Sábado, 18 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

PRIMEIRAS EDIçõES > DIRETÓRIO ACADÊMICO

Mídia endividada preocupa a sociedade

Por lgarcia em 05/05/1999 na edição 66


CONFIRMA-SE o que este Observatório vem repetindo há alguns meses: apesar da pirotecnia marqueteira a que se entregaram na última década, os principais grupos jornalísticos brasileiros estão perigosamente pendurados em dívidas no exterior.

A radiografia desta situação foi feita pela Folha de S.Paulo (edições de 28 e 29/4/99, págs. 2-12 e 2-4) ao revelar que o BNDES, através de uma operação com a Corporação Financeira Internacional (do Banco Mundial), pretende fazer a rolagem das dívidas de 90 empresas privadas brasileiras para diminuir as pressões dos prazos e possibilitar o re-investimento e expansão.

Entre as empresas que serão aliviadas do sufoco estão todos os grandes grupos jornalísticos brasileiros, exceto a Folha. Não aparecem os grupos JB, Bloch, IstoÉ e Gazeta Mercantil, que não conseguem obter créditos no exterior por razões óbvias.

Grandes grupos industriais e financeiros nacionais fazem parte da lista, entre eles Petrobras, Odebrecht, Votorantim, Vale do Rio Doce, Aracruz, Atlas, Camargo Corrêa, Gerdau, bancos Bradesco, Itaú, Real, Bandeirantes, Safra, Sudameris, Garantia, BozanoSimonsen, o próprio BNDES e os estrangeiros ABN-Amro, Citibank, Boston etc.

O fato de uma empresa estar nesta lista não significa que esteja numa situação emergencial ou inadimplente. Mas não é indicador de conforto. Preocupante é que todas as empresas de mídia estejam nos grupos de devedores com maior risco, ao contrário dos bancos.

Mais preocupante ainda é o caráter sistêmico do endividamento – o fato de a Folha não aparecer nesse levantamento não atenua o panorama de uma mídia encalacrada. Se a situação financeira do Grupo Folha é menos grave (de acordo com os dados de endividamento em eurobônus), sob o ponto de vista estratégico sua situação é mais séria, considerando que se trata de um grupo jornalístico que depende majoritariamente de apenas um veículo (a Folha de S.Paulo), enquanto os demais estão apenas alçando vôo (Agora São Paulo e Universo OnLine).

A pole position do ranking de dívidas é ocupado pelo conglomerado Globo, que deve sozinho US$ 1,193 bilhão (com suas parceiras no ramo de TV a cabo, a cifra sobe para US$ 1,578 bilhão). O segundo colocado é o Grupo Abril (com suas associadas de TV a cabo) devedor de US$ 475 milhões. O Grupo RBS deve US$ 175 milhões, a TV Bandeirantes US$ 100 milhões e o Estadão, US$ 75 milhões.

Imagine-se a situação dos grupos jornalísticos menores, que embalados pelas mesmas fantasias que dominaram os gigantes (diversificação, altas tiragens com tabelas de publicidade baixas e outras miragens), despreocuparam-se com o seu core-business, seu negócio principal – credibilidade e competência na difusão de informações.

A mídia brasileira paga salários altíssimos a colunistas, âncoras e outras vedetes (mesmo com a desvalorização do real) e não investe em reportagem. Investiu erradamente em impressoras com configurações que favorecem o uso da cor mas não ajudam em velocidade e número de páginas (os primeiros cadernos dos jornalões brasileiros de domingo têm no máximo 16 páginas, enquanto nos EUA e Inglaterra têm 28).

O grande pecado das empresas de mídia foi descurar da capitalização. Imaginaram que poderiam continuar empurrando com a barriga o problema da falta de recursos. Só agora despertaram para a urgência-urgentíssima na tramitação da reforma do Artigo 222 da Constituição [veja em Entre Aspas, nesta edição], que muda o conceito de propriedade e facilita a entrada de recursos na combalida mídia brasileira.

Esperemos que não seja tarde.

 

ENTRE JANEIRO E ABRIL de 1999, o semanário da Abril deu três notas sobre o Editor do Observatório da Imprensa na TV (com foto!). Nenhum outro programa da TV brasileira mereceu tanta preocupação e desvelo desta qualificada publicação. Todas as notas repetiam o mesmo refrão – nossos baixos índices de audiência. Este Observador agradece a atenção. Dois pontos de audiência é o dobro que imaginávamos quando o programa começou. No Rio e em São Paulo representa o dobro de leitores que a palpitante revista consegue reunir. Isto em apenas um ano de existência, que completamos no dia em que esta edição entrar na rede.

 

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