Domingo, 18 de Agosto de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1050
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Mídia e o dicionário da intolerância

Por lgarcia em 06/02/2002 na edição 158

FÓRUM SOCIAL MUNDIAL

Gilmar Antonio Crestani (*) e Nelson Julio Balestro Júnior (**)

Um ciclo de palestras, patrocinado pela Funarte, foi publicado pela Companhia das Letras com o título Os sentidos da paixão. Foi escrito na época em que o então ministro da Justiça, Paulo Brossard, e o então auto-intitulado "xerife" da Polícia Federal, Romeu Tuma, saíam de helicóptero em busca de boi gordo no pasto, durante um daqueles planos do pai Sarney. O saudoso Paulo Leminski, com a palestra "Poesia: a paixão da linguagem", registrou: "Se a gente está valorizando tanto isso aí é porque está faltando. Hoje, você fala em boi de um jeito que não se falava três meses atrás, porque o boi está faltando, não porque esteja sobrando, de um modo geral, dentro do quadro brasileiro".

O texto de Leminski nos veio à lembrança lendo a insistência da RBS em qualificar os movimentos sociais de intolerantes. Isso ainda vai acabar dando razão a Goebbels, chefe da propaganda nazista, segundo o qual uma mentira repetida mil vezes acaba sendo tomada como verdade.

A linha editorial desse grupo empresarial se conjuga para coincidir com outros nessa mesma linha. Se boi, digo, tolerância, está faltando aos articulistas de Zero Hora, pelo menos poderiam não acusar a outros. Na mesma vertente podemos perceber a propaganda política do PMDB gaúcho que, veiculada na mídia local durante o Fórum Social Mundial, manda embora os participantes em todos os idiomas. E mais: na sexta-feira (1?/2), a TFP (Tradição, Família e Propriedade, dos desfiles pró-ditadura de abril de 1964) fez distribuir com os jornais locais um panfleto "denunciando" o Fórum Social como mais uma tentativa de destruir a paz de que o mundo hoje goza. Então, intolerância de quem?

Como parece que o coronelismo eletrônico só consegue trabalhar com estereótipos, a RBS também elegeu o "José Bové" do Fórum Social Mundial deste ano ? o belga Guy Verhofstadt. Estereotipar é catalogar, primeiro passo no rumo ideológico que justifica e passa a projetar nos outros a sua própria intolerância. Com o cargo de primeiro-ministro da Bélgica na carteira, ares de injustiçado e no melhor estilo "você sabe com quem está falando", Verhofstadt tentou impor sua inscrição como delegado no Fórum. Não queria ouvir, mas ser ouvido. Segundo a organização do Fórum, o veto deu-se pelo fato de o postulante ser integrante de um governo que não fora convidado pela organização. Além disso, Verhofstadt não tem vínculo com qualquer entidade da sociedade civil organizada. As mais de 800 oficinas não interessaram ao belga, preocupado apenas em ser um "primeiro-ministro delegado".

Quanto a José Bové, o comentário mais lúcido partiu de outro José, colunista da página 10 da Zero Hora: "Instalado numa suíte no Plaza São Rafael, pode ser identificado antes de sua chegada ao salão onde é servido o café da manhã, no térreo. Pelo odor. Parece não ser muito chegado a um banho." A ironia, quando muito jocosa, também passa a ter ares de intolerância estereotipada, não? Coincidentemente, a simples vinda do ativista francês obrigou o McDonald’s a publicar, na antevéspera da sua chegada, em todos os jornais gaúchos, que a empresa, "no Brasil, tem como política não utilizar alimentos transgênicos".

Sobre o episódio que barrou o primeiro-ministro belga, a editora de Política da RBS, Rosane Oliveira, encimou a coluna de 31/1/2002 com um tijolaço para definir o veto: "Intolerância". No corpo, confunde liberdade para participar com liberdade para ser condutor do Fórum. No sábado, 2/2/02, foi a vez da "porte-parole" do ministro Pratini de Moraes e da Fiergs, Ana Amélia Lemos, voltar à carga: "Intolerância e solidariedade". A articulista da RBS, que mora em Brasília, não tomou conhecimento da intolerância do governador do Distrito Federal, Joaquim Roriz (PMDB/DF), que, segundo os jornais, pediu uma "salva de vaias ao crioulo petista". Também lhe passou batido o incitamento do prefeito de Presidente Prudente em solidariedade ao pecuarista que atirou pelas costas em José Rainha e que, segundo a Folha de S.Paulo, declarou, a respeito do líder do MST: "Mato ele a tapas". A mesma intolerância que a RBS tentou usar contra os organizadores do Fórum Social Mundial no sentido de exigir condições especiais para a instalação de um canal televisivo, no centro de eventos da PUC-RS, pois a alternativa seria o boicote puro e simples de todo o conglomerado a respeito do Fórum. Estaria acontecendo exatamente o que falava Nivaldo T. Manzano, em artigo previsto para ser publicado pela revista CartaCapital?

Parênteses: as explicações dadas por Manzano revelam que a matéria estava prevista para ser publicada pela CartaCapital, mas, por razões não-explicadas, isso acabou não acontecendo. Trata a referida matéria da partidarização da linha editorial da RBS, bem como das dificuldades financeiro-contábeis enfrentadas pela empresa e os interesses que a subsidiam. Tanto é que seus principais pontas-de-lança são filiados a partidos políticos, com interesse em concorrer nas próximas eleições, seja como prefeito de Viamão, senador ou deputado. Se Antônio Britto se desmentir, também para governador a RBS terá representante.

Fechados os parênteses, de fato, se quisermos mais informações sobre o que está acontecendo neste II Fórum Social Mundial teremos de ler o Le Monde, o Libération ou mesmo o ultraconservador Le Figaro, todos franceses. Como se pode ver, as edições deste sábado e domingo (2 e 3/2) do jornal Zero Hora tratam basicamente da questão bancária argentina. Claro, bancos sempre são prioridade…

Holding Ivanhoé

A preparação de um ambiente hostil tem sido contínua e incansável. Acontece que os métodos vão se aperfeiçoando. Com algumas nuances patrocinadas pelos avanços tecnológicos, a manipulação ganha contornos virtuais. Para ilustrar, recorro a uma brincadeira patrocinada pelos jornalistas Rogério Mendelski, Roberto Appel e José Antônio Pinheiro Machado, com a posterior adesão de outros jornalistas gaúchos, entre os quais Luis Fernando Verissimo. O relatado consta do Anedotário da Rua da Praia 2, com o título de O grupo Ivanhoé, escrito pelo advogado Renato Maciel de Sá Júnior. Esse grupo de jornalistas, todos trabalhando nos jornais de Porto Alegre, no ano de 1971, deu vida ao grupo empresarial Ivanhoé, com suas múltiplas filiais, com biografia de seus prepostos e tudo o mais. Os anúncios fúnebres por ocasião da morte do prócer da empresa provocou a consternação de deputados com base eleitoral na região da cidade de Muçum, também sede da holding. Tanto na Assembléia Legislativa gaúcha como na Câmara Federal, em Brasília, os políticos se enredaram no discurso engenhoso e proferiram o Te Deum pela morte do importante empresário.

Acontece que as notas foram inventadas. Não existia defunto, muito menos defunto empresário. Na véspera do Fórum, um grupo de jornalistas locais, todos vinculados a partidos políticos simpáticos à RBS, que fazem link dos sítios uns dos outros, repercutiram uma nota ao estilo do "Grupo Ivanhoé". Dizia que, durante o Fórum, um grupo de manifestantes atacaria a sede da RBS. O jornal Zero Hora ecoou, em editorial, uma nota sem qualquer fundamento, tal qual os políticos de 1971 a respeito da morte que não houve. Convenceram a funerária, mas esqueceram que coveiro não enterra defunto fresco.

Tudo fica mais claro diante do tratamento condescendente dispensado ao Fórum da Liberdade, que tenta fazer contraponto ao Fórum Social, com convidados da estirpe de Olavo de Carvalho, retrocedendo às idéias do século 18 do "laissez faire, laisse passer, le monde va de lui même". O mesmo axioma que mereceu a seguinte tirada de Anatole France: "Majestosa igualdade das leis, que proíbe tanto ao rico como ao pobre dormir sob as pontes, mendigar nas ruas e furtar pão".

Bovés para a mídia

Na edição passada do Fórum Social, José Bové serviu de mascote aos fotógrafos e repórteres por ter participado da manifestação contra os transgênicos na empresa Monsanto. Não podendo se defender pelo fato de os transgênicos estarem proibidos por lei, a empresa teve, então, em Pratini de Moraes, ministro da Agricultura, e na RBS, os advogados de que precisava. Aquele providenciou uma portaria, depois revogada pela Justiça, e a RBS a campanha de desqualificação dos manifestantes, não do manifesto.

Outro concorrente forte para substituir Bové, na visão de alguns colunistas políticos gaúchos, é o fechamento do comércio no fim de semana do Fórum. "Chega a ser inacreditável que o comércio da capital permaneça fechado durante dois dias exatamente no momento em que Porto Alegre recebe 50 mil visitantes", diz a coluna de Opinião ZH (1/2/02). Não entendem que o Fórum é exatamente isso: a qualidade de vida em oposição a sua mercantilização. Além disso, a Zero Hora mobilizou seus tradicionais articulistas, da Fiergs a acadêmicos de Direito, para pontuarem ataques contra o Fórum com "S". Essa serpente em forma de "S", que tentava o PDS a ponto de substituírem-no pelo "B" , faz o glamour do PSDB, que por sua vez pregou-o na traseira do BNDES.

Com quem está a intolerância?

A questão fica mais clara quando comparamos a cobertura da RBS à dos demais veículos do estado. Pequeno no tamanho mas gigante na credibilidade, se comparado à RBS, o Correio do Povo, por exemplo, destacou em editorial (29/1/02): "Por mais que alguém queira ver no Fórum Social iniciativa apenas de caráter ideológico-partidário ou movimentação de esquerda, não poderá negar sua importância como processo cultural". Dois dias depois, diante do arquivamento das denúncias o mesmo jornal definiu o resultado da CPI da Segurança que perseguiu o governo do estado dizendo que "a montanha pariu um rato". O mesmo comportamento ético seria plausível de uma imprensa minimamente isenta. O correto seria que a RBS abrisse espaço para que as vítimas das denúncias, repercutidas de forma nada isenta, pudessem se redimir das perseguições perpetradas por tanto tempo.

Isto prova que a perseguição perpetrada pelo coronelismo da RBS nem sempre encontra eco nos demais órgãos da imprensa. Se os Ivanhoés persistem nas plantações transgênicas na imprensa, os brancaleones do Observatório da Imprensa igualmente continuamos atentos.

(*) E-mail: <crestani@uol.com.br>; (**) e-mail <nbalestro@uol.com.br>

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