Domingo, 09 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1016
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Mídia em perigo

Por lgarcia em 24/10/2001 na edição 144

COLÔMBIA

Num país em que quatro décadas de guerra civil atingiram todos os aspectos da vida, poucas instituições refletem melhor a complexidade do conflito como a mídia local. Ser jornalista na Colômbia há muito se tornou arriscado ? a violência crescente e a fragilidade das instituições públicas colocaram estes profissionais no topo da lista de alvos.

"Tentamos nos ater à convicção de que somos o centro e manter esta posição numa sociedade muito polarizada", diz Rafael Santos, co-editor-chefe do diário El Tiempo. "Não sei se estamos tendo sucesso." Até agora, nove jornalistas foram mortos no país e muitos são ameaçados de morte. Na década passada, 37 foram assassinados. Só nos últimos 12 meses, o Ministério do Interior recebeu 67 pedidos de proteção de jornalistas, incluindo guarda-costas e carros blindados.

Estes dados refletem o papel central da informação na guerra colombiana. Nos anos 80, na luta entre Estado e cartéis de droga, muitos editores de jornal foram assassinados por se declararem a favor da extradição de chefões do crime para os EUA. Hoje, a guerra contra a mídia é mais sutil, embora a coerção, aliada à recessão econômica, seja igualmente nociva para a qualidade da notícia. "A ameaça real à liberdade de imprensa aqui é a autocensura, a informação que tem valor público mas se não publica por medo", opina Alejandro Santos, editor da revista Semana.

Neste cenário, as organizações de notícias assumem forte posição democrática, em vez de pretender observar o conflito de forma neutra e distante. Isto não significa, porém, uma defesa do governo ? a imprensa continua criticando o processo de paz comandado pelo presidente Andrés Pastrana e expondo casos de corrupção. No entanto, observa Scott Wilson [The Washington Post, 14/10/01], isto destaca a falta de credibilidade das instituições públicas para cuidar dos problemas do país, o que estimula jornalistas a assumir papéis que vão além de sua responsabilidade.

Os grupos armados têm também seu próprio jeito de divulgar idéias e posições, fora da grande mídia. As Farc operam a Radio Resistencia e recebem cobertura positiva da Voz, jornal do Partido Comunista. As Autodefesas Unidas da Colômbia (AUC), de extrema direita, usam seu sítio de internet para comentar os assuntos do dia. Seu comandante, Carlos Castaño, nomeado pelo Comitê de Proteção aos Jornalistas como um dos 10 piores inimigos da imprensa, também soube usar a mídia nacional de forma eficaz. Em entrevista para a TV em março de 2000, "ele se apresentou como vítima do conflito, um Robin Hood moderno que representa a desprotegida classe média", diz Alejandro Santos. "Os atores armados cada vez mais vêem a imprensa como um instrumento de guerra."

VENEZUELA

O presidente venezuelano Hugo Chávez afirmou, na eleição de 1998, que a imprensa poderia criticar suas políticas sem medo de represálias. Ultimamente, diz Juan Forero [The New York Times, 19/10/01], o político ameaçou revogar a licença de uma rede de TV, enquanto critica a mídia local.

Os ataques preocupam ativistas da liberdade de expressão, que temem que o surgimento da autocensura na imprensa ou mesmo uma futura intervenção governamental. "A linguagem [de Chávez] tem sido muito intolerante e agressiva", disse Teodoro Petkoff, editor do diário Tal Cual. "Ele personaliza suas disputas e debates com a mídia e não percebe a gravidade. Ele não entende que não é apenas um líder político, mas o presidente da República."

O NYT não diz, mas desde sua eleição o presidente venezuelano é alvo da má vontade da mídia internacional, embora o governo não tenha feito qualquer restrição às organizações noticiosas até agora. A Constituição reformulada sob a gestão de Chávez contém uma "cláusula de informação verdadeira", e a Suprema Corte regulamentou que jornais não podem promover uma única visão política na maioria de suas colunas e editoriais, a não ser que declare suas tendências políticas.

Na Venezuela, os meios de comunicação assumiram a função de críticos do governo, especialmente na ausência de partidos de oposição fortes. Um dos comentários mais duros do presidente foi feito em discursos neste mês, quando nomeou a rede Globovisión e seu diretor, Alberto Ravell, como "inimigos autênticos da revolução" e os acusou de "conspirar contra o país". "Temos que identificar os inimigos da revolução", disse Chávez. "As pessoas precisam saber quem são e como se parecem, quais são seus nomes. Estou aqui para desmascará-los."

A raiva cresceu, em particular, após a Globovisón ter informado erroneamente que nove taxistas haviam sido mortos numa noite, quando apenas um de fato morreu. No dia seguinte, taxistas de Caracas fecharam várias ruas para reclamar do crime. Chávez acusou a rede de fomentar desordem e avisou que, a qualquer momento, pode revogar sua licença.

    
    
                     

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