Domingo, 17 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

PRIMEIRAS EDIçõES > ***

Mídia de silêncios, empolgação e excessos

Por lgarcia em 30/12/2003 na edição 257

ENTREVISTA / DANIEL SCHNEIDERMANN

Leneide Duarte-Plon, de Paris

O caso Daniel Schneidermann ainda não foi encerrado [veja remissão abaixo]. Neste fim de semana, o mediador (ombudsman) do jornal Le Monde, Robert Solé, dedicou todo seu espaço a leitores que escreveram 270 cartas para cobrar mais explicações sobre a demissão do jornalista e crítico do jornal [veja o texto, em francês, na rubrica Entre Aspas desta edição]. Dez cartas foram publicadas.

O caso Schneidermann foi desencadeado pelo lançamento do livro Le cauchemar médiatique (O pesadelo midiático). Nele, o jornalista, ex-crítico da mídia eletrônica no jornal, fazia do Le Monde seu alvo ao criticar em mais de 30 páginas a reação da direção do jornal ao livro La face cachée du Monde (A face oculta do Monde), dos jornalistas Pierre Péan e Philippe Cohen. Le Monde está processando Péan e Cohen.

O diretor-geral do Le Monde Jean-Marie Colombani assina um texto na edição de fim de semana (19-20 de outubro, nas bancas na tarde de sábado, 18), abaixo da coluna do ombudsman, explicando aos leitores que o fato de ter total liberdade no diário obrigava Daniel Schneidermann, mais que qualquer outro, a "uma certa decência e real solidariedade para com o jornal". Colombani considera que ele não respeitou as regras comuns. Entre as críticas a Schneidermann, Colombani diz que ele "reproduz no livro conversas privadas, além de listar um grupo de profissionais, colegas de jornal, que não merecem trabalhar no Le Monde".

Ao dar a notícia da demissão do crítico, o Libération não perdeu a oportunidade de fazer um título irreverente: "Schneidermann n?est plus de ce Monde" . Alguns dias depois, o perfil do jornalista era publicado na última página do Libé" com o título "Adieu, Monde cruel".

A seguir, a entrevista exclusiva de Daniel Schneidermann ao Observatório da Imprensa, concedida num intervalo da edição de seu programa de televisão Arrêt sur l?image, no canal France 5.

***

Por que o Le Monde é alvo de tantos ataques atualmente?

Daniel Schneidermann ? Primeiramente, porque é o jornal francês mais influente e mais importante, portanto é normal que todos os refletores estejam voltados para ele e que o menor deslize provoque reações e debates. É normal que os jornalistas políticos controlem os responsáveis políticos e controlem ainda mais o presidente da República, os deputados de uma circunscrição pequena. É normal também que o Le Monde seja particularmente observado. E também é verdade, digo no meu livro, que há alguns anos o jornal mudou: começou a fazer títulos sensacionalistas sobre informações que, em outros tempos, não teriam nunca sido capa do Le Monde e lançou-se numa política de investigação acirrada com alguns deslizes, como falsas informações publicadas sem retificação. Portanto, trata-se de um desvio sobre o qual outros meios de comunicação e alguns jornalistas sentiam-se livres para fazer crítica normalmente.

Esta política do jornal coincide com a chegada à direção de Jean-Marie Colombani e de Edwy Plenel?

D.S. ? É verdade que a chegada de Plenel à direção do jornal coincide com uma política agressiva de investigação que não era a política do jornal.

E que o senhor critica…

D.S. ? Eu critico a maneira de fazer. Acho correto fazer investigação, é a base do métier do jornalista buscar informações, a maior quantidade possível. É o fundamento do métier. Mas às vezes pode haver deslizes. Por exemplo, quando para justificar um título, o valor dado a uma informação, existe a tendência a inchar um pouco, acrescentar. Existem informações que poderiam ser dadas em um ou dois parágrafos, mas para criar um acontecimento decidem dar uma página inteira. É aí que estão os riscos dos deslizes, dos exageros, da informação esquentada. Outro excesso que critico é que, de fato, todos os jornalistas podem se enganar, mas quando a gente se engana se corrige dizendo "nós nos enganamos", como nos enganamos, por que nos enganamos. Mas o Le Monde muitas vezes esqueceu de fazer isso.

Sua carreira deve alguma coisa ao jornal Le Monde?

D.S. ? Não sei se ela deve alguma coisa, mas ela está ligada ao Le Monde, o único jornal em que escrevi desde o início de minha carreira. Ela está ligada ao Le Monde, ele me acrescentou muito e talvez eu também tenha acrescentado algo ao jornal.

Qual é o poder do Conselho da Sociedade dos Redatores do Le Monde num caso como o seu?

D.S. ? A Sociedade dos Redatores tem normalmente todo o poder de um acionista principal. Os redatores possuem 33% do capital do jornal e quando o principal acionista fala, o patrão escuta. Lamento que a Sociedade dos Redatores tenha decidido que minha demissão estava fora do alcance de sua autoridade. Essa decisão foi tomada por 8 votos contra 4 e lamento muito essa votação, mas fico feliz que 4 pessoas eleitas pela redação tenham votado contra.

O senhor ficou célebre com a publicação de seu livro e logo em seguida com a polêmica sobre sua demissão. Essa celebridade súbita vale a pena?

D.S. ? Primeiramente, não foi calculado, não foi de propósito. Meu único objetivo é continuar meu trabalho de jornalista, continuar o programa da televisão Arrêt sur l?image e talvez em outro lugar, já que o Monde me demitiu. Não estou em busca de celebridade.

Vai tirar proveito dessa experiência para escrever outro livro?

D.S. ? Não, ainda não comecei o segundo volume.

Mas pensa usar essa experiência?

D.S. ? Meu livro Le cauchemar médiatique tem como tema os desvios e excessos dos meios de comunicação e a maneira como esses excessos são carregados de fantasias e de pesadelos. E é verdade que depois da minha demissão todo mundo vive um pesadelo: eu vivi um pesadelo, Le Monde viveu um pesadelo pois o jornal viu-se estigmatizado ? mesmo na imprensa estrangeira, em países distantes e até mesmo em websites brasileiros como o Observatório da Imprensa ? como o jornal que demitiu um jornalista crítico. Para o jornal é também uma espécie de pesadelo desde o lançamento do livro, mas acho que não vou escrever outro livro.

Qual é o pesadelo midiático segundo Daniel Schneidermann?

D.S. ? O que chamo "pesadelo midiático" é uma característica da mídia de hoje, uma alternância de fases de omertà, de silêncio, de incômodo em relação a alguns problemas que não se aborda. Depois, quando eles explodem, vêm os excessos. A primeira fase do ciclo é o silêncio, o incômodo e da omertà; e, depois, esse das respostas, da empolgação, dos excessos, seja sobre a segurança, sobre as redes de pedofilia ou sobre a tele-realidade. Então, tem-se a impressão de que a mídia fala muito e diz muita besteira. No livro, tento compreender como funciona esse ciclo e por que a mídia cede a ele. É o conjunto que chamo de "pesadelo midiático". Na realidade é um pesadelo para os meios de comunicação que perdem a credibilidade; é um pesadelo para o leitor que não sabe mais em que pode acreditar.

Segundo o Libération, o senhor se transformou num star, com uma agenda sobrecarregada, procurado por todos os jornais e revistas para comentar sua demissão. Quantas entrevistas o senhor deu?

D.S. ? Não contei. Umas 15 ou 20. Você vê, isso é um exemplo típico de como a imprensa funciona por temas que empolgam momentaneamente. O jornalista de Libération escreveu que eu tinha uma agenda como a de Britney Spears ? ou Tom Cruise. Sabe por que ele escreveu isso? Porque depois dele eu tinha uma outra entrevista. Eu tinha previsto recebê-lo por duas horas, é muito mais que Britney Spears ? com ela são 5 minutos. Por acaso, tinha outra logo depois dele. No perfil, ele diz que tenho uma agenda de star. Não estava nem no Plaza nem no Ritz, estava num bar, perto da minha casa no subúrbio parisiense. Isso mostra bem como todos os jornalistas podem se deixar levar pelo exagero e como podem funcionar os mecanismos de empolgação crescente e de excessos na imprensa.

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