Sexta-feira, 15 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

PRIMEIRAS EDIçõES > 1.

Minitratado das grandes virtudes

Por lgarcia em 24/07/2002 na edição 182

BENJAMIN FRANKLIN, JORNALISTA

Paulo Roberto de Almeida (*)

Questões filosóficas são geralmente pouco operacionais na vida diária, a menos que se trate de problemas da filosofia pragmática, nos quais sempre foram peritos, como se sabe, os pensadores anglo-saxões, dos dois lados do Atlântico. Essas questões passam, assim, a despertar maior interesse quando à qualidade de pensador anglo-saxão se alia a condição de homem eminentemente prático, voltado para a resolução dos problemas correntes da atividade econômica ou das dificuldades "técnicas" encontradas na vida diária. Mais interessante ainda quando essa vocação de "solucionador prático" é sustentada por sólido espírito moral, comprometido com o bem estar da comunidade e com a disposição de fazer o bem, para si mesmo e para todos os seus demais membros.

Estas reflexões me vieram à cabeça ao ler a biografia de Benjamin Franklin pelo historiador H. W. Brands, The First American: the Life and Times of Benjamin Franklin (New York: Anchor Books, 2000). Trata-se de obra imponente: 760 densas páginas cobrindo todos os aspectos de uma vida verdadeiramente singular, talvez a figura mais representativa dos chamados founding fathers da República americana, o homem múltiplo que, tendo sido, sucessivamente e por vezes ao mesmo tempo, impressor, jornalista, tribuno, representante diplomático na Europa, inventor, homem do legislativo e do executivo, foi um dos redatores da Declaração de Independência e, como tal, um pouco mais tarde, o supremo organizador do consenso político que permitiu a emergência do conciso texto constitucional que (não considerando aqui suas emendas e adições) já cumpriu mais de dois séculos de existência continuada.

Não são contudo essas atividades eminentemente práticas, políticas e sociais, que chamaram a atenção na impressionante biografia de Brands, a ponto de interromper a leitura para redigir estas notas de reflexão. Foi, de forma prosaica, uma simples discussão sobre as características filosóficas (deístas) e as orientações de ordem moral de Benjamin Franklin. No quarto capítulo da obra ("An Imprint of His Own, 1726-30"), quando ele se ocupa da primeira parte da carreira de impressor de "Ben" Franklin, ainda nos seus vinte e poucos anos, o autor retoma os cadernos de notas do precoce pensador, inventor e também organizador, na cidade de Filadélfia, do que ele chamou de um "club of inquirers into matters moral, political, and scientific", conhecido como "Junto" (p. 92). A discussão no clube girou a princípio em torno de um texto precedente de Franklin, "Dissertation on liberty and necessity", mas logo enveredou por outros caminhos, inclusive os das digressões teológicas e metafísicas.

Foi nesse contexto que Franklin, tendo previamente (no navio que o trouxe de volta de uma primeira viagem à Inglaterra) formulado algumas resoluções de caráter geral que deveriam orientar sua ação pessoal, decidiu-se por empreender o que ele mesmo chama, em sua autobiografia, de "bold and arduous project of arriving at moral perfection". Ele concebeu e redigiu, primeiro, doze "virtudes cardeais", depois agregou uma décima-terceira (por acaso um número tabu para os americanos contemporâneos, a ponto de poucos edifícios terem o 13? andar), que vão aqui transcritas a título de ilustração sobre como concebia Franklin uma possível vida virtuosa:


1.Temperence: Eat not to dulness. Drink not to elevation.

2.Silence: Speak not but what may benefit others or yourself. Avoid trifling conversation.

3.Order: Let all your things have their places. Let each part of your business have its time.

4.Resolution: Resolve to perform what you ought. Perform without fail what you resolve.

5.Frugality: Make no expense but to do good to others or yourself: i.e., Waste nothing.

6.Industry: Lose no time. Be always employed in something useful. Cut off all unnecessary actions.

7.Sincerety: Use no hurtful deceit. Think innocently and justly; and if you speak, speak accordingly.

8.Justice: Wrong none, by doing injuries or omitting the benefits that are your duty.

9. Moderation: Avoid extremes. Forbear resenting injuries so much as you think they deserve.

10.Cleanliness: Tolerate no uncleanness in body, clothes or habitation.

11.Tranquillity: Be not disturbed at trifles or at accidents common or unavoidable.

12.Chastity: Rarely use venery but for health or offspring ? never to dulness, weakness or the injury of your own or another?s peace or reputation.

13.Humility: Imitate Jesus and Socrates.

[Brands, op. cit., pp. 97-98]


Como analisa Brands, "Franklin era um idealista de uma espécie bastante prática. Neste caso, sua praticidade guiou sua escolha das virtudes, que eram todas adaptadas aos êxitos na vida corrente que ele desejava alcançar; seu idealismo transparecia em sua crença de que o domínio dessas virtudes poderia ser facilmente realizado" (p. 99). Que ele logo tenha descoberto que tal tarefa não era de tão fácil implementação, como ele imaginava ao início, não nos deve preocupar, pois o essencial estava no conjunto de "virtudes" que Franklin concebia como princípios de ordem moral, para si mesmo, em primeiro lugar, para todos os demais concidadãos, de forma geral. O último nome da décima-terceira regra esclarece aliás sobre o exemplo de virtude moral no qual Franklin se inspirava: Sócrates, o modelo clássico de homem reto, disposto a sacrificar sua própria vida pela verdade.

Cento e oitenta anos depois, as treze virtudes cívicas (ou éticas) de Franklin ainda suscitam admiração, como a condensação mesma do espírito prático americano, uma espécie de código moral que seu biógrafo Brands chamou de "ética protestante do trabalho sem o protestantismo". Seria possível partir dessa lista do início do século 18 para conceber um conjunto similar de preceitos morais adaptados a este início do século 21? Seriam as virtudes "cardeais" contemporâneas tão diferentes daquelas pelas quais tentou se guiar (com um certo sucesso, reconheça-se) Benjamin Franklin?

Pode-se, por certo, tentar reincidir no jogo das virtudes, mas lembrando, em todo caso, que o básico não está tanto no contexto social, econômico ou tecnológico, mas simplesmente nos próprios princípios morais que devem guiar nossas ações, independentemente da época ou do meio social. Vejamos uma lista com o devido copyright (ou pelo menos os "moral rights") a Benjamin Franklin:

1. Autocontenção ? Não coma tanto a ponto de se sentir "cheio" e, sobretudo, com a idade, diminua a quantidade e os excessos "exóticos". Se possível não beba, senão água, muito embora vinho com moderação possa ser saudável. Liberada porém a cervejinha com os amigos na sexta à noite, com um "nadinha" de linguicinha.

2. Silêncio ? Fale apenas o que for necessário para entretar uma conversa agradável com os presentes, ou para esclarecer os curiosos sobre algo socialmente útil. "Jogar conversa fora" é permitido, desde que o ambiente o permita. Compre um desses minigravadores e se registre divagando sobre um assunto que considere importante: isso vai ajudá-lo a se manter calado da próxima vez.

3. Ordem ? Não há desculpa para manter o seu próprio ambiente de trabalho ou lar em desordem, a não ser a preguiça e o desleixo. Respeite os outros e a si mesmo organizando seus papéis e objetos pessoais. Você perde um tempo precioso procurando papéis perdidos e velhos recados ou encomendas que ficaram para depois.

4. Resolução ? Deve-se cumprir aquilo que se acordou fazer, consigo mesmo ou com outrém. Nos tempos modernos, se é pago para trabalhar, ainda que o desempenho muitas vezes deixe a desejar. Desde que Franklin formulou essa "resolução calvinista", um outro "filósofo" americano aperfeiçou o comando com uma "lei do rendimentos descrescentes" no trabalho profissional, também conhecida por Peter principle: "toda pessoa acaba sendo elevada, por inércia, ao seu mais alto nível de incompetência no trabalho".

5. Frugalidade ? Difícil de manter nestes tempos de consumismo barato e de shoppings convidativos. Mas o princípio é sadio do ponto de vista dos orçamentos domésticos, sempre administrados no fio da navalha. Não jogue nada fora, mas aproveite para dar a camisa velha para as entidades de caridade pública.

6. Indústria ? Franklin se referia às ocupações individuais, no sentido clássico da ética protestante no trabalho. Hoje a indústria está em baixa, como fonte de poluição que é, por isso a recomendação atual poderia ser: não polua a natureza, não dilapide os recursos naturais, sobretudo os não-renováveis; tente deixar um planeta melhor do que você encontrou. Pratique o desenvolvimento sustentável, sobretudo em favor dos mais pobres e desprovidos de qualquer "indústria" ou capacidade individual.

7. Sinceridade ? Seja aberto e transparente com todos, inclusive com os seus inimigos. Nada pode ser mais desarmante do que a verdade sendo dita em qualquer circunstância. Se tiver de mentir, que seja por caridade, para não ofender gratuitamente alguém fragilizado psicologicamente e também para fazer o bem a quem precisa (como elogiar os cabelos tingidos de alguém, por exemplo).

8. Justiça ? Critério absoluto. Aplique-a sobretudo em defesa do bem público. Assim, se perceber algum político desonesto, não tenha medo de denunciá-lo à justiça, ou, antes, exponha-o ao ridículo universal (já que a justiça é tarda e geralmente falha).

9. Moderação ? Evite os extremos e não seja radical, salvo na defesa da democracia, da honestidade intelectual e da verdade (ainda que seja quase impossível defini-la).

10. Comprometimento ? Eduque, ou contribua para educar, o maior número possível de crianças desprovidas de recursos. Doe livros para bibliotecas e escolas públicas. Faça da elevação espiritual do maior número um objetivo em si, não suficiente em si mesmo mas absolutamente imprescindível para a melhoria da vida em comunidade.

11. Tranquilidade ? Persiga seus objetivos profissionais e pessoais com segurança e sem afoiteza. Fundamente seus progressos sociais no mérito e no trabalho exclusivamente. Não seja carreirista ou oportunista. Seja solidário com seus iguais e magnânimo com os mais humildes.

12. Castidade ? Difícil de manter em tempos tão permissivos, mas recomendável em face da gravidez involuntária e de doenças graves como a Aids. A Igreja recomenda como único método contraceptivo e para prevenir enfermidades como essa, o que é plenamente aceitável e compreensível mas dificilmente implementável. Combine a abstenção com métodos mais práticos (mas não precisa discutir isso na confissão).

13. Humildade ? Se possível, imite Jesus e Sócrates, aos quais poderia ser agregada a companhia de Buda. Não seja vaidoso, a não ser para demonstrar que você consegue cumprir pelo menos a metade dos preceitos de Benjamin Franklin, o que é uma meta razoável para simples mortais como nós, sem pretensão ao papel de "pai fundador".

(*) Diplomata, autor de Formação da Diplomacia Econômica no Brasil, Editora Senac-Funag, 2001; e-mail <pralmeida@mac.com>; URL <www.pralmeida.org>

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