Sexta-feira, 15 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

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Mídia, ciência e público

Por lgarcia em 20/09/2000 na edição 98


OFJOR CI?NCIA

OfJor Ciência 2000 ? Oficina OnLine de Jornalismo Científico é uma iniciativa do Observatório da Imprensa, Labjor e Uniemp.

PESQUISA

Roberto Belisário (*)

A Fundação Nacional para Ciência (NSF) dos Estados Unidos lançou, este ano, relatório contendo interessante análise das relações entre a mídia, a comunidade científica e o público. O capítulo 8 dos Indicadores sobre ciência e engenharia 2000 [remissão abaixo] mostra, por exemplo, que o grau de interesse dos americanos com relação às notícias científicas pode nunca ter sido tão alto, mas mesmo assim o público se diz mal-informado; que os cientistas estão entre as pessoas que mais desconfiam da imprensa; e que a disseminação de abordagens pseudocientíficas na TV leva certos programas de ficção, como Arquivo X, a influenciar perceptivelmente nas crenças em paranormalidade e pseudociências.

O restante do relatório é bem mais abrangente, trazendo em suas 1.095 páginas vasta coleção de resultados, análises e conclusões sobre as relações da ciência e da engenharia com a indústria, a política, a educação, a mídia e o público. A NSF é uma agência do governo americano, com membros indicados pelo Presidente dos EUA. Apesar de se referir quase totalmente aos Estados Unidos, boa parte das notícias científicas internacionais dos jornais brasileiros é originária de fontes americanas. Portanto, espera-se que as relações entre ciência e mídia nos EUA reflitam-se em parte na nossa imprensa.

Segundo o relatório, as descobertas na medicina são, de longe, o maior interesse do público. Em seguida estão, entre outros, poluição ambiental e novas descobertas científicas. Curiosamente, a exploração espacial está no 10? lugar ? apenas 28% dos entrevistados disseram estar "muito interessados" nesse tópico (contra 68% na medicina). Temos aqui um caso em que o interesse do público corresponde à cobertura da mídia ? as notícias sobre saúde ocupam a maior parte do noticiário científico ? e outro em que essa correspondência é posta em dúvida (a exploração espacial é tratada como tema de forte apelo popular).

Barreiras de comunicação

A quantidade de pessoas atentas às notícias não corresponde a todo esse interesse: segundo as pesquisas, menos do que 10% do público pode ser considerado atento ? com a medicina ainda na frente, com 16%. Isso pode explicar em parte outro dado muito sugestivo, o fato de que o número de pessoas que acreditam estar bem-informadas sobre assuntos científicos é bem menor do que o número que diz estar "muito interessado". Além disso, os resultados desse tipo de pesquisa dependem crucialmente do método utilizado. Muitas pessoas podem, por exemplo, achar de bom-tom expressar interesse em assuntos científicos. Mas é bem provável que esse resultado denuncie também uma falta de eficiência da mídia em informar ao público sobre ciência ? o que, com toda a probabilidade, seria refletido na mídia brasileira.

Os cientistas estão, segundo o relatório, entre as pessoas que têm menos confiança na imprensa. Cerca de 22% deles disseram ter muita desconfiança da mídia. O crédito à mídia televisiva é ainda menor: cerca de metade dos cientistas declara ter muito pouca confiança nela. Trinta por cento deles concorda em que "a maioria dos membros da mídia noticiosa está mais interessada em sensacionalismo do que na verdade científica" (entre os jornalistas, a proporção desce para apenas 5%).

Porém, o relatório também aponta diversas barreiras de comunicação que dificultam o trabalho dos jornalistas científicos. "Os cientistas tendem a usar o jargão técnico ao invés de inglês comum quando discutem seu trabalho. (…) Têm uma reputação de não serem muito bons em identificar o que é relevante para os leitores ou ouvintes." A mensagem que a NSF envia aos cientistas éeacute;: "Duas coisas são vitais e encontradas em todas os bons textos sobre ciência: relevância e contexto."

Ficção e realidade

A falta de confiança dos cientistas com relação à mídia também faz com que eles sejam relutantes em falar à imprensa. Alia-se a isto o temor de que sejam citados de forma errada ou de que seus trabalhos sejam mal compreendidos, e o chamado "efeito Carl Sagan" ? o medo de que seus pares os desqualifiquem por gastar tempo demais com divulgação em vez de pesquisas. Tais considerações são aplicáveis também à comunidade científica brasileira.

E qual é a mídia que informa ao público? Segundo o relatório, a televisão é a maior fonte de informação dos americanos sobre novos desenvolvimentos em ciência e tecnologia. Seguem-se jornais impressos e livros. O relatório indica que cientistas "e outros" crêem que a indústria de entretenimento influencia as crenças do espectador na paranormalidade e nas pseudociências. O estudo cita explicitamente programas de TV como Arquivo X, que também tem certa audiência no Brasil.

Isso não significa que as pessoas devam deixar de ver Arquivo X, um simples programa de ficção. Indo além do conteúdo do relatório da NFS, podemos especular que o efeito dos programas de ficção é, em boa parte, fruto da disseminação de textos não-ficcionais que não deixam claras as diferenças metodológicas entre ciências e pseudociências. Tais abordagens são encontradas em grande quantidade na televisão e nas estantes das livrarias, e contribuem para mitigar a capacidade de pensamento crítico de espectadores e leitores. O relatório da NSF considera que a compreensão do processo de descoberta e investigação científica pode ser mais importante que o entendimento dos fatos científicos em si, justamente por desenvolver a habilidade no pensamento crítico.

O relatório apresenta interessante discussão sobre a importância da boa divulgação de "fatos, conceitos e vocabulário científicos básicos" pela imprensa. Além da razão acima, a habilidade crítica desenvolvida é útil em diversas situações do dia-a-dia, em que são necessárias decisões baseadas em análise de informações, tais como eleições e júris populares. Ou mesmo para evitar a confiança em "respostas fáceis para problemas complexos" (como imaginar que o pensamento positivo possa substituir o trabalho árduo), ou ser colhido por farsas como as "pirâmides monetárias" (ou os "remédios milagrosos", estranhos líquidos marrons que "curam" de disenteria a desemprego, vendidos em praças brasileiras).

(*) Físico; e-mail: <rbdiniz@terra.com.br>


Veja também

Indicadores sobre ciência e engenharia 2000

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