Quarta-feira, 17 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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Michael Kinsley

Por lgarcia em 16/01/2002 na edição 155

GUERRA & TERROR

"Dando ouvidos aos nossos ?Ashcrofts interiores?", copyright O Estado de S.Paulo, 8/1/02

"Tão logo o presidente George W. Bush declarou guerra ao terrorismo, combatentes culturais se apressaram em ir para seus costumeiros postos de batalha. De satélites que pairam no espaço, uns poucos direitistas esquadrinham a paisagem, prontos para apontar seus raios laser e disparar contra quaisquer pacifistas que ousem solapar o esforço de guerra com seu derrotismo e relatividade moral. Enquanto isso, em casamatas bem no fundo das maiores universidades dos Estados Unidos, uns poucos esquerdistas se reúnem à volta de sensíveis dispositivos sísmicos capazes de detectar ondas de choque resultantes até da mais leve supressão formal da discordância.

Para os dois grupos, os ganhos são de uma escassez exasperante. No começo, o humorista de TV Bill Mahler violou a convenção retórica de que todos os maus sujeitos são covardes, ao comentar que, com toda a razão, é menor covardia seqüestrar um avião comercial e pilotá-lo, causando a própria morte, do que despejar mísseis a partir de uma grande distância. Houve um espalhafato espantoso, o programa de Mahler perdeu alguns anunciantes e algumas estações locais, mas ele não foi demitido. No fim das contas, não era propriamente o caso Rosenberg, nem da perspectiva de um lado nem do outro. E o repertório não se enriqueceu muito desde então. Susan Sontag diz algo estúpido e, depois, volta atrás. Um par de articulistas de jornais critica a liderança de Bush e eles são demitidos. Um orador de festa de formatura se queixa do secretário de Justiça, John Ashcroft, e é molestado fora do palco. O próprio Aschcroft diz, vaidosamente, que ?quem assusta amantes da paz com fantasmas de liberdade perdida (…) só ajuda terroristas?, ao desgastar a unidade nacional. Mas ele não propôs nem sequer ameaçou com restrições concretas o direito de os americanos discordarem – concentrando-se, em vez disso, em novos meios de trancafiar estrangeiros.

A escassez de matéria-prima para esses dois moinhos – um que mói dissidentes desleais e o outro que mói a asfixia da dissidência – tem a mesma causa: quase ninguém está divergindo. É difícil divergir da afirmação básica de que os perpetradores de um crime monstruoso como o de 11 de setembro são alvos dignos do poderio militar e diplomático dos EUA. Mas tem havido discordância notavelmente menor quanto a questões secundárias, não correlatas, e à liderança de Bush em geral. Até a zombaria cordial minguou em grande parte durante certo tempo, substituída por uma torrente inédita de fervor e pieguice patrióticos.

Por quê? Em parte, por causa da autocensura. John Aschcroft pode relaxar porque as pessoas estão dando ouvidos ao seu ?Ashcroft interior?. Sei disso muito bem porque sou uma delas. Como redator e editor, venho censurando muito a mim mesmo e a outros, desde 11 de setembro. Por ?censurar? me refiro a não escrever ou publicar coisas por razões que dependem somente da minha avaliação de seus méritos. Que razões? Às vezes, a sensação sincera de que um comentário comumente adequado se torna inadequado neste momento extraordinário. Outras vezes, é o autêntico respeito aos leitores, que podem sentir de um certo modo que eu não sinto. Mas, em outras vezes ainda, é pura covardia.

O secretário de Imprensa da Casa Branca, Ari Fleischer, com brilhantismo característico, descreveu bem a situação quando disse, no começo, que nesta guerra os americanos ?precisam tomar cuidado com o que dizem?. Ele não se referia a segredos de segurança nacional nem estava ameaçando com censura oficial. Apenas descrevia um clima em que lugares-comuns são sacrossantos e tentar dizer algo interessante pode significar problema superior ao valor do que é dito. Especialmente se se vai longe demais ou se expressa muito mal, conforme pode acontecer caso se tente ser interessante e não se tome cuidado com o que se diz.

O direito de ir longe demais e o direito de se expressar mal podem não parecer direitos terrivelmente fundamentais, mas são. O ato de abir a boca não é uma ciência exata, e fica muito mais difícil fazê-lo se se estiver olhando por cima do próprio ombro, ao mesmo tempo. Veja-se uma comparação com a lei contra a calúnia. A Constituição protege algumas declarações falsas contra processos por calúnia, não para defendê-las, mas para dar uma certa margem de erro necessária às tentativas de dizer a verdade. Por razões idênticas, uma cultura política saudável precisa ser capaz de ignorar certos comentários estúpidos ou até ofensivos. Se a preocupação principal é não dizer nada de ofensivo ou sujeito a interpretação errônea, fica sem ser dita muita coisa que é verdadeira e até, possivelmente, sábia. Ou, no mínimo, divertida. Bill Mahler está tomando cuidado com o que diz ultimamente, e a nação está mais pobre por causa disso.

Se alguém não tomar cuidado com o que diz, arrisca-se a ser atropelado pela ?grande máquina do ressentimento americano?. O sistema político dos EUA protege a liberdade de expressão contra a supressão formal, melhor do que qualquer outra nação. Mas a cultura americana tolera menos opiniões e condutas extravagantes do que muitas outras culturas, e essa tolerância diminuiu ainda mais desde 11 de setembro. E, como os combatentes culturais gostam de salientar – ou, na verdade, de se queixar (como no debate sobre retidão política) -, as normas de uma sociedade são estabelecidas pela cultura tanto quanto pelo sistema político. Num país como a Grã-Bretanha, as proteções legais concedidas à liberdade de opinião são mais fracas que as nossas, mas as proteções sociais são mais fortes. Elas carecem de uma Primeira Emenda, mas t&ecircecirc;m pele mais grossa e uma aceitação maior de excentricidades de todo tipo.

O que é suprimido quando se toma cuidado com o que se diz não é divergência política formal nem são revelações importantes sobre conduta ilegal do governo. De qualquer forma, essas coisas se dizem com cuidado. São as críticas menores ao governo norte-americano e aos nossos líderes, o estranho comentário especulativo de que nem você está certo de si mesmo, a piada que pode não surtir efeito. Mas estes também são importantes. Minha resolução de ano-novo para 2002 é parar de dar ouvidos ao meu ?Aschcroft interior? e tomar menos cuidado com o que digo. E você?"

 

"Imagens inéditas mostram horrores de 11 de setembro", copyright Último Segundo / The New York Times

"NOVA YORK – O vídeo não foi trabalhado, encontra-se em sua forma original. Mostra a ponta negra de um avião se chocando contra a torre norte do World Trade Center. E mostra comandantes no lobby do edifício, tentando encontrar caminhos para enviar as equipes de bombeiros para o prédio em chamas.

E captura transmissões de rádio ordenando que todos deixem o prédio após a colisão do segundo avião. Mostra, ainda, o manto de poeira e destroços diante do súbito colapso do prédio. E apresenta as botas de um capelão dos bombeiros que está sendo carregado em meio à fumaça e aos gritos de desespero. Mostra, com realismo, os rostos de homens ansiosos, minutos antes de sua morte.

Uma pequena seqüência de imagens mostrando o primeiro avião se chocando contra a torre norte foi visto por milhões de pessoas nos dias posteriores a 11 de setembro. Mas o restante do vídeo de 90 minutos nunca foi mostrado publicamente. As imagens foram tomadas por um cinegrafista francês, Jules Naudet, que por acaso estava filmando um grupo de bombeiros em Lower Manhattan. É um documento do desastre visto do interior: o impacto, a busca por ajuda, o frenético esforço para estabelecer um posto de comando, as cores vívidas que se apresentam com o colapso das torres.

Cópias da fita foram vistas e comentadas pelos bombeiros da cidade de Nova York, ganhando importância de filme cult e os bombeiros afirmam planejar as imagens como uma ferramenta de investigação. O cinegrafista afirma que deseja transformar a fita em um documentário e entregar às famílias dos mortos.

A fita, contudo, supera este objetivo. É uma visão extraordinária da história no momento dos acontecimentos. A fita é extraordinariamente imediata, crua, gráfica, realista. O paladar de fumaça e poeira de concreto é possível de ser sentido.

Em 11 de setembro, Naudet estava com os bombeiros nas ruas, como em quase todos os outros dias havia três meses. Seu trabalho aborda a vida de um bombeiro iniciante, no quartel dos bombeiros localizado no centro da cidade onde as corporações Engine Co. 7 e Ladder Co. 1 estão estacionadas.

?Por acaso nós estávamos lá?, ele declarou em uma entrevista ao telefone na noite de Sexta-feira. ?Os verdadeiros heróis são os homens extraordinários que entraram nos prédios em chamas e perderam suas vidas?.

Francis X. Gribbon, porta-voz dos Bombeiros, declarou que as autoridades têm uma cópia da fita, que será uma ferramenta de investigação e um elemento histórico.

?Por algum tempo, as imagens capturaram as últimas bravas ações de alguns bombeiros que entraram em ação para salvar outros?, destacou Gribbon. ?Para outros nos Bombeiros, será um instrumento para determinar quem estava no prédio, e nós acreditamos que será muito útil. Como prova, deverá nos ajudar a entender o que de fato aconteceu na torre um, como aquelas companhias que se comunicavam dentro do prédio?

O comandante Joe Pfeifer, que estava envolvido no projeto de documentário, sobreviveu. O capitão Terrence Hatton, filmado em certo ponto da fita, está morto. Vários dos rostos na fita pertencem àqueles mortos. Entre aqueles presentes nas imagens estão elementos da Autoridade Portuária, que se mostraram cruciais na evacuação e outros civis que bravamente auxiliaram nas buscas."

 

ARGENTINA EM CRISE

"El dia que me quieras", copyright O Globo, 8/1/02

"O peso se descola do dólar e o Brasil da Argentina, ao menos diante dos olhos dos investidores internacionais. É o que tenho lido, visto e ouvido. Mas… e a Argentina, diante de nossos olhos?

Faz dez anos passei uma temporada longa em Buenos Aires, a serviço de uma empresa jornalística brasileira. Tratava-se de implementar revistas, em associação com um empresário local. Mudei de mala, cuia, filho, mulher e cachorro. Estávamos embriagados com o fulgor que se anunciava de uma Argentina que ?não mais chorava por si?, como na letra do musical ?Evita?. Quem se hospedava no Hotel Alvear, da Capital Federal, e saía para o seu footing pelas largas calçadas, ao encalço de um suculento ?bife de chorizo?, só sentia brisas de bons ares.

Buenos Aires: a paridade do dólar com o peso se comemorava dia e noite, como se, do dia para a noite, o país tivesse alcançado a paridade econômica com os Estados Unidos, Brasil à margem.

Não alcançara. O cotidiano profissional revelou um país melancólico, amarrado, anacrônico. Você queria lançar o nome de uma publicação internacional; não havia lei de direito autoral que o amparasse. Alguém em ?Corrientes 348, tercer piso, ascensor?, registrava o nome e pedia um milhão de dólares para vender o direito de uso. O seu próprio direito.

Você queria lançar, então, o nome de revista que fizera sucesso há 20 anos. Ótimo! Só que o distribuidor, por um tácito ?acuerdo de caballeros?, deveria ser aquele mesmo que detinha esta tarefa 20 anos atrás, ainda que a empresa estivesse em colapso financeiro. Resultado: o distribuidor distribuía o primeiro número, retinha o segundo, não pagava nenhum dos dois e ainda pedia dinheiro para sair do negócio. Economia de mercado, nem pensar.

Você queria tirar fotos. Não havia estúdios gabaritados. Você queria imprimir. Não havia gráficas com maquinário atualizado. Você queria contratar gente. Uma lei, do período peronista, previa que periodistas, após dois meses de contrato, se demitidos, deveriam ser indenizados com um ano de salário…

Protecionismo, populismo, peronismo. Em tudo e por tudo. Os argentinos concentraram quase 2/3 de sua economia na Grande Buenos Aires e mais de 2/3 de suas esperanças na aparente grandiosidade econômica e a força cultural do país. Não diversificaram suas contradições, como se tudo se resumisse a um jogo entre esquerda e direita, militares e ?locas de la Plaza de Mayo?, peronistas e não-peronistas, presente e passado. E o futuro, onde estava?

A equipe jornalística, recrutada entre talentos de vanguarda do país, muita vez me surpreendia, não apenas pela articulação, inteligência, profunda erudição intelectual, mas pela rápida modificação com que se fechava em copas, mudava seu humor e retrocedia quando o assunto era Argentina. O aparente discurso progressista sempre cedia lugar, lá no fundo, lá no fundo, a um clamor que gritava ?las Malvinas son argentinas!?. E ponto.

Aí cabe constatar que os povos que, pelo exagero, incensam suas nações são os mesmos que, repentinamente, se desesperam e querem abandoná-las. O fluxo exagerado de ardor cívico ? que irrompeu na primeira metade do século XX na Europa e Japão ? por aqui produziu algumas marchas no estádio de São Januário, Getúlio à frente do cortejo. Mas não vicejou.

Há um misturadinho nestes profundos brasis que nos habitam, neste tambor-de-crioula do Maranhão que produz eco tão distinto do tambor da folia de reis de Paraty, que vale a pena refletir. Graças a uma aparente falta de civismo, sempre nos conduzimos pela esperança. O país poderia ter avançado mais? Sem dúvida. Mas, mesmo que o país não esteja lá globalizado, o seu cidadão o é. O brasileiro, por sua natureza, é naturalmente um cidadão do mundo, disposto a acolher outros e outras idéias, que sabe vivificar na diversidade.

Por isso, não estagnamos. Nem ficamos cultuando o nosso passado. A solução da Argentina, permitam-me Cavallos e cavalheiros, não passa apenas por novas estruturas políticas e econômicas. Passa também por um viço e frescor cultural que tire do anacronismo determinadas idéias que se apegaram ao espírito do país.

Auto-suficiente em energia, com um pampa riquíssimo e um povo altamente educado, não faltam à Argentina condições para este salto. Como na música de Gardel, ?El dia que me quieras?, pela primeira vez na História a Argentina quis consultar o Brasil sobre o seu próprio destino. Um ato político, sem dúvida, mas de profunda repercussão para o âmago do argentino.

O Brasil se descolar da Argentina pode não significar afastamento, mas, finalmente, mais proximidade. Afinal, temos perfis próprios. Culturas próprias. E a deles não é melhor que a nossa. Nem vice-versa."

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