Quinta-feira, 14 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

PRIMEIRAS EDIçõES > 25/08/00

Miriam Leitão

Por lgarcia em 05/09/2000 na edição 97

"Venho me juntar às várias manifestações de solidariedade que a família Mesquita e o Estado vêm recebendo neste momento difícil em que mais um drama da vida humana os atinge a todos. Só quem, como eu, conhece a lealdade dessa casa para com aqueles que nela trabalham pode compreender a dor que estão passando. Gerson Mendonça Neto, São Paulo"

"Lamentamos profundamente a tragédia pessoal que afetou a vida de um funcionário e ex-funcionária do Estado. Temos absoluta certeza de que o triste episódio, em torno do qual se fará justiça, em nada afeta a credibilidade e qualidade do grande jornal, dirigido com equilíbrio e sabedoria. Paulo Pereira da Silva, São Paulo"

"É lamentável pessoas se solidarizando com a família Mesquita e o Estadão pela atitude irracional do sr. Pimenta Neves, portando-se, assim, como os defensores dos direitos humanos que sempre encontram palavras para conforto dos que cometem delitos, mas, invariavelmente, nunca se lembram da família daqueles que realmente são vítimas. Hipocrisia e corporativismo nestes momentos devem ser deixados de lado. Angelo Antonio Maglio, Cotia"

"O que mais me preocupa em crimes dessa natureza é a revolta das pessoas contra aqueles que são ricos ou pelo menos aparentam riqueza. Parece que ser rico neste país é, sobretudo, pecado. Exigem que o jornalista tenha um tratamento igual a qualquer outro criminoso (pobre, diga-se). Mas, em realidade, o que se nota é que gostariam que tivesse um tratamento muito mais severo, unicamente porque acreditam que é rico. Até parece que, neste país de desvalidos, a pobreza é uma virtude. Antonio Sergio Guide, São Paulo"

"Até quando, pergunto, vamos ter de ouvir, ler, passar por fatos reais como o ocorrido com a jornalista Sandra Gomide, em que um ‘homem’ atira duas vezes, sendo o primeiro pelas costas, numa mulher, passa dias num hospital cinco-estrelas – lógico, ele precisa recuperar-se – e contrata um advogado que, com certeza, vai conseguir provar a forte pressão psicológica que vinha ‘sofrendo’ o seu cliente, ou, então, o pobre coitado tinha distúrbios mentais! Rosely Cordon, São Paulo"

"Grandioso o artigo de Ignácio de Loyola Brandão de ontem (A2). É preciso ser muito escritor e muito homem para escrevê-lo. Pimenta Neves cometeu um ato tresloucado, monstruoso, que nos atinge a todos os que militamos no jornal. O episódio mostra que ninguém conhecia Pimenta, que ele não se conhecia, que ninguém se conhece. Prova algo terrível, a saber, que todos nós, por mais comedidos e equilibrados na aparência, vivemos a um passo da loucura, o que não escusa o autor de ser punido com todo o rigor da lei, sem falsas atenuantes e com todas as qualificadoras cabíveis. Concordo com o artigo de Loyola Brandão, em todos termos, e solidarizo-me com o Estado nesta hora tão dolorosa. Gilberto de Mello Kujawski, São Paulo"

"Consta no 36º Distrito Policial boletim de ocorrência registrado pela jornalista Sandra Gomide contra o meliante – transvestido de cidadão de bem –, sr. Antonio Marcos Pimenta Neves, por ameaças que vinha recebendo. Por que nenhuma providência foi adotada pela autoridade policial? Será que o sr. delegado amarelou quando viu o nome do marginal no boletim de ocorrência? Edivelton Tadeu Mendes, São Paulo"

"Aos habituais puxa-sacos no Fórum dos Leitores de ontem: sr. Taubkin, o que o Movimento Pantanal tem que ver com dois tiros dados pelas costas? Sr. Coslovsky, pela brilhante carreira que tem, pode alguém matar, ainda mais pelas costas? Estou com o sr. Maurício dos Santos e a sra. Adriana Gragnani… Os outros só querem aparecer. K. R., São Paulo"

"Queria expressar minha solidariedade ao Estado e à família Mesquita pela correta forma como vêm tratando esse terrível caso passional. Concordo plenamente com a afirmação do sr. Daniel Taubkin (24/8) de que o Estado foi e continua a ser um dos mais importantes jornais do mundo, não somente pela excelente qualidade de suas edições diárias, como por sua perfeita noção de um jornalismo honesto e democrático, que até mesmo publica críticas de leitores que pensam de forma diferente. Rubem R. Tibyriçá, São Paulo"

(*)

"Poder, crime e corporativismo na imprensa", copyright boletim eletrônico Saúde Reprodutiva na Imprensa, 28/8/00

"A cobertura dos jornais paulistas Folha e Estadão tropeçou, hesitou e omitiu diante do homicídio da jornalista Sandra Gomide pelo assassino confesso, o também jornalista Antonio Pimenta Neves. Se o criminoso não mantivesse laços de amizade com diretores e repórteres da Folha e do Estadão provavelmente a manchete em primeira página diria: ‘Jornalista mata ex-namorada pelas costas’. E se apenas a vítima, e não o assassino, fosse profissional de imprensa, é bem possível que a chamada diria: ‘Ex-namorado mata jornalista pelas costas’. Mesmo diante de elementos fortes que comprovavam a autoria do assassinato, que já havia sido assumido pelo jornalista em telefonemas a colegas da Folha e do Estadão, os dois jornais insistiram em tratar Pimenta Neves como ‘suspeito’ nos dois primeiros dias da cobertura sobre o crime. Na Folha, o ‘currículo notável’ do jornalista ocupava quase a metade do espaço da reportagem sobre o caso.

Já o Jornal do Brasil optou por não dar destaque ao crime, considerado pelo diretor de redação Fritz Utzeri como uma questão privada. ‘Se Pimenta Neves tivesse se suicidado, nem teríamos dado nada’, declarou o diretor do JB.

Dos quatro grandes jornais a cobrir o caso na semana de 21 de agosto, O Globo destacou-se por pautar sua abordagem do assassinato com critérios jornalísticos, isto é, sem corporativismo. O Globo noticiou o caso com destaque na primeira página e tratou Antonio Pimenta Neves, um homicida confesso, como culpado, não poupando espaço nem palavras para cobrir o episódio.

Passado esse primeiro momento, em que boa parte dos jornais procurou apresentar Sandra como uma jovem ambiciosa e oportunista e Pimenta Neves como jornalista experiente, poderoso e bem-educado, felizmente para leitores e leitoras uma parcela significativa da imprensa brasileira pareceu retomar seu senso de responsabilidade jornalística e sua capacidade de autocrítica.

A ressurreição da ‘legítima defesa da honra’ – O diretor de redação da revista Época, Augusto Nunes, escreve sobre a atitude da imprensa na cobertura do caso, que é capa da edição de 28 de agosto: ‘O quadro que emerge da leitura é pouco edificante. Na virada do terceiro milênio, um jornalista com respeitável currículo ressuscita a tiros a ‘legítima defesa da honra’, essa invencionice de rábulas que a imprensa ajudou a sepultar ainda na década de 70’.

Veja a íntegra da reportagem de capa da Época em <www.epoca.com.br/semanal/_materias/brasil1a.htm>

Caso mobilizou altos comandos das redações – Na edição de 30 de agosto, o diretor de redação da revista IstoÉ, Hélio Campos Mello, analisa: ‘A notícia aterrissou como um raio nas redações de jornais, rádios e tevês na tarde de domingo, causando perplexidade e revolta. Pouco acostumado a manusear suas próprias feridas, os jornalistas mergulharam em reuniões de alto comando para decidir que tratamento dar ao caso. Na segunda-feira, o Estadão publicou a notícia com discreta chamada no pé da primeira página. Seu concorrente, a Folha de S. Paulo, no qual Pimenta já trabalhou, veiculou o fato com um currículo laudatório do jornalista sob o título ‘Pimenta Neves tem currículo notável’’.

Leia a matéria de capa da IstoÉ:

<www.terra.com.br/istoe/1613/brasil/1613capa_pimenta.htm>

Acesse a reportagem de Veja em

<www2.uol.com.br/veja300800/p_112.html>, e a matéria de capa da Veja São Paulo em

<www2.uol.com.br/vejasp/300800/capa.html>

Ombudsman critica cobertura da Folha – A ombudsman da Folha de S. Paulo, Renata Lo Prete, faz em sua coluna na edição de 27 de agosto uma crítica contundente à Folha e ao Estadão. Sobre a cobertura realizada pela Folha, Lo Prete escreve: ‘Cabe perguntar por que a Folha, em vez de dizer que Sandra dormiu com o chefe para ser promovida, não escreveu que o jornalista notável premiou a subordinada por dormir com ele e a demitiu quando ela não quis mais fazê-lo. A reportagem se antecipou a Pimenta Neves e seu advogado na tentativa de desmoralizar a vítima’. Para completar sua crítica, Lo Prete analisa: ‘distante da praça paulista, O Globo faz a cobertura mais livre de amarras, ao lado da apresentada pelo site Notícia e Opinião’.

Um divisor de águas – O acompanhamento do caso pelo site Notícia e Opinião <www.no.com.br> pode ser considerado um marco na cobertura jornalística sobre crimes passionais no Brasil, não apenas pela qualidade do trabalho produzido, mas pela agilidade com que foi veiculado por meio de e-mails e acessos ao site. Indo contra a maré da imprensa, que tecia elogios ao profissional Pimenta Neves e recuperava a tese da legítima defesa da honra, o no. trouxe as opiniões de jornalistas e advogados, além de revelar detalhes sobre o histórico de violência do acusado.

Em uma cobertura ágil, crítica e abrangente, logo nas primeiras reportagens sobre o caso, o no. já apontava falhas no comportamento da imprensa, antes e depois do crime. ‘Nas últimas cinco semanas Pimenta Neves, diretor de redação do jornal O Estado de S. Paulo, estava transtornado. Andava armado na redação e falava da intenção de matar Sandra Gomide, sua ex-namorada demitida do jornal depois do rompimento do namoro. As ameaças não renderam notícia na imprensa mas foram registradas numa delegacia há duas semanas. ‘Ou eu me mato, ou mato você’, gritou, então, de revólver em punho. Sem que se conheça qualquer reação de colegas de redação, transformou uma questão pessoal em pesadas acusações contra a ex-namorada’.

Na matéria ‘A imprensa no divã’, o no. apresentou as opiniões de diversos jornalistas, como Fritz Utzeri (JB), Augusto Nunes (Época), Alberto Dines (Observatório da Imprensa), Fernão Mesquita (Estadão), Luiz Garcia e Miriam Leitão (Globo), que falaram sobre a cobertura em geral e a posição de seus veículos diante do caso.

Especialistas buscam motivação – Ainda na edição de domingo, 27 de agosto, a Folha parece ter procurado redimir-se, publicando uma reportagem de capa sobre o crescimento da violência contra mulheres em São Paulo, em especial dos crimes passionais. Essa reportagem foi seguida por diversas matérias tratando da repercussão do caso junto a profissionais de imprensa, psicanalistas e psiquiatras. Ao entrevistar os/as especialistas, o repórter da Folha Aureliano Biancarelli abandonou a abordagem insistentemente usada na cobertura até então, que se apoiava apenas nas biografias profissionais de Pimenta Neves e Sandra Gomide, e buscou especular sobre as motivações para o crime. ‘Na hora do disparo, o homem que atirou não era o mesmo que comandava a redação do grande jornal. O assassino seria o outro lado de alguém que tinha a personalidade dividida. Uma personalidade psicótica, delirante, que passou a enxergar traição em cada gesto ou telefonema masculino’, escreveu Biancarelli. Entre os/as especialistas entrevistados/as, a psicanalista carioca Thais Oliveira, que fez sua análise: ‘Sandra, com seus 32 anos, ao rejeitá-lo privou-o da impressão de ser ainda, aos 63, um homem jovem, poderoso, viril e, portanto, protegido da morte’.

Sociedade inicia mobilização – Os jornais de domingo trouxeram também reportagens sobre as manifestações de apoio e mobilização em torno do caso de Sandra Gomide. Na missa de sétimo dia, que reuniu 150 pessoas em São Paulo, foi lançada uma campanha para ajudar a família nas despesas com assessoria jurídica e criada a Associação Justiça Sandra Gomide. No domingo, o destaque do Estadão na cobertura da missa era a presença de seu diretor-responsável, Ruy Mesquita, prestando solidariedade à família da vítima e declarando que o Pimenta Neves que ele conhecia havia morrido ao se tornar um assassino. O Globo publicou matéria informando que o assassinato de Sandra havia provocado a mobilização de feministas e debates acirrados nas salas de bate-papo e em mensagens eletrônicas via Internet. Segundo apurou O Globo junto a representantes do movimento feminista e de entidades públicas de defesa da mulher, o assassinato de Sandra reforça a tese de que a sociedade é conivente com a violência masculina.

‘Um falso passional’ – Segundo apurou a Folha, o criminalista Márcio Thomaz Bastos, que vai dividir os trabalhos de apoio à família da vítima com o criminalista Luiz Flávio Gomes, argumentará que o jornalista matou por ‘motivo torpe, para Sandra não viver mais’. Para Thomaz Bastos, ‘ele (Pimenta Neves) é um falso passional. A literatura da psicologia jurídica está recheada de casos em que o sujeito usa a paixão para esconder seu temperamento agressivo, sua prepotência, o achar que é o dono do mundo’.

Atenção: O debate sobre o assassinato de Sandra Gomide está bastante aquecido na imprensa brasileira. É fundamental que leitores e leitoras escrevam para os veículos de comunicação manifestando suas posições e participando desse debate público. Vamos dizer não à violência e à impunidade! Participe do debate sobre o caso e a cobertura realizada pela imprensa lendo as reportagens e enviando e-mails para as redações. As mensagens devem conter nome e endereço completos, telefone e número do R.G.

Época: <epoca@edglobo.com.br>; Folha de S.Paulo: <paineleitor@uol.com.br> ou <ombudsman@uol.com.br>; IstoÉ: <cartas@istoe.com.br>; Jornal do Brasil: <cartas@jb.com.br>; O Estado de S.Paulo: <fórum@estado.com.br>; O Globo: <cartas@oglobo.com.br>; Veja: <veja@abril.com.br>

(*) Rede Nacional Feminista de Saúde e Direitos Reprodutivos e Comissão de Cidadania e Reprodução. Coordenação editorial: Jacira Melo; editora: Marisa Sanematsu. Obs.: O acompanhamento dos jornais Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo, O Globo e Jornal do Brasil é feito pelo Projeto Olhar sobre a Mídia, da CCR. O monitoramento das revistas semanais Veja e Época está a cargo da Secretaria Executiva da RedeSaúde. E-mail: <saudereprodutiva@uol.com.br>

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