Terça-feira, 19 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

PRIMEIRAS EDIçõES > O CASO BAUDIS

Mídia francesa no banco dos réus

Por lgarcia em 30/12/2003 na edição 257

O CASO BAUDIS

Leneide Duarte Plon, de Paris

Um travesti, duas ex-prostitutas, um assassino em série. Histórias de noitadas sadomasoquistas com autoridades do Judiciário e do Executivo da cidade francesa de Toulouse. Tudo se passou na década de 1990, na "Cidade Rosa". Eram esses o cenário e os personagens das reportagens político-policiais que movimentaram a imprensa francesa nos últimos meses.

Um personagem citado por uma das prostitutas como habitué dessas festas era Dominique Baudis, ex-jornalista, ex-prefeito de Toulouse e atual presidente do Conselho Superior do Audiovisual (Conseil Supérieur de l?Audiovisuel), o CSA, órgão do Estado encarregado de supervisionar o funcionamento do audiovisual na França. O "caso Alègre" (nome do assassino confesso de pelo menos seis mulheres, ligado aos meios de prostituição) foi transformado pela imprensa francesa em "affaire Baudis", com grandes reportagens envolvendo a polícia, prostitutas e proxenetas de Toulouse, o matador em série de mulheres, um travesti e alguns magistrados. O travesti morreu na semana passada numa clínica da cidade.

No mínimo, derrapagem

Durante vários meses ? de maio a setembro ? os jornalistas deram fé a acusações das duas ex-prostitutas de Toulouse. Jornais de todas as tendências dedicaram ao "affaire Baudis" um espaço considerável. As prostitutas foram entrevistadas. O travesti contou histórias fantasiosas em que entravam até o atual ministro do Interior, Nicolar Sarkozy, e Tony Blair.

Na semana passada, o caso Baudis deu uma reviravolta e transformou-se no julgamento da mídia francesa, que agora publica retratação de uma ex-prostituta, que atende pelo nome de guerra de Fanny, dizendo que sofrera pressões para citar o nome de Baudis. Quando Fanny mentiu? E por que a imprensa avalizou denúncias de um processo complicado, cheio de depoimentos contraditórios, sem que provas fossem apresentadas e antes que a Justiça apontasse culpados?

O jornal Libération (19/9/) não se retratou. Perguntava na manchete da capa: "Affaire Baudis: médias coupables?". Mas no texto interno tentou se justificar e fez a autodefesa das posições assumidas nas reportagens sobre o affaire. Libération lembra que quando entrevistou Fanny, em junho, a reportagem ressaltava que era difícil separar de seu relato "o que era real e vivido do que era imaginação".

A revista Le Nouvel Observateur (25/9) traz na capa a foto de Baudis, com o título: "Toulouse, história de uma manipulação". Oito páginas contam em detalhe o processo, levando o leitor a concluir que havia muitas acusações graves sem provas materiais e, o affaire Baudis foi, no mínimo, uma derrapagem de grandes veículos da imprensa francesa.

Exemplo de mea-culpa

O jornal Le Monde do último fim de semana (28-29/9) dedicou a página do ombudsman Robert Solé à discussão de como o jornal cobriu o affaire [veja íntegra da matéria, em francês, na rubrica Voz dos Ouvidores, nesta edição]. Muitos leitores se manifestaram por carta ou e-mail, criticando a postura do diário. Solé lembra que Le Monde já admitira num editorial de 19 de setembro que "cometeu erros". Ele começa sua conversa com os leitores dizendo que a imprensa é freqüentemente acusada de "destruir reputações com arma pesada e de tentar restabelecer a vítima discretamente". Por isso, diz ele, Le Monde resolveu dar em manchete a notícia do novo depoimento inocentando Baudis.

O diretor de redação Edwy Plenel afirma que o jornal esperou muito apesar de saber que o nome de Dominique Baudis estava sendo citado no depoimento das prostitutas. Só noticiou depois que o próprio Baudis foi à televisão, em maio, defender-se e atribuir as falsas acusações a pessoas envolvidas com a produção de filmes pornográficos, cujos interesses seriam prejudicados por leis que estavam sendo estudadas pelo CSA.

O médiateur do Monde termina seu texto dizendo que durante essa novela lamentável todos teriam preferido que o jornal se distinguisse mais por sua obstinação em conferir as versões, por sua reserva ou por seu silêncio.

Um exemplo de mea-culpa que deveria ser seguido por todos os jornais e revistas que escorregam em cascas de banana como a desse affaire.

(*) Jornalista

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