Segunda-feira, 23 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

PRIMEIRAS EDIçõES > submissão à própria estratégia narcoterrorista voltada para minimizar os aspectos políticos da sua atuação

Momo adora misturar narcoterrorismo com bumbum das passistas

Por lgarcia em 30/12/2003 na edição 257

CARNAVAL DE CRITÉRIOS

Alberto Dines

O J?Accuse de Emile Zola saiu na seção de cartas ou na página dos tribunais? E o assassinato do arquiduque Ferdinando, em Saravejo (1914), teria sido noticiado pela imprensa vienense nas colunas dedicadas à família imperial, na página de polícia onde se abrigam as loucuras de estudantes sérvios ou na seção de fait-divers do Império Áustro-Hungaro? Nos jornais de Nova York, os atentados do 11-S foram publicados nas páginas (ou cadernos) locais, internacionais ou nacionais?

Tem alguma importância onde os jornais enfiam as grandes coberturas? Tem, muita. A distribuição dos assuntos pelas diferentes seções de um jornal revela, antes de tudo, as percepções da sociedade diante dos acontecimentos.

Quando os jornais não estavam tão segmentados como agora, era secundária a localizaçãatilde;o das coberturas no corpo do jornal. Importava apenas o destaque na primeira página. Ao leitor interessava o conjunto, preocupava-o o grande desenho de uma conjuntura que ele organizava de uma determinada maneira e sobre a qual fazia os seus juízos.

Desde o momento em que os jornais passaram a espelhar os compartimentos estabelecidos pelas estratégias de marketing perderam seu sentido cósmico e passaram a ser um conjunto de pequenos jornais especializados, semi-autônomos.

A Síndrome do Particularismo é uma visão de mundo deformada. Não é um desvio ótico, é mental. Quando os jornais de São Paulo ? os mais importantes do país ? enfiam a cobertura dos novos ataques do narcoterrorismo ocorridos no Rio de Janeiro para o caderno “Cidades” (caso do Estado de S.Paulo) ou “Cotidiano” (caso da Folha), revelam sua incapacidade para dimensionar um problema institucional, o mais grave ocorrido desde a posse do novo governo. Não estão sendo provincianos apenas, mas também perigosamente insensíveis porque um dos principais atributos do jornalista é a sua aptidão para hierarquizar e relacionar os acontecimentos

E se os colegas cariocas não tiveram a fibra para puxar a cobertura daqueles dias de terror na sua própria área de atuação para as primeiras páginas dos seus primeiros cadernos, demonstram uma perigosa submissão à própria estratégia narcoterrorista voltada para minimizar os aspectos políticos da sua atuação.

Se os jornalistas ? sensores da sociedade ? não conseguem examinar com a necessária perspectiva os acontecimentos que alimentarão não apenas o ânimo dos leitores, mas, principalmente, o processo decisório do governo, então estarão deixando de cumprir com sua atribuição primária.

Em tom de blague costuma-se dizer que os jornalistas são especialistas em idéias gerais. É a pura verdade: jornalistas que não forem capazes de juntar os cacos e fragmentos da cobertura diária especializada para cimentá-los num amplo painel conjuntural traem os seus compromissos públicos. Isto não significa que o repórter lá na Linha Vermelha, em meio ao tiroteio, deva estar meditando sobre as implicações da impunidade nas altas esferas do poder. Mas os seus editores devem fazê-lo, obrigatoriamente. Jornalismo é a ciência dos nexos.

“É fácil combater a corrupção nos baixos escalões. O problema é que o sistema como um todo não funciona enquanto ela não for eliminada no topo das organizações.”

Quem o afirma não é um jornalista ou cientista político brasileiro mas um coronel escocês, Andrew Mackay, especialista da ONU em situações de conflito, que veio ao Brasil pela primeira vez (Época, 3/3, pág.13-17).

Um secretário de segurança, uma governadora, um deputado, um magistrado enxergam as coisas pelo seu ângulo e de acordo com as suas necessidades. A população amedrontada sente as coisas de outra maneira. Jornais e jornalistas têm por obrigação juntar estas percepções num diagnóstico único, interdependente, transparente, perceptível, capaz de acionar todos os mecanismos necessários ao enfrentamento da situação. Fernando Beira-Mar não diz respeito apenas ao Rio. Se assim fosse não estaria confinado no interior de São Paulo, vigiado 24 horas por dia.

Pode parecer diletantismo discutir em que recanto dos jornais deve ancorar-se o noticiário sobre a intervenção das forças armadas no controle do narcoterrorismo. Não é.

Se o debate ocorresse antes não seríamos surpreendidos agora com a cobertura da grande batalha do Rio de Janeiro sepultada no caderno de Carnaval junto com o bumbum das passistas das escolas de samba no emagrecido “Cotidiano” da Folha de S.Paulo (sábado e domingo, 1 e 2 /3).

Momo adorou: é a carnavalização dos critérios jornalísticos. Caricatura da função avaliadora da imprensa.

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