Quarta-feira, 22 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

PRIMEIRAS EDIçõES > JB, UMA HISTÓRIA

Me dá um dinheiro aí

Por lgarcia em 13/01/2004 na edição 259

JB, UMA HISTÓRIA

Nilson Lage (*)

Governava Juscelino Kubitschek e o Jornal do Brasil, presidido por Maurina Dunshee de Abranches Pereira Carneiro, viúva do Conde (daí ser chamada de condessa), estava em pleno reboliço com sua reforma gráfica e editorial. Depois de, por mais de 30 anos, ter sua primeira página preenchida por anúncios classificados ? na época, principalmente de empregadas domésticas ? o diário resolvera se transformar no porta voz da modernidade carioca, que morava em Ipanema e começara a surgir pouco antes, ainda nos anos de Vargas, da Petrobras, do BNDE (à época sem o "S" na sigla), da hidrelétrica do São Francisco…

Para o novo projeto gráfico, o JB havia contratado o escultor construtivista mineiro Amílcar de Castro, já então com prestígio no exterior ? se não me engano, expunha em Nova York. Para o texto, importava, um por um, os jovens que, no Diário Carioca, sob o comando de Danton Jobim e Pompeu de Souza, introduziram na rotina da imprensa brasileira o lead americano.

O feito é atribuído (pelos outros e por ele mesmo) a Pompeu, mas sempre tive minhas dúvidas sobre a participação, no caso, de Danton Jobim. Estudioso do assunto, Danton era um articulador low profile (tanto que a maledicência juvenil da redação lhe atribuía o epíteto de "a vitória da preguiça"), mas escrevia bem e pensava com clareza: foi catedrático do curso de jornalismo que funcionava na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade do Brasil e Pompeu era seu assistente. Devem ter tramado aquilo juntos.

De toda sorte, Pompeu foi de fato o executivo da inovação do texto: entre outras provas está aí o style book que escreveu, exemplo de concisão e modéstia para os manuais detalhistas dos jornalões presunçosos de hoje. Partindo principalmente da versão inglesa da notícia jornalística (com períodos um pouco mais longos e sintaticamente mais complexos, o que a aproxima da estrutura das línguas latinas), a reforma incorporou novidades introduzidas na literatura pelos modernistas, tais como escrever que as pessoas moram "na rua X" e não "à rua X", como era antes exigido.

Evidentemente, era mais uma adaptação do que uma cópia: a macaquice viria década e meia depois, quando a imprensa paulista obrigou o resto da nação, cultural e gerencialmente dependente, a colocar a idade em números, entre parênteses, depois do nome: isso é usual em inglês porque a idade é, nessa língua, um atributo ("x years old"); em português é um genitivo de posse ("de x anos"). Brinco sempre com um brilhante colega, o professor Aluísio Trinta, dizendo que ele já foi "Trinta, 30", "Trinta 40" e hoje deve ser algo próximo, para mais ou menos, de "Trinta, 60".

Sombras inominadas

Mas, voltando ao Jornal do Brasil, onde não desembarcara ainda o jovem estudante de direito Manoel Francisco Nascimento Brito, genro da condessa: quem dirigia a redação ? e seria responsável pela primeira etapa da reforma ? era o maranhense Odylo Costa, filho (assinava exatamente assim, com os requintes e florões com que tantos nordestinos adoram enfeitar seus nomes), homem da UDN, portanto inimigo de Juscelino e com certo viés golpista.

A redação tinha lampejos de brilho e surtos de irresponsabilidade que caberia aos mais velhos, naturalmente, conter. Esse não era, porém, traço marcante da figura de Odylo. Assim, o JB, com toda sua tradição de veículo monarquista surgido no segundo ano da República, abriu, certa vez, a matéria sobre um desastre aéreo com muitos mortos na Baía de Guanabara com uma frase, atribuída a uma criança no colo da mãe: "Olha, mamãe, uma avião tomando banho" ? algo politicamente mais do que incorreto..

Quem compunha essa redação? Meio século depois, esquece-se muita gente. No copy desk (o nome era aplicado a um corpo de redatores que reescrevia as matérias da reportagem para adaptá-las ao novo estilo e, quando possível, orientava os repórteres mais jovens no mesmo sentido). Lembro-me do folclorista Edson Carneiro; de um jornalista antigo, que sempre chamei simplesmente de "Bandeira", especialista em gramática (o único sujeito que conheci capaz de guardar de cor as regras de hifenização de palavras compostas em português); do crítico de cinema Décio Vieira Otoni (autor de um título famoso em que uma proposição qualquer sobre hortaliças era seguida de vírgula e da autoria: "assim falou Zaratrustra" ? esse era o nome de um funcionário do Ministério da Agricultura); do poeta maranhense Lago Burnett (seria autor de um clássico sobre texto jornalístico, A língua envergonhada); e a turma que vinha do Diário: José Ramos Tinhorão (o último nome é um apelido que ele incorporou ao banal "José Ramos": pesquisador brilhante de música popular, foi execrado pelo pessoal da bossa nova porque disse o que não pode ser contestado ? que a música de José Gilberto & Cia era uma adaptação de temas e ritmos brasileiros ao tratamento harmônico do jazz); Oscar Maurício de Lima Azêdo (comunista, polemista, advogado, fez carreira política local e ancorou no Tribunal de Contas do Rio); Nilson Viana … e uma porção de sombras lamentavelmente inominadas.

Presidente agastado

Por ali passaram, em períodos curtos, Nélson Pereira dos Santos, o cineasta, acho que logo depois de Rio, 40 graus; Marcos de Castro (antes do "de", há um monte de sobrenomes que eu seria incapaz de reproduzir; católico progressista, escreveu sobre a vida de D. Hélder Câmara, arcebispo de Olinda e Recife, e publicou outro clássico do texto jornalístico, A imprensa e o caos da ortografia).

Na chefia, Janio de Freitas. Antes, tinha estado por lá Ferreira Gullar (outro poeta maranhense que faria história; mas, no espírito daquela redação, o que o notabilizava era ter improvisado, com um bambu e uma mola de pressão, uma espécie de extensão do braço com que levava ou apanhava as matérias diretamente da mesa dos redatores) e Luís Paulistano, jornalista brilhante que morreu quando era assessor do governador do Estado do Rio Roberto Silveira (o filho, José Roberto, também foi governador) e o helicóptero em que os dois viajavam, caiu.

Provavelmente foi Odylo ou alguém da UDN quem descobriu no canto inferior direito de uma página de O Cruzeiro, magazine dos Diários Associados na época ainda no apogeu, uma foto em que apareciam Juscelino e o secretário americano de Estado, John Foster Dulles, em visita ao Brasil. O presidente erguia-se da cadeira com a mão espalmada para cima, na horizontal; o embaixador o esperava, de pé, braço semi-estendido, a palma da mão para baixo. O Jornal do Brasil pediu ou comprou a foto (creio que de Jean Mazon) e a abriu na primeira página.

Até aí, o viés oposicionista-golpista do diretor da redação; só que coube a Tinhorão fazer o título da foto ? e ele era famoso pelo humor ácido. Na época, fazia sucesso esta marchinha de Carnaval, inspirada em um mendigo, personagem-tipo de programa humorístico da TV interpretado por Moacir Franco:


"Ei, você aí,

me dá um dinheiro aí,

me dá um dinheiro aí.

Não vai dar,

Não vai dar não,

Você vai ver

a grande confusão.

Eu vou beber,

beber até cair.

Me dá, me dá, me dá,

me dá um dinheiro aí."


Foi o bastante para o Tinhorão. O título saiu: "Me dá um dinheiro aí". Dizem que Juscelino ficou tão chateado com a coisa que deixou de assinar uma das concessões de canais de televisão do Rio de Janeiro que estavam sobre a mesa ? a do Canal 2 ? para o Jornal do Brasil; a outra, do Canal 4, coube a O Globo, que só lançaria a emissora um ano após o golpe de 1964.

Ritmo de nostalgia

O eventual leitor desta longa coleção de velhas anedotas deve estar pensando por que, afinal, resolvi trazer tudo isso do porão da memória, com risco de cometer erros e omissões graves ? ser contestado e xingado por isso.

Respondo: é que li na internet um editorial do Jornal do Brasil, hoje comandado por Nelson Tanure, empresário baiano (não confundir, por favor, com Tanure Ojaide, o poeta nigeriano de State Executive: "Whatever we hid in our guts, he found and wiped out."/ "O que quer escondamos em nossas tripas, ele acha e arranca") , sobre a distribuição de verbas do governo federal.

Não vou entrar no mérito das informações, tiradas de uma matéria da Folha de S.Paulo (vai outro parêntese: já observaram que os jornalões paulistanos adoram dizer que são paulistas ? Estado, Folha, Diário ? e, além disso, não escrevem "São", como se diz, mas "S."? Por que será?), matéria assinada por Josias de Souza. Mas a choradeira é ótima. Por ela se fica sabendo que o jornal que mais posa de oposicionista dentre os grandes ? exatamente a Folha ? teve mais anúncios no cinqüentenário da Petrobras; o Estadão, outro que vive fazendo caretas, ficou em segundo lugar; O Globo ficou em terceiro; o Jornal do Brasil e a Gazeta Mercantil, hoje associados, repartiram entre si algo perto dos 10% que couberam ao jornal da família Frias.

O curioso é o baianismo de Tanure. Primeiro, ele trai a origem provinciana: como o bom cabrito não berra, a boa chaleira metropolitana não chia. Segundo, diz que a Gazeta é o mais importante jornal econômico do país. Foi. Terceiro, equipara o Jornal do Brasil a O Globo. Foi, também.

Ah, o passado!

É como se o mais que centenário Jornal do Brasil entrasse janeiro em ritmo de nostalgia:


"Me dá, me dá, me dá, oi,

Me dá um dinheiro aí!".


(*) Jornalista, professor titular da Universidade Federal de Santa Catarina

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