Quarta-feira, 22 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

PRIMEIRAS EDIçõES > BRASILEIROS EMIGRANTES

Mídia ignora o mais importante

Por lgarcia em 20/01/2004 na edição 260

BRASILEIROS EMIGRANTES

Giulio Sanmartini (*)

A decisão do juiz Juler Sebastião da Silva de submeter os estadunidenses que chegam ao Brasil a identificação fotográfica e datiloscopia foi realmente um prato cheio para a mídia.

Todavia nota-se um descompasso entre o pensamento dos leitores, nas seções cartas e perguntas (O Globo, Jornal do Brasil, O Dia) e a dos colunistas formadores de opinião. Os primeiros, tomados por um espírito provinciano nacionalista, estão exultando com a decisão do juiz de Mato Grosso do Sul; os segundos, mais bem-informados, tentam dar ordem ao fato. Uma das primeiras foi Dora Kramer (Jornal do Brasil), que classificou o episódio como "exercício de soberania à deriva". No mesmo jornal, Belisa Ribeiro faz ver a inoportunidade, explicando que se trata "do juiz de um estado (Mato Grosso do Sul) que não recebe vôos internacionais". Na Folha de S.Paulo, Gilberto Dimenstein acompanha a crítica, o título de seu artigo diz tudo: "Quanta bobagem". Mas também alguns aprovaram; de forma velada, sem dar opinião, Márcia Peltier (Jornal do Brasil) dá nota informando que um telejornal sueco havia aprovado a medida, ressaltando que "os brasileiros estão fazendo os americanos experimentarem seu próprio remédio". Em O Globo, Elio Gaspari escreve: "Bem-aventurado o juiz federal Julier Sebastião da Silva… yes, nós temos juízes. (…) O que não se pode é deixar o Dr. Bush acreditar que isso aqui é a casa da sogra".

O juiz federal teve seus 15 minutos de glória, foi até citado nominalmente no Il Gazzettino, um diário do nordeste da Itália com sede em Veneza) em matéria que tem por título "Guerra EUA-Brasil com tiros de fotografias e impressões digitais ? Os dois países instituíram idêntico e recíproco sistema antiterrorismo nos aeroportos".

Mas sabe-se que o juiz, ao exigir a reciprocidade, desejava na verdade uma vingança pela dificuldade imposta pelo governo americano à entrada de brasileiros no país. Quem o quiser fazer como turista terá que se submeter a uma série de exigências que assegurem que se trate de verdadeiro turista, e não de um emigrante clandestino.

É justamente esse ponto que não vejo ser mencionado na imprensa, isto é, o porquê da imigração brasileira.

Divisas para o Brasil

Imigrei da Itália para o Brasil em 1946 e, durante os 50 anos em que vivi no país, acostumei-me a vê-lo com um receptor de imigrantes. Acolhia portugueses, italianos, espanhóis, alemães, gregos, armênios, russos, libaneses, sírios, japoneses, chineses, coreanos e nem sei mais o que. Todos vinham ao Brasil fugindo da miséria em busca de uma vida digna, o que não era difícil de encontrar, pois havia trabalho para todos. O fluxo era tão grande que existia uma lei obrigando às firmas a empregar sempre em maior número os brasileiros. Em 1970, pretendi passar uma temporada nos Estados Unidos, mas me foi impossível pela minha condição de italiano, para estes existia um número limitado de admissões e um grande número de restrições, caso fosse brasileiro tudo bem.

Quando fui morar em Franco da Rocha, na Grande São Paulo (1984), descobri que alguma coisa estava mudando. Existiam os "australianos", um grupo de jovens da cidade que tinham ido trabalhar na Austrália, haviam ficado lá por dois anos empregados na construção de uma estrada de ferro no deserto, portanto ganhavam bem e não tinham como gastar o dinheiro, assim faziam uma poupança forçada e voltavam ao Brasil com um capital respeitável.

Depois foram os descendentes de japoneses que foram procurar trabalho na terra de seus avós, trabalham muito, ganham muito e gastam pouco, portanto enviam ao Brasil uma boa quantidade de divisas.

Brasileiros em Belluno

Mais tarde foram os nascidos em Governador Valadares (Minas Gerais) que seguiram para os Estados Unidos, partiam como turistas e iam ficando por lá trabalhando irregularmente, para estabilizar-se até falsificavam documentos. A partir disso é que começaram as restrições à entrada de brasileiros no país. Mas o que quero contar é o fenômeno que estou vivendo aqui em minha cidade natal, de onde saí em 1946 e à qual retornei em 1996. Chama-se Belluno. A Itália é dividida em regiões, que corresponderiam aos estados brasileiros; as regiões têm províncias (o que não existe no Brasil) e estas têm suas cidades. Resumindo, Belluno é uma cidade-província que tem outras 69 sob sua jurisdição, mas faz parte da Região do Vêneto, cuja capital é Veneza.

O Vêneto situa-se no nordeste da Itália, é uma região fria e montanhosa, um pouco menor que o estado de Sergipe. Os vênetos, fugindo da miséria e da fome, começaram a ir para o Brasil em 1875, em 25 anos foram 370 mil ? o que representava 10% da população regional e 1% da população italiana. Como diziam: "I van in Merica a catar fortuna" (nós vamos para a América à procura de fortuna). No Brasil estabeleceram-se, em sua grande maioria em São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.

Quando voltei a Belluno (1996) encontrei somente quatro brasileiras, todas casadas com beluneses: três eram de Minas Gerais (duas de Piraúba e uma de Ipatinga, uma assistente de enfermagem, outra operária e a última garçonete numa pizzaria. A quarta vinha de Serra, no Espírito Santo, cozinheira. Passaram-se seis anos. Uma noite, voltando de Pádua, paro num bar para beber um copo de vinho e o dono me pergunta se os brasileiros haviam-me procurado. Diante de meu desconhecimento do fato, ele me explicou que uma senhora com a filha e um senhor com o filho (só com ligação de amizade) tinham vindo do Brasil para ficar em Belluno. Como não falavam italiano, ele tinha dado meu telefone para que lhes servisse de intérprete. Não fui procurado.

Muitos empregos

Passados alguns meses, por acaso encontro o tal senhor. Ele já tinha alugado uma casa e os brasileiros já eram oito, todos descendentes daqueles vênetos que haviam imigrado para o Brasil há mais de um século. Ele vinha de Urussanga e pretendia obter a cidadania italiana a que tinha direito, podendo fazê-lo num consulado italiano no Brasil. Ficaram ilegais por algum tempo, depois o líder do grupo descobriu uma lei que lhes permitia ficar na Itália por um ano à espera da cidadania e com direito a trabalhar legalmente. Todos empregaram-se, ganhando algo como 1.100 euros por mês (1 euro = 3 reais). É claro que eles também gastam em euro, mas conseguem economizar a metade do salário, mesmo pagando aluguel, aquecimento e impostos, pois não têm despesas adicionais em saúde e educação: tudo é grátis, inclusive aulas de italiano para recém-chegados..

A notícia espalhou-se, e nesse pouco mais de um ano chegaram algo como 200 descendentes de vênetos à procura da dupla nacionalidade. Além do Brasil, estão vindo os que moram ilegalmente na Inglaterra, na Holanda, na Alemanha, na Bélgica e na França. Num prazo de três meses conseguem o passaporte italiano, o que lhes permite viajar pelo mundo sem necessidade de visto.

A cidade de Belluno tem 35 mil habitantes (a província, 200 mil), o fluxo de brasileiros aumenta todos os dias, já foram criados escritórios de "despachantes", para agilizar a legalização. Casas são alugadas onde moram mais ou menos 5 pessoas; assim, há uma notável redução de despesas. Existem muitos empregos, por exemplo, uma fábrica de janelas emprega 18 brasileiros, as mulheres normalmente trabalham como garçonetes ou faxineiras, ganhando 7 euros por hora. Um pedreiro consegue ganhar 1.200 euros por mês. Como no inverno não se trabalha nesse ramo, eles ficam em casa e recebem 80% do salário.

De receptor a expulsor

Em sua grande maioria são pessoas corretas e trabalhadoras, mas sempre aparece um ou outro "esperto", com documentos falsos e pretendendo dar um jeitinho, o que não existe aqui e prejudica a imagem dessa maioria. As repartições que cuidam da emigração estão assoberbadas, os prazos para legalização estão aumentando, já não há a mesma boa vontade inicial. A situação aqui é diferente da dos Estados Unidos: os brasileiros descendentes de italianos (até a quinta geração) têm o direito, por lei, à cidadania italiana e a viver legalmente em qualquer país da União Européia.

Falo de Belluno pois acompanho o fato no dia-a-dia, mas, apesar de ter uma idéia, desconheço o que se passa no resto do mundo com os imigrantes brasileiros.

Claro que a imprensa deve noticiar a decisão do juiz federal; que o comandante de um avião, ao ser identificado fez um gesto obsceno; perguntar o que será feito com o material de identificação dos turistas estadunidenses. Todavia seria mais relevante se a mídia procurasse pesquisar e informar as causas que transformaram o Brasil, durante mais de um século receptor de estrangeiros, num país que, nos últimos 20 anos, tornou-se expulsor de seus compatrícios.

(*) Jornalista, Belluno, Itália; texto de apoio: Brava Gente! Os italianos em São Paulo 1870-1920, Zuleika M. F. Alvim, Editora Brasiliense, 1986

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