via, a viagem de São Luís até o local deve ser encurtada de dez para duas horas e meia.

A escolha do Maranhão como locação foi da autora da história, Glória Perez. Com a sinopse, a Globo ofereceu o merchandising ao governo, que aceitou. Divulgar o Estado, neste momento, em programa com a audiência da novela das oito era ?o sonho? da governadora, nas palavras de um assessor próximo a ela.

A novela é atualmente o programa de maior audiência da TV e tem alcançado médias de 45 pontos no Ibope (cada ponto equivale a cerca de 45 mil domicílios na Grande São Paulo).
Para gravar as cenas no Estado, foi deslocada do Rio de Janeiro uma equipe de cerca de 20 funcionários da Globo, entre eles os atores Murilo Benício -protagonista da trama-, Juca de Oliveira e Nívea Maria.

Eles se hospedaram no Sofitel, um dos hotéis mais caros do Estado, com diárias de R$ 205 para uma pessoa. Na sexta-feira, funcionários da Globo foram recebidos em almoço pela governadora Roseana, no Palácio dos Leões, sede do governo.

No Maranhão, quatro afiliadas da TV Globo são controladas pela família Sarney.

?Reality show?

Essa não é a primeira vez que um governo apóia uma produção para divulgar seu Estado.
Em 1994, o então governador do Ceará, Ciro Gomes, atual pré-candidato do PPS à Presidência, investiu cerca de US$ 700 mil na novela Tropicaliente (Globo).
A trama, que era exibida no horário das 18h, se passava no Estado e mostrava atrações turísticas do Ceará, como o complexo aquático Beach Park -que cedeu o terreno onde foi construída a cidade cenográfica.

Na época, Ciro afirmou que a novela iria ampliar o turismo no Estado. O investimento foi principalmente em transporte e hospedagem da equipe de gravação.

A Globo também obteve apoio do Ceará para realizar o ?reality show? No Limite no Estado, em 2000. A terceira versão do programa contou com o apoio do governo do Pará.
A Record contou com a colaboração do governo de Pernambuco, em 2000, para a gravação da novela Vidas Cruzadas, que se passava em Recife.

?Cena-chave? da história é gravada no Estado

As cenas gravadas no Maranhão estão entre as principais de toda a história de O Clone. Nas areias dos Lençóis, aparecerá pela primeira vez o ator Murilo Benício interpretando Leandro, o clone que dá nome à trama.

A aparição iria ocorrer anteriormente, mas a Globo decidiu só exibir essa cena na terceira semana de janeiro. A intenção foi esperar a audiência, que costuma cair nas semanas do Natal e do Ano Novo, voltar ao normal.

Na história, o cientista Albieri (Juca de Oliveira) -que fez o clone- e sua mulher, Edna (Nívea Maria), vão passar uma semana de férias no Maranhão. Durante o passeio, segundo o ator Juca de Oliveira, os dois farão comentários sobre os pontos turísticos do Estado.
Além dos Lençóis Maranhenses, onde Albieri encontra Leandro, o casal visita atrações de São Luís, como a feira de artesanato e o centro histórico. Uma festa do bumba-meu-boi, típica da região, foi especialmente realizada para as gravações da Globo.

Na semana passada, personagens da novela já haviam falado sobre o Maranhão, usando frases como ?o Estado é lindo, vocês vão adorar?.

Segundo a autora Glória Perez, o local foi escolhido porque as areias dos Lençóis ?lembram os desertos, os povos antigos, que queriam se perpetuar através das múmias?.

Seria, segundo ela, uma referência ao fato de a clonagem ser uma idéia muito antiga na civilização. As primeiras cenas da novela foram feitas no Marrocos.

Duas vias

O merchandising na Globo pode ser negociado de duas maneiras. As sinopses e os capítulos são enviados antecipadamente ao departamento de merchandising. Se houver a possibilidade de encaixar algum produto na história, a Globo procura empresas ou instituições.

O merchandising também pode ser oferecido à emissora, que sugere ao autor uma adaptação no texto para inseri-lo.

Novela cita piscinão de Garotinho

O piscinão de Ramos, obra do governador Anthony Garotinho -pré-candidato do PSB à Presidência- inaugurada em dezembro no Rio de Janeiro, também tem sido citado em O Clone. Na novela, a personagem Odete (Mara Manzan) passou a frequentar o local.
De acordo com Glória Perez, autora da novela, o piscinão está na trama porque ?é uma novidade bem popular?. ?Gosto de incluir essas coisas nas minhas novelas?, afirmou.
Merchandising ou não, o governador Garotinho não tem perdido a oportunidade de aparecer na TV, especialmente em programas populares.

Nos últimos meses, ele esteve em atrações como Programa do Ratinho (SBT), Canal Aberto (Rede TV!), É Show!, Programa Raul Gil e Cidade Alerta (todos da Record).
Na maioria das vezes, é a própria assessoria de Garotinho que procura as produções dos programas oferecendo a participação do governador.

Produtores do É Show!, por exemplo, foram procurados três vezes pela assessoria do político, segundo a Folha apurou.

Como a produção não fechava com o governador, sua participação no programa, apresentado por Adriane Galisteu, teria sido acertada com a direção da Record, controlada pela Igreja Universal do Reino de Deus.

Garotinho também teria se oferecido para o Canal Aberto, de João Kléber. Ele participou de um debate no programa em dezembro. A audiência sofreu queda, e a direção da emissora teria solicitado às produções dos programas que evitassem colocar políticos no ar.
A mais recente aparição de Garotinho em programas de TV foi no Cidade Alerta. O governador foi entrevistado por José Luiz Datena e falou da redução do índice de sequestros no Rio de Janeiro."

 

"A politização do marketing político", copyright Folha de S.Paulo, 8/1/02

"As próximas eleições prometem muita emoção. A disputa já começa agora, na definição das candidaturas, e deverá continuar cada vez mais acirrada, já que não há perspectiva imediata de que alguma delas se destaque. Para apimentar ainda mais essa receita, por si só explosiva, tem sido discutida a validade do marketing político como instrumento capaz de interferir profundamente nesse processo.

Um tempero forte foi posto na discussão com o texto de Mario Sergio Conti, ?A despolitização da política?, publicado por esta Folha em 29/12, onde a conclusão é expressada no próprio título da resenha, que analisa dois livros sobre o assunto, recém-lançados.

No que diz respeito ao meu livro, Batalhas Eleitorais – 25 Anos de Marketing Político, vou deixar de lado as agressões gratuitas e os erros de interpretação para me concentrar no principal.

Talvez tenha faltado ao articulista uma leitura mais acurada para perceber que o que proponho é exatamente o contrário de sua conclusão manchetária. Sou defensor intransigente da prevalência do conteúdo sobre a forma -outra discussão muito na moda-, minhas campanhas mostram isso de modo incontestável. Jamais defendi ou defenderei ?qualquer política e qualquer candidato?, como quer o sr. Conti.

Já me recusei (está descrito no próprio livro) e me recusarei a trabalhar numa campanha que não privilegie os princípios éticos e morais.

Pratico, prego e torço pela politização do marketing político, pois isso significará uma maior politização da sociedade brasileira. Todos esses conceitos são amplamente desenvolvidos no meu texto, acompanhando os fatores que levaram a uma melhoria geral da qualidade do voto em nosso país.

A conclusão pode ser encontrada na página 228: ?É assim que a população vem aprendendo a participar do processo democrático. É assim que o voto de cabresto e o velho curral eleitoral caminham para a extinção. Claro que ainda há falhas e ruídos no processo. Na verdade, se por um lado ainda não temos uma situação ideal, por outro é inegável que andamos para a frente?.

Faltou leitura, pois explicito na página 97 que não trabalhei para o governo Collor por opção, e não por razões mercenárias. Está escrito: ?De minha parte também perdi, por espontânea vontade, a chance de receber algum tipo de pagamento, afastando-me daquelas pessoas?.

Tanto faltou leitura que o sr. Conti passa por cima dos 20 anos em que fui jornalista (Estadão, Jornal da Tarde, Editora Abril, TV Globo) e me coloca como ?publicitário?, atividade que também exerci esporadicamente, com muita honra. Nesse ponto, com extrema prepotência, generaliza e agride a todos os publicitários: ?Estão acostumados a textos curtos e simplórios. Têm dificuldade em lidar com raciocínios. Desconhecem o que seja nuança, complexidade, aprofundamento?.

A minha formação está clara, na opção que faço na página 229: ?Tenho preferido os programas eleitorais de rádio e TV que têm o jornalismo como ponto de apoio e de partida. Uma outra linha prefere ter esse ponto nos princípios da propaganda. É que, no primeiro caso, fico com os pés mais fincados na realidade, entrando, quando necessário, pelos veios da emoção e usando todos os recursos que a TV oferece?.

Quanto à discussão sobre a validade do marketing político, condenar a atividade levianamente me cheira a patrulhamento, macartismo abominável. Mas a história é assim mesmo: qualquer movimento evolutivo defronta-se sempre com os contrários.
Isso lembra as discussões acadêmicas do início do século passado, quando a publicidade começou a mexer com hábitos de consumo e os conservadores se perguntavam se era válido e lícito influir na decisão de compra de uma pessoa. Lembra também as discussões acadêmicas do meio do século, surpreendidas com o desenvolvimento da televisão, quando essa ?máquina diabólica? ia acabar com o teatro, com o cinema e até mesmo com a literatura.
Coisas da pré-história das comunicações… ?vade retro?!"

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