Sábado, 20 de Julho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1046
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Mídia estimula os crimes que condena

Por lgarcia em 05/08/1999 na edição 72

Luciano Burger Balarotti (*)

 

A respeito da coluna de Fernando de Barros e Silva, “Quando ufanismo rima com…”, publicada no suplemento TV Folha, da Folha de S.Paulo (25/7/99), gostaria de fazer algumas considerações sobre o papel da mídia na formação de preconceitos e ideologias nem sempre recomendáveis.

Certo, é um assunto meio batido, mas no momento me parece razoável falar nisso. Talvez porque hoje em dia a imprensa em quase toda a sua totalidade adote o discurso oficial como única realidade existente. Desde o número de empregos diretos e indiretos que uma nova indústria vai criar até questões muito mais sérias, como a greve dos caminhoneiros, o que se vê no noticiário são apenas as informações do governo (na maioria das vezes, pouco confiáveis).

Até mesmo no campo esportivo, em que havia uma ou outra crítica à Seleção – se não fosse assim, Zagallo não gritaria “Vocês vão ter que me engolir” –, agora sobrou apenas o ufanismo. Talvez porque a Bandeirantes tenha vendido seu Departamento de Esportes à Traffic (e isso lá é nome de empresa confiável?). Ou então porque o Luxemburgo tenha uma imagem de pessoa respeitável, que se veste bem, que sabe se expressar, em suma, um estudioso do futebol.

Desculpa da modernidade

Desta forma, não causa surpresa que até mesmo uma pessoa como o Casagrande, que em sua carreira de jogador lutava contra o sistema (foi um dos líderes da Democracia Corintiana), entre na onda de Galvão Bueno e elogie a escalação de quatro volantes no time do Brasil para jogar contra a fortíssima e perigosíssima seleção americana, dando como desculpa a modernidade (ou seria o neoliberalismo?) – “hoje em dia todo mundo joga assim”.

A princípio, isso pode parecer inofensivo, pois ninguém levaria tão a sério o esporte para ser afetado por esse discurso chapa branca; mas é apenas o princípio. Para que as pessoas não se surpreendam e até achem normal, por exemplo, que FHC fale que vai apelar para a Lei de Segurança Nacional contra o MST, ou que vai chamar as Forças Armadas para conter os protestos nas estradas. Na época da ditadura isso era comum, mas ao menos os jornalistas protestavam, mesmo que nas entrelinhas. No regime militar, as pessoas conscientes até tentavam não torcer para a Seleção, usada como propaganda do regime.

Mas, como aconteceu com a última Seleção que realmente jogava um bom futebol (a de 82), era difícil não torcer para o time de 70. Hoje, quem não torce para a Seleção é acusado de não ser patriota, mesmo que muitos jogadores só estejam interessados em vantagens financeiras.

Epopéia brasileira

A Globo se aproveita do esforço admirável dos atletas de esportes menos populares no Brasil para mostrar que mesmo em inferioridade o povo brasileiro vence obstáculos e atinge o sucesso merecido. É a epopéia de um povo sofrido que supera suas dificuldades, a tentativa de mostrar que esses atletas representam o sistema, que quem manda no Brasil também se sacrifica pelo povo.

O que deveria ser noticiado é a falta de apoio aos atletas, que só recebem atenção do governo quando desfilam em carros abertos ou visitam os palácios.

Ufanismo em qualquer área rima com… nazismo? Fascismo? (Alguma sugestão?)

(*) Estudante de Jornalismo da UFPR

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