Quinta-feira, 14 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

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Miriam Shaviv

Por lgarcia em 03/07/2002 na edição 179

ISRAEL-PALESTINA

"Quando a CNN é a notícia", copyright Jerusalem Post, 27/6/02

"Na segunda-feira à noite, o apresentador da CNN Wolf Blitzer está sentado à frente de um cenário da parte antiga de Jerusalém.

?Tenho comigo quatro pessoas muito especiais?, ele diz, e apresenta seus convidados: dois parentes de vítimas do terror, um sobrevivente de um bombardeio suicida e um psicólogo que lida com estresse pós-traumático.

Sherri Mandell, mãe de Kobi, um jovem de 14 anos apedrejado até a morte no ano passado por palestinos numa caverna perto de casa, em Tekoa, começa a descrever seu filho saindo de casa ?com um sanduíche de salame?; Meir Schijveschuurder, que perdeu os pais e três irmãos no bombardeio da Sbarro, descreve em inglês errado ter recebido um telefonema para ir preencher um formulário de emergência e permitir que uma de suas irmãs fosse operada, e como lentamente ficou claro que seus pais estavam mortos.

Polina Valis, machucada no ataque a um parque aquático, conta como os amigos que estavam lá apóiam um ao outro, mas ainda ?têm medo de andar de ônibus, ir ao shopping, beber café?.

O nome do programa, o primeiro de uma série de cinco, é Vítimas do terror, e nos quatro dias seguintes poria em foco profissionais que chegam primeiro a locais de explosões e os israelenses comuns que precisam se aventurar em ônibus todos os dias, arriscando suas vidas.

Para muitos observadores de mídia, o tom quanto e o conteúdo do programa foram uma novidade. Embora a CNN rotineiramente relate os ataques terroristas em Israel, grupos pró-Israel reclamaram por muito tempo que a rede subestima as histórias das vítimas, freqüentemente esquecendo de identificá-las por nome e idade e dedicando a elas menos tempo no ar do que ao sofrimento palestino.

Antagonismo antigo

Grupos que monitoram a imprensa há tempos acusaram a CNN de ser preconceituosa em relação a Israel. Eles documentaram numerosos exemplos de repórteres que permitem que representantes palestinos se safem com mentiras abjetas, como o representante da OLP nos EUA, Hassan Abdel Rahman, que disse no [programa de TV] Crossfire de 2 de abril que havia ?poucas? pessoas armadas escondidas na Igreja da Natividade; repórteres que falam repetidamente da violência ?crescendo? e ?irrompendo? na voz passiva, ajudando a mascarar a responsabilidade palestina pela violência; e repórteres que distorcem fatos, por exemplo, na matéria de 16 de fevereiro sobre ?um palestino morto numa explosão de carro?, sem mencionar que ele estava para detonar uma bomba.

Mas, esta semana, a CNN teve outra postura diante da comunidade pró-israelense. Eason Jordan, principal executivo de notícias da rede e diretor de jornalismo, voou para a região e pediu uma reunião com o ministro das Comunicações, Reuven Rivlin. Durante a visita, ele defendeu a reportagem da CNN para quase todos os grandes veículos do país, e anunciou que a CNN não daria mais espaço a famílias de homens-bomba palestinos ?a não ser que haja uma razão muito forte para fazê-lo?.

O motivo imediato destes gestos foi a decisão da empresa de satélite Yes de oferecer a Fox News como alternativa à CNN, e uma ameaça das companhias a cabo de fazerem o mesmo. A mídia israelense tratou a posição como prova de que o lobby de Israel realmente tem poder para ferir até grandes e poderosas redes. A manchete do Yediot Aharonot festejava a ?viagem de aperfeiçoamento da CNN?; Ma’ariv gabava-se da ?desculpa especial?.

Evidentemente, a força do lobby pró-Israel provocou admiração. Mas comentaristas de mídia afirmam que a vitória deve ser entendida no contexto de uma batalha maior travada pela CNN, atrás de telespectadores do lado conservador do cenário político americano.

?A CNN tem tendências claras, incluindo a de ser pró-liberal?, diz Elizabeth Swasey, diretora de comunicações do Media Resource Center em Alexandria, Virgínia. ?Há muito mais competição no mercado agora, então eles estão sendo forçados a mudar.?

Nos últimos meses, a competição cresceu enormemente. O maior rival da CNN é a Fox News, de Rupert Murdoch, criada há apenas cinco anos, que conseguiu capturar boa parte do público conservador. Há dois meses, de acordo com Swasey, a Fox conseguiu pela primeira vez bater a CNN em índices de audiência em termos de números absolutos ? embora ainda esteja disponível em menos casas nos EUA.

Segundo Swasey, a CNN está sob enorme pressão para recuperar o status de número um entre as redes a cabo. Ela percebe que muitos telespectadores do centro e da direita nos EUA simpatizam com Israel e acreditam que o canal é muito pró-palestino. ?Eles não estão acostumados a perder audiência?, diz ela. ?Há uma nota de desespero em muito do que estão fazendo agora. Eles vão tentar qualquer coisa.? Mesmo críticos da CNN concordam em que qualquer preconceito contra Israel nunca foi política da emissora, mas há uma longa história de antagonismo entre ativistas pró-Israel e correspondentes da rede.

Cães selvagens

O relacionamento da CNN com Israel data de junho de 1980, quando ela foi ao ar e abriu sucursal em Jerusalém. De acordo com Jay Bushinsky, que foi o primeiro chefe da sucursal, havia, desde o começo, a sensação de que a sucursal de Israel era menos importante para a CNN do que as demais européias. ?Era como se fôssemos filhos bastardos?, diz Bushinsky, que ficou na rede até 1985. ?Eles não investiam o mesmo tipo de recursos em nosso escritório como em outras sucursais, nem tratavam a equipe da mesma forma?, forçando muitos a permanecerem free-lancers, por exemplo. Ele reclama que o trabalho dos repórteres sempre foi tratado com certo tom de ceticismo.

?Cobrimos a Guerra do Líbano de forma persistente, na linha de combate todo dia, mas sempre sentimos que os editores em Atlanta desejavam que nossos repórteres se comportassem como outras emissoras?, ele diz. ?Quando eles queriam saber por que nossos repórteres eram diferentes eu sempre dizia: ?Porque eles estiveram lá??.

Bushinsky enfatiza que nunca houve um sentimento contra Israel ou anti-semita, mas especula que uma das razões para a CNN estar cobrindo o país ?de forma relutante? pode ter sido o fato de ?judeus demais estarem trabalhando lá?. Outra razão, ele diz, é que no começo a CNN tinha uma grande audiência rural, ?que poderia não estar interessada em Israel?. E ressalta que as atitudes dependiam muito dos editores, individualmente. Ele lembra de diversos conflitos entre repórteres e produtores sobre a terminologia.

?Mesmo naquela fase, a palavra ?terrorista? era problemática?, diz. Em julho de 1985, quando Israel trocou 1.150 palestinos presos por três prisioneiros de guerra israelenses, ele disse que a CNN lhe pediu para não chamar os palestinos de ?prisioneiros?, mas ?reféns?. Em outra ocasião, numa matéria leve sobre Sammy Davis Jr. distraindo as tropas israelenses durante a Guerra do Líbano, ordenaram-lhe que não encerrasse a matéria com a palavra ?Shalom?, embora Davis Jr. a tenha usado.

No fim dos anos 80, um indivíduo causou o primeiro grande incêndio no relacionamento entre o Estado judeu e a CNN ? o chefe de sucursal Robert Wiener. (Tentativas na CNN de encontrar Wiener não foram bem-sucedidas.) ?Ele chegou a Israel com a história já escrita, com os israelenses maus e os palestinos bons?, disse uma fonte próxima à CNN naquela época. ?Ocasionalmente ele fez matérias sozinho, e era sempre sobre o sofrimento do povo palestino.?

Segundo a fonte, Wiener criou uma atmosfera anti-Israel no escritório, no qual trabalhava uma maioria de judeus. ?Ele levantou a bandeira palestina na sucursal, e mudou a placa embaixo de um dos relógios de ?Jerusalém? para ?Palestina?.? Em pelo menos duas ocasiões, ele causou controvérsia com matérias pró-Palestina. Uma vez, diz a fonte, ele pautou um repórter para matéria sobre os residentes de Ariel que forçaram trabalhadores árabes a usar crachás de identificação no assentamento. Wiener, diz a fonte, depois inseriu na matéria imagens de arquivo de judeus usando a estrela amarela, durante o Holocausto, ?causando um incêndio naquele tempo?. Em outra ocasião, ele pautou uma repórter para cobrir um bairro árabe onde diversos moradores foram atacados por cães ferozes.

?Os palestinos disseram que os cachorros foram enviados por assentados judeus, que eram cães de ataque?, diz a fonte. ?A repórter voltou aos prantos, mas ele a forçou a fazer a matéria e orientou o que ela escreveu. Eles fizeram a coisa certa jornalisticamente, dizendo que ?palestinos alegaram que?, mas não houve resposta do outro lado. Dias depois, revelou-se que os cães eram selvagens e tinham raiva. Foi jornalismo completamente irresponsável.?

Sentimento público

Em janeiro de 1990, a Liga de Anti-Difamação e várias autoridades israelenses reclamaram da reportagem tendenciosa de Wiener sobre a Intifada. Eles também reclamaram que a CNN transmitiu acusações dos palestinos de brutalidade da polícia israelense, sem considerar as explicações de Israel, e disse que a emissora repetidamente ilustrou reportagens com material de arquivo de soldados batendo em palestinos. A CNN apoiou a equipe, mas semanas depois Wiener foi transferido. Ele e a CNN negaram qualquer conexão entre a mudança e a crítica.

Desde então, as relações entre a rede e simpatizantes de Israel continuaram a piorar devido a incidentes ocasionais. Uma repórter, Linda Scherzer, foi convidada a mudar de sucursal em 1993, após cinco anos em Jerusalém. Quando ela se recusou a deixar o país, foi despedida, e houve rumores persistentes de que isto aconteceu porque ela seria pró-Israel. Linda Scherzer afirma que isso nunca foi dito a ela de forma clara. ?Mas sempre imaginei se haveria uma explicação possível para o que aconteceu.? Ela diz que durante o tempo que passou na CNN nunca sentiu pressão para se adequar a um determinado ponto de vista.

?Sempre me desconcertou o porquê [da demissão], especialmente porque os repórteres que cobriram a Guerra do Golfo tiveram enorme reconhecimento internacional, inclusive eu. Sei que as pessoas a quem respondia estavam satisfeitas com meu trabalho, e judeus nos EUA certamente não me viam como pró-Israel ? quando voltei para casa, sempre ouvia repreensões. Fizeram perguntas sobre como a CNN me via, se eles no fundo suspeitavam que eu era apenas uma patriota israelense.?

Outros chefes de sucursais, particularmente Walter Rodgers, no meio dos anos 90, também foram acusados de deixar a simpatia pelos palestinos transparecer. As reclamações de grupos pró-israelenses durante a segunda Intifada seguiram praticamente as mesmas linhas. Desta vez, relatos sobre a cobertura da CNN e campanhas de e-mails por organizações como Camera e HonestReporting.com inicialmente não receberam muita atenção do quartel-general da rede.

?Eles foram presunçosos e arrogantes, como se fossem a CNN e estivessem acima de tudo?, diz o consultor de um grupo de monitoramento da mídia. As coisas começaram a mudar, no entanto, no começo da guerra. Naquela hora, autoridades judaicas dos EUA e executivos da comunidade de negócios começaram a expressar seus sentimentos e campanhas de e-mail seguiram o ritmo.

Em fevereiro, a CNN não deu nome e idade de dois adolescentes vítimas de homem-bomba na pizzaria Karnei Shomron, um dos quais era cidadão americano. Leitores do HonestReporting.com enviaram seis mil e-mails por dia a executivos da CNN, efetivamente paralisando o correi interno. O consultor, que esteve presente em diversos encontros com observatórios convocados pela CNN, disse que os executivos da rede tinham, até então, falhado ao estimar a força do sentimento público em relação ao assunto.

A grande mentira

?Chegamos à conclusão de que as notícias que vemos são conduzidas por correspondentes em campo, não pelo lado corporativo da organização, que é instintivamente mais pró-Israel do que os correspondentes?, diz o consultor. ?Muitos dos chefes são judeus que se importam muito com Israel. Um deles disse que quando [os grupos de monitoração] os atacaram, ele teve uma semana difícil na sinagoga.?

O que eles descobriram, diz o consultor, foi que os repórteres em campo têm rédeas relativamente soltas. Eles freqüentemente vieram a Israel sem compreensão adequada da história ou da cultura da região, ou com atitudes moldadas por outros países que tinham coberto, como a África do Sul, onde o modelo racista prevalecia. Muitos jornalistas também são influenciados por colegas da mídia estrangeira, que refletem o próprio preconceito.

?Há uma tendência entre correspondentes estrangeiros de chegar a um consenso sobre o assunto em questão, e relatar de acordo com ele?, diz Bushinsky. ?Qualquer um que desvia do consenso é considerado um pária, alguém que não entendeu a história.? De acordo com o consultor, era mais provável que âncoras em Atlanta desafiassem falsas alegações palestinas do que os jornalistas em campo ? e eles também freqüentemente desafiariam os próprios repórteres.

?Rula Amin [jornalista da CNN] foi desafiada quatro vezes por âncoras de Atlanta enquanto reportava de Jenin?, diz ele. ?Em 16 de abril, o âncora Daryn Kagan disse a ela que há ?uma percepção diferente daqui, Rula, tenho certeza, como podemos ver pelas imagens, que algumas casas foram destruídas. Mas os israelenses argumentariam que acreditam que havia atiradores e soldados resistindo daquelas casas, e por isso tiveram que ser atacados tão ferozmente.??

Poucos dias depois, a âncora Paula Zahn, em Nova York, interrompeu Rula Amin para lembrar que os israelenses alegavam ter entrado em Jenin porque ?sabiam que os homens que são muito ativos na violência da Autoridade Palestina contra Israel estão ali?. Além disso, matérias na CNN.com escritas em Atlanta eram muito menos tendenciosas em relação aos palestinos do que o material que foi ao ar. O uso da palavra ?terrorista? para descrever os homens-bomba, por exemplo, era comum, enquanto na TV eles eram caracterizados como ?militantes?.

?No começo?, diz o consultor, ?os executivos não acreditavam que havia um problema, principalmente por ignorância do que estava acontecendo [em campo]. Eles não sabiam quão freqüentemente a grande mentira [de que 500 palestinos morreram em Jenin] fora espalhada por porta-vozes palestinos, e pareciam chocados quando dissemos que houve apenas 30 casos em 10 dias. Eles não estavam assistindo a esta pequena parte da operação da CNN ? eles têm que vigiar o que está acontecendo no império inteiro, e subitamente este pedaço começou a picá-los nas costas.?

O desastrado Turner

Michael Wolf, crítico de mídia da revista New York, acha que os executivos estão ?tão informados quanto decidiram que deviam estar?. A diretora executiva da Camera, Andrea Levin, concorda em que a ?receptividade às preocupações do público aumentou?. Ela compara a situação à de 1997, quando Câmera levou um ano para fazer com que Walter Rodgers corrigisse uma declaração incorreta de que a população árabe de Jerusalém está diminuindo. ?Eles são compreensivos com nossas ligações e comentários, e sentimos que há um interesse e um esforço?, diz ela. ?Tenho estado recentemente em contato com o presidente da CNN, que também parece preocupado.?

A atenção crescente, claro, ocorreu precisamente quando a guerra de audiência com a mais conservadora Fox News esquentava. A luta entre Fox e CNN, diz Swasey, tornou-se ?a última moda nos EUA. É assunto de numerosas matérias em jornais, um tópico realmente quente?. Segundo Swasey, a CNN sempre foi vista como um baluarte liberal. ?Vê-se isso na rotulação ideológica que eles fazem ? é mais provável que eles classifiquem pessoas de direita de ?conservadores?, enquanto não rotulam liberais. Você vê na seleção de matérias. A CNN sempre foi conhecida como Clinton News Network, e mais recentemente, Castro News Network, devido à maneira que cobriram a visita do [ex-presidente americano Jimmy] Carter à ilha comunista.?

Já em agosto, o chefe da CNN, Walter Isaacson, foi encontrar-se com líderes republicanos da Câmara e do Senado no Capitólio, para melhorar a imagem da rede entre os conservadores. ?Eu estava tentando alcançar muitos republicanos que sentem que a CNN não tem sido tão aberta ao cobri-los, e queria ouvir suas preocupações?, ele disse na época.

Desde então, a CNN tem tentado outras aproximações com os conservadores. Após o 11 de setembro, por exemplo, a Reuters disse que não se referiria às pessoas que atacaram o World Trade Center como ?terroristas?, enquanto a CNN jurou lembrar o público de que estavam lutando no Afeganistão por causa dos atentados terroristas.

Como parte da batalha contra a Fox, Swasey diz que a CNN recentemente também fez mudanças na programação, trazendo caras novas, ?acrescentando ruídos, propaganda, gráficos diferentes e música para dar um tempero?. Dois meses atrás, a Fox finalmente alcançou a CNN como canal líder de notícias a cabo, e desde então, os contratempos com Israel apenas cresceram.

Primeiro, há um mês, a CNN passou uma hora entrevistando Hen Keinan, cuja mãe e filha foram mortas num ataque terrorista em Petah Tikva. Mas a CNN International passou apenas trechos, mostrando no lugar uma prolongada entrevista com a mãe do terrorista que cometeu o ataque. Os protestos do público fizeram com que a rede levasse ao ar a entrevista inteira dias depois, e divulgasse um pedido de desculpas.

Na semana passada, o britânico Guardian citou o fundador da CNN, Ted Turner, dizendo: ?Não estão palestinos e israelenses aterrorizando uns aos outros?? Embora ele realmente tenha feito tais comentários em abril, as declarações provocaram um grande clamor público tanto em Israel quanto nos EUA. A CNN apressou-se em dissociar-se de Turner, que ?não tem supervisão administrativa ou editorial da rede?.

Cobertura revisada

A gota d?água foi a ameaça, por operadoras de cabo e satélite, de oferecer a Fox como alternativa à CNN ou remover a CNN do ar. ?No mundo da televisão, a coisa mais importante de todas, o Graal pelo qual você vive e morre, é ?sustentação??, diz o crítico de mídia Wolf. ?Se você perder sustentação num mercado importante como é Israel naquela região do mundo, a natureza do negócio começa a mudar. Eles não podem se permitir abrir este precedente, pois da próxima vez eles perderão 3 milhões aqui, 12 milhões lá.?

Isto foi particularmente importante, é lógico, porque as companhias israelenses ameaçaram substituir a CNN pela sua principal rival. ?Para a mídia, números contam muito, mesmo se são pequenos?, diz Bushinsky. ?Com índices de audiência, mesmo um par de pontos percentuais significa muito.?

Até que ponto os esforços da CNN para equilibrar a reportagem refletem uma preocupação genuína com padrões jornalísticos? A maioria dos críticos de mídia diz que a prova será o comportamento a longo prazo da rede, mas fora isso estão divididos em relação ao assunto. ?Se eles estão fazendo isso porque estão realmente preocupados, eu os aplaudo?, diz Ken Auletta, escritor de mídia do New Yorker. ?Se não, estão sendo covardes, e não sei de qual estamos falando.?

Michael Greenspan, que trabalhou para a sucursal de Israel da CNN entre 1984 e 1990, diz que ?apenas Eason Jordan sabe?. Para Wolf, os interesses da rede começam e terminam com os negócios, e eles estão meramente conduzindo um exercício de relações-públicas. ?Todo mundo sabe que as companhias a cabo israelenses não vão remover a CNN?, ele declara. ?Tudo o que fizeram foi armar uma situação em que todos podem parecer que apaziguaram os outros. É um grande jogo em que nada realmente muda.?

Mas os principais executivos da rede, especialmente Isaacson, são muito respeitados, mesmo por observatórios de mídia. ?Eles são um negócio com concorrência?, diz Levin, ?mas também há uma administração relativamente nova na CNN que está preocupada em contar a história direito?. Auletta concorda. ?Isaacson é um jornalista de verdade, um homem íntegro. Não consigo acreditar que ele esteja tentando perpetuar uma cobertura injusta. Meu instinto diz que são pessoas honestas fazendo seu trabalho, que podem cometer erros.?

Mesmo se quisessem, no entanto, os altos executivos da CNN podem achar difícil comandar seus repórteres em Israel. ?Há uma cultura de estrelas, tanto faz se é Dan Rather para a CBS que aterrissa em Israel e não sabia onde ficava o Templo do Monte, ou Christiane Amanpour, que chega com sua jaqueta de safári como se estivesse numa missão militar?, diz o consultor de grupos de monitoração da mídia pró-Israel. ?É duro controlá-los.?

Enquanto isso, a CNN está numa situação complicada. Grupos pró-Israel estão esperando para ver se a rede vai se tornar o que eles julgam ser mais justa. Por outro lado, críticos de mídia e outras partes menos interessadas se preocupam se a CNN abriu mão de seus padrões jornalísticos ao ceder à pressão partidária. De acordo com Auletta, se a CNN está genuinamente interessada em tornar a cobertura mais equilibrada, ela pode ter escolhido a hora errada. ?Em termos de aparência, o timing é infeliz?, diz ele. ?Alguém pode interpretar as ações da CNN como significando que tudo o que você tem que fazer é barulho suficiente, e a rede revisará a cobertura. Isso não é pelo bem do bom jornalismo.?

NYT sentiu impacto

Por essa razão, Wolf diz que a CNN provavelmente vai recuar furiosamente nas próximas semanas. ?Eles terão que enviar umas nuvens de RP dizendo que tentavam ser justos. Eles tentarão convencer as pessoas de que navegaram por todos os pedidos, sem mudar nada?, diz ele. ?É este o trabalho da CNN ? não ser influenciada por pessoas que tentam influenciá-la.?

Depois que companhias de TV a cabo e satélite ameaçaram remover a CNN do seu pacote de assinaturas na semana passada, o presidente do partido Shinui, Yosef Lapid, escolheu algumas palavras para a imprensa britânica: ?Jornais como o Independent e o Guardian estão a serviço do Hamas?, disse. Mas muitos israelenses consideram um veículo de mídia noticiosa pior do que os dois: a TV BBC. ?A reportagem às vezes é uma propaganda no estilo soviético?, diz o consultor de um observatório de mídia. ?Suspeito que eles devem se animar com as reclamações da comunidade pró-Israel.?

Num exemplo de 10 de maio de 2001, a BBC mostrou um ataque israelense a uma base militar de Gaza, com ?muito barulho, poeira e ambulância?, diz ele. ?A imagem seguinte mostrava uma ambulância chegando a um hospital, com um homem gravemente ferido saindo dela. O problema: era um veículo israelense, com um trabalhador romeno machucado. Apontamos isso à BBC, mas não houve pedido de desculpas, nada.?

De acordo com Andrea Levin, a BBC não usa a palavra ?terror? para descrever os homens-bomba em Israel, embora use a palavra no contexto da Irlanda do Norte ? e mesmo em relação a grupos rebeldes em Uganda. ?É um padrão duplo?, diz. Ela alega que a BBC não tem o princípio de apresentar ?uma visão equilibrada das preocupações de Israel?. Numa ocasião, conta, uma repórter da rede pressionou Bassam Haid, ativista palestino de direitos humanos, que disse que a violência deveria parar porque ambos os lados concordaram em acertar as diferenças nas negociações.

?O que você quer dizer? As pessoas estão frustradas! ela disse?, segundo Levin, ?como se estivesse indignada por ele sugerir que palestinos deveriam buscar qualquer outra coisa que não o que estão fazendo?.

O público pró-israelense pode esperar influenciar a BBC da mesma maneira que parece ter feito com a CNN? Provavelmente não, dizem especialistas. ?A BBC é uma das maiores instituições de mídia do mundo, e por causa do seu tamanho e influência impregnou políticas?, diz Andrea Levin. ?Como sua imagem, ela se considera acima de críticas.?

O mais importante, no entanto, é que o sentimento no Reino Unido em relação a Israel e sua cobertura não chegam tão fundo como nos Estados Unidos. ?Não sei se o público está tão atento a este problema da BBC?, diz. Ainda assim, afirma, os espectadores deveriam continuar a chamar atenção para os erros da BBC tanto para o público quanto para a rede. A CNN não é o único sucesso que os ativistas pró-Israel tiveram: ?Houve muitos movimentos populares direcionados a jornais nos últimos seis meses?, ela diz. ?Esforços direcionados ao New York Times, por exemplo, tiveram impacto.?

Tempo doloroso

Eason Jordan, da CNN, parece relaxado, como se estivesse em casa no David?s Citadel Hotel, em Jerusalém. Com razão: esta é a 50? visita a Israel em 20 anos. Sua estada atual, ele diz, não deve ser encarada como admissão de que a CNN reconhece que sua reportagem local é tendenciosa em relação aos palestinos e deve ser alterada. ?Era lógico para mim fazer esta viagem neste momento por causa da confluência de eventos?, diz ele, citando os comentários de Ted Turner equacionando as ações militares de Israel com o terror e os bombardeios em Jerusalém na semana passada.

De acordo com Jordan, a CNN está comprometida com a ?justiça, a verdade e ser responsável? na cobertura de Israel. ?Não há preconceito contra Israel, nós até temos grande simpatia especialmente por vítimas de homens-bomba, após o 11 de setembro?, diz. Ele alega que a série de Wolf Blitzer, Vítimas do terror, não é uma tentativa de se emendar com grupos pró-Israel, mas parte da programação normal da CNN.

?Fizemos muitas matérias com vítimas de Israel?, diz. ?Depois dos ataques na semana passada, decidimos que era tempo de prestar atenção às vítimas do terrorismo. Isto não deve sugerir que as ignoramos após outros ataques.? Nem a CNN está entrando em pânico por causa da entrada da Fox News no mercado israelense, diz Jordan. ?Estamos determinados a fazer o melhor que pudermos. Saudamos a competição, que serve apenas para nos tornar melhores.?

Jordan diz que, no geral, a reportagem da CNN de Israel está num alto padrão, mas ele concede que ocasionalmente a rede ?não é tão clara quanto deveria? e às vezes ?entende errado?. No entanto, ele não vê um padrão ou intenção, nem um esforço consciente de excluir histórias como o incitamento da mídia palestina. ?Temos representantes e convidados falando sobre essas coisas. Deveríamos fazer mais? Provavelmente, mas não há tentativa de esconder elementos importantes da história.?

Jordan está preparado ainda para admitir que há ?sempre lugar para melhorias na CNN?. Ele rapidamente concede, por exemplo, que a rede errou ao transmitir a entrevista com a mãe do homem-bomba de Petah Tikva há três semanas, em vez da entrevista com Hen Keinan, cuja mãe e filha morreram na explosão. ?Com o benefício da retrospectiva, nós deveríamos ter feito de forma diferente ? não foi intencional?, diz. De agora em diante, a rede não dará mais espaço a famílias de homens-bomba, sob suas instruções.

?Sei que é um tempo doloroso para todos os israelenses, um país aterrorizado por homens-bomba. Emoções são muito intensas e há uma grande sensibilidade em relação à reportagem. Acho que a CNN está fazendo todos os esforços para assegurar que nossas matérias são tudo o que deveriam ser.?"

 

Hanoch Marmari, editor-chefe do Ha?aretz, comenta a repercussão da história de Abu Ali, [Los Angeles Times, 16/6/02], morador do campo de Jenin que declarou a uma revista européia que seus nove filhos provavelmente tinham morrido no bombardeio israelense. Tempos depois, após a matéria ter sido publicada, descobriu-se que houve poucos mortos, e nenhum deles era filho de Ali.

Para o autor, repórteres e editores não esperaram para publicar a matéria porque, não satisfeitos com a tragédia que puderam testemunhar, o desejo de exagerar o apelo da história embotou os instintos jornalísticos de duvidar e confirmar as declarações antes da publicação. Quando os fatos foram esclarecidos, no entanto, a revista não se preocupou em avisar aos leitores.

Marmari acha que o conflito Israel-Palestina criou uma crise nos valores do jornalismo, e a cobertura teria caído nos quatro pecados principais: obsessão, preconceito, condescendência e ignorância. A guerra em torno da terminologia (homens-bomba, suicidas, terroristas, guerrilheiros) também evidenciaria que a ingenuidade é uma "falha profissional intolerável" no Oriente Médio, sendo, portanto, o quinto pecado jornalístico.

O autor diz que as matérias sofrem com a falta de contextualização e exploração das conseqüências. Um exemplo é o que matéria da Reuters [28/6/02] revela: a fotografia de um bebê de 2 anos fantasiado de homem-bomba divulgada pelo exército israelense, que alega tê-la encontrado na casa de um militante palestino em Hebron, foi publicada por jornais de Israel mesmo sem poder comprovar sua autenticidade, já que o nome da família não foi revelado. Além disso, Hebron é zona militar fechada a jornalistas.

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