Sábado, 07 de Dezembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1066
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MIDIAGATE

Por lgarcia em 05/02/1998 na edição 38

Flávia Sekles

 

Washington – Alegações reproduzidas com frenesi, fontes vagas e jamais identificadas, precipitação e avidez evidentes sob o pretexto do ‘jornalismo investigativo’. O comportamento da mídia americana no caso das acusações contra o presidente está dando o que pensar. Uma coisa é certa: além de desestabilizar o governo e a força política do presidente – quem sabe, por nada -, a venda de jornais, revistas e a audiência de programas noticiosos na televisão estão em alta. Não se viam vendas tão intensas desde a morte da princesa Diana.

A ânsia de furar os outros sem tomar todas as precauções comuns ao jornalismo – como a checagem e rechecagem de fatos – forçou ontem o jornal Dallas Morning News a desmentir uma matéria impressa em certo número de exemplares e publicada na Internet, segundo a qual agentes do serviço secreto teriam flagrado o presidente Bill Clinton e a ex-estagiária Monica Lewinsky em relações íntimas. Neste caso, a própria fonte – um advogado em Washington – disse depois da publicação da matéria que não tinha certeza dos fatos. Tarde demais: agências de notícias e a CNN já haviam republicado a notícia.

Outros que não publicam e depois são furados ficam na desconfortável posição de ter que explicar aos leitores por que seguraram a matéria. Foi o caso da revista Newsweek na semana passada, quando tinha a história mas não a publicou, porque os editores não acreditavam que as provas eram suficientes; nesta semana, a revista explica sua decisão, transformando o veículo de informação em parte da notícia.

As mães americanas que servem de motoristas para seus filhos precisam se lembrar de, além de colocar os cintos de segurança, desligar o rádio: as notícias sobre o zipergate envolvem constantes referências sobre sexo oral, marcas de esperma em vestidos, sexo por telefone. O presidente dos Estados Unidos, que deveria servir de modelo para as criancinhas, leva agora a perguntas como: ‘Mamãe, o que é sexo extraconjugal?”

Algumas redes de televisão fazem anúncios antes de colocar no ar as matérias sobre o escândalo. Judy Woodruff, da CNN, disse recentemente: “Aqui vai um aviso. Estamos lidando com um assunto delicado que não é próprio para crianças pequenas.” Um âncora da NBC, Matt Lauer, avisou: “Vamos discutir um assunto que pode não ser próprio para as crianças. De fato, não é.”

No entanto a notícia é um bônus inesperado para a indústria de mídia. O USA Today aumentou em 20% (500 mil exemplares) sua edição do último fim de semana. The Washington Post está imprimindo 15 mil exemplares a mais por dia para vendas em banca, e a revista Time aumentou a edição atual, que tem o presidente e Lewinsky na capa, em 100 mil cópias. Nos primeiros dois dias do escândalo, a audiência da CNN cresceu 40%, a do programa noturno de entrevistas Nightline da ABC subiu 29%, e os programas de entrevistas de domingo de manhã, 36%. Sites da Internet que se dedicam à política também estão recebendo um número muito mais alto de hits diários.

No cinema, a maior de todas as ironias: o filme Wag The Dog, sobre um presidente que tem um caso amoroso com uma garota de 14 anos, cujos assessores políticos contratam um produtor de Hollywood para produzir um confronto militar para distrair a imprensa (no caso, eles criam uma guerra contra a Argélia), está atingindo um sucesso de bilheteria inesperado.

O único setor da mídia que não espera um aumento de vendas é a imprensa de tablóides. Seus leitores gostam mais de escândalos sexuais com estrelas de cinema do que com políticos, e para os repórteres desses órgãos que não inspiram respeito, seria impossível fazer mais do que os colegas de instituições tão respeitadas estão fazendo.

>Copyright Jornal do Brasil, 28/1/98.

 



Julie Vorman, Reuters

 

Washington – Vagas referências a fontes, boatos e algumas retratações têm provocado crítica aos meios de comunicação americanos que estão numa grande disputa para registrar detalhes dos escândalos sexuais enfrentados pelo presidente Bill Clinton. “Este é um megafrenesi com repórteres demais na caçada de poucos fatos”, diz Larry Sabato, professor da Universidade de Virginia que acompanha a cobertura da mídia ao presidente. “Já se verifica uma saturação pública. As pesquisas mostram que a esmagadora maioria do povo acha que a mídia está dedicando tempo demais a esta história”, afirma.

Na terça-feira, o jornal Dallas Morning News retirou de seu site na Internet uma reportagem segundo a qual um agente do Serviço Secreto estava disposto a testemunhar que vira Clinton numa situação comprometedora com Monica Lewinsky, ex-estagiária da Casa Branca. Segundo o jornal, o agente entrara em contato com a equipe do promotor Kenneth Starr, encarregado de investigar o caso. Em poucas horas o diário desmentia a notícia. Ontem, o Dallas Morning News desmentiu o desmentido: a primeira reportagem seria a verdadeira.

Na semana passada a rede NBC de televisão transmitiu um informe citando fontes anônimas que alegavam que Clinton teve um caso com a mulher de um ricaço do Partido Democrata. Depois a NBC esclareceu que Clinton tinha apenas sido perguntado sobre uma possível ligação com a mulher em seu depoimento no caso Paula Jones.

A rede CNN informou, no sábado que “assessores próximos” de Clinton já estavam falando de uma possível renúncia presidencial. Duas horas depois, a CNN informou que assessores da Casa Branca tinham negado, irritados, que tal medida estivesse sendo examinada.

Essas histórias tem provocado indignação na Casa Branca. “Na corrida pela reportagem, alguns dos padrões editoriais mais parecem ter sido esquecidos”, disse na terça-feira o porta-voz Mike McCurry. Em entrevista ao programa Today Show da NBC Hillary Clinton atacou a mídia: “Estão dizendo todo tipo de coisas e publicando boatos e insinuações”.

James Fallows, editor de US News and World Report, disse que a Internet está baixando o padrão de prova da imprensa nacional em reportagens investigativas. Alegações que teriam sido cuidadosamente checadas antes não são mais. Agora a notícia fica velha rapidamente e há uma busca constante por novas delícias.

 

Copyright Jornal do Brasil, 29/1/1998.

 

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