Sábado, 26 de Maio de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº988
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Midiagate, fase 2: vem aí o efeito bumerangue

Por lgarcia em 20/09/1998 na edição 53

Alberto Dines

 

A

imprensa americana imaginava que poderia sair ilesa do caso Clinton. Serviu de joguete dos mais sórdidos interesses políticos enquanto saciava sua incomensurável inclinação para o burlesco e a patuscada. Respaldada nas glórias passadas do episódio Watergate e num poder de fogo hoje decuplicado pela TV a cabo e pela Internet, pensou em repetir a façanha que culminou com a renúncia de Nixon.

Ferrou-se: Clinton pode até cair, mas o tiro está saindo pela culatra. Uma releitura das nossas edições de fevereiro em diante, com a reprodução do que disseram as poucas figuras e instituições respeitáveis da mídia americana, dá uma idéia da lambança moral que envolveu a veiculação das primeiras denúncias sobre Monica Lewinsky.

A divulgação pela mídia do relatório Starr mantém a segunda fase do caso dentro dos mesmos padrões abjetos. Com o agravante: fere o sagrado princípio jornalístico de eqüidistância e imparcialidade. Nenhuma denúncia pode ser publicada desacompanhada da contra-argumentação.

Dentro da lógica do jogo político, pode-se compreender que os parlamentares republicanos tenham negado aos advogados de Clinton o acesso às acusações de Starr. Dentro desta mesma lógica não é difícil entender que o poder legislativo americano, dominado pelos mesmos republicanos, tenha divulgado apenas parte de um processo de investigação.

Incompreensível foi a atitude da mídia incorporando as regras de um jogo político imoral e esquecendo seus compromissos de isenção e imparcialidade. Uma imprensa séria recusaria publicar o relatório enquanto não tivesse uma resposta completa dos advogados do acusado. Ainda mais quando se pretende um processo de impugnação – impeachment – político.

É possível que este tipo de escrúpulo ético tenha sido considerado em algum momento em alguns veículos jornalísticos. Mas não vingou: no fim, todos se locupletaram com a bacanal federal. Sem medir espaço ou tempo: o relatório Starr bateu todos os recordes de divulgação, graças à decisiva participação das novas mídias.

A matéria de capa da última edição do The Economist – considerado o mais sofisticado semanário de língua inglesa – é jornalismo de quinta categoria. Serve para dimensionar o furor assassino das hostes conservadoras nesta débâcle do “capitalismo global”.

A imprensa brasileira foi na onda, nem mais inocente nem mais sórdida do que a matriz. Chama a atenção o comentário do correspondente em Washington de O Globo [ver remissão abaixo], José Meirelles Passos, onde revela a mídia americana atônita e frustrada diante da reação impassível e superior do público diante do “Big Carnival”.

Qualquer que seja o desfecho deste espantoso episódio, fica patente a extensão do processo de corrosão e a desconfiança que minam a mais exemplar instituição gerada pelo sistema democrático.

Clinton pode até ser arrastado pela lama, mas a imprensa vai junto.

 

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