Sábado, 26 de Maio de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº988
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PRIMEIRAS EDIçõES > NOTÍCIA DA VITÓRIA

Momento histórico passa em branco

Por lgarcia em 30/10/2002 na edição 196

NOTÍCIA DA VITÓRIA

Sérgio Benevides (*)

As implicações não são nada pequenas: alardeia-se por todos os campos tratar-se da primeira vez que um operário chega à presidência do Brasil e de uma vitória esperada, no mínimo, há 13 anos. Se as pusermos em perspectiva, revelam-se maiores ainda. A possibilidade histórica que se abre é fenomenal: são quase 500 anos nos quais o Brasil, a não ser por breves momentos, foi tratado, economicamente, como apêndice do comércio europeu e americano. E eis agora a primeira chance de mudança dotada de densidade institucional, uma presidência possivelmente voltada mais para os próprios brasileiros do que para o exterior. Mas ao menos uma parcela significativa dos meios de comunicação não se dispôs a dimensionar assim a vitória de Lula.

Não posso me referir à totalidade dos meios de comunicação. Meu universo inclui apenas a Folha de S.Paulo, O Globo, o Jornal do Brasil e a TV Globo. Destes, talvez o mais decepcionante tenha sido a Folha. "E agora, Lula?", dizia seu caderno especial, fazendo um trocadilho com o slogan "Agora é Lula". A pergunta seria legítima, embora, de qualquer forma, deslocasse o foco da notícia histórica (aquilo que aconteceu) para o futuro (aquilo que ainda vai ser noticiado), não fosse pela pequeneza da resposta expressa na concepção da edição. "E agora?" é uma pergunta natural diante de um ponto de mudança. E a extensão de tal mudança tem tudo para ser imensa.

Desde a invenção daquilo que se viria a chamar Brasil o que estas terras conheceram foi a exploração externa. De imediato, não despertou grande interesse frente às mercadorias que a Europa conseguia do Oriente. Só passou a chamar atenção diante da possibilidade de se extrair dela uma madeira que lhe viria sintomaticamente a dar nome mais tarde. O povoamento efetivo só começou com a grande empresa da cana-de-açúcar, completamente voltada para o mercado europeu e que tomou o máximo de extensões possíveis de terras férteis no litoral. Seguiu-se a mineração do ouro e do diamante, explorados avidamente pela Coroa Portuguesa. Mais tarde, o algodão e o café.

A industrialização foi o primeiro empreendimento cujo objetivo incluía a criação, de fato, de um mercado interno. Mas, diferentemente de processos clássicos de industrialização que se tiveram de fazer contra uma aristocracia feudal e classes rurais concentradoras opostas à nova realidade econômica, no Brasil os dois movimentos puderam achar um ponto de equilíbrio relativamente tranqüilo, inclusive porque o complexo agrário brasileiro não tinha como foco o mercado interno e estava em condições de fornecer mão-de-obra excedente pela ampliação dos latifúndios. Sem o grande embate entre as duas forças, o trabalhador rural e o proletariado urbano viram-se diante de condições desfavoráveis para participar do controle desse processo.

E agora? O que fará um governo que pretende voltar-se para "o povo brasileiro"? Que desafios terá de enfrentar diante dos interesses estabelecidos? Que resistências encontrará? Até onde poderá levar seu projeto de reforma? Mas o "E agora?" da Folha de S.Paulo se desdobra, na página 3 do caderno especial, numa suposta "crise" (é crise mesmo? ou mais uma daquelas palavras bombásticas usadas gratuitamente?) dentro do PT em torno da disputa para ver quem assume a pasta da Fazenda. Quanto ao restante, há, corretamente, uma história do partido. Mas o sentido histórico parece parar por aí.

Memória curta, diante de um momento de possibilidades históricas consideráveis, extraordinárias. No mais, preocupações com a Força Sindical e o MST, nenhuma com os bancos, os usineiros e as forças tradicionais da direita, que podem oferecer grande resistência ao governo Lula.

O óbvio e o furo

No Globo e no Jornal do Brasil escolheu-se olhar mais para o passado e a trajetória que resultou na vitória presente. Mas não me espantaria que alguém chamasse tais edições de maquiagem para ocultar justamente aquilo que não se disse. Primeiro, não se deu aquela mesma dimensão histórica que faltou à Folha. Segundo, as edições são feitas como se puramente tivesse havido uma vitória de Lula, como se uma vitória não viesse acompanhada de uma derrota de alguém. E, ainda que se possa argumentar que o resultado da votação não expressa uma ação em bloco, consciente e unificada de rechaço à direita, não se pode esconder que, ao menos no plano nacional, os resultados trazidos por ela perderam diante da chance de se ver um Brasil voltado agora para os brasileiros.

Por fim, o Jornal Nacional nos deu Lula, ele próprio, presente durante toda a edição. Mas o que dizer da cobertura? Foi emocional e centrada no caráter individual dos personagens nela retratados. Vimos como Lula festejou ao saber o resultado da pesquisa de boca-de-urna. Perguntou-se sobre o papel de José Dirceu, sobre os nomes do próximo gabinete. Para pressionar o presidente eleito a falar, William Bonner disse, antes de uma reportagem sobre o dia no mercado financeiro e a alta do dólar, que o nervosismo se devia ao fato de não se saber quais seriam os próximos ministros, como se não valesse de nada para a ciranda financeira o fato de haver títulos vencendo no fim da semana, fato para o qual a própria reportagem, depois, chamou atenção. E, novamente, onde estava o senso histórico?

Particularmente lamentável nisso tudo é o fato de que, possivelmente, deixou-se de registrar o verdadeiro caráter histórico da vitória de Lula. Dirão, com razão, os mais prudentes que ainda é preciso confirmar-se, com o passar do tempo, o significado desta vitória. Isso dependerá, por certo, dos próximos quatro anos. Mas a possibilidade que a eleição de Lula representa é um fato presente, é noticia, sim. E esta, se apareceu em outros jornais e telejornais, não sei. A Folha, O Globo, o JB e o Jornal Nacional não deram. Se alguém deu, transformou o óbvio da cobertura em furo jornalístico.

(*) Jornalista

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