Segunda-feira, 23 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº963

PRIMEIRAS EDIçõES > CENSURA TOGADA

Mordaça em você

Por lgarcia em 30/12/2003 na edição 257

CENSURA TOGADA

Alberto Dines

É isso mesmo: a nova incursão
da censura não foi contra os leitores da revista Você
S/A
, não foi contra a Editora Abril e seus jornalistas,foi
contra você, nós, todos os cidadãos que
imaginam viver num Estado de Direito,

republicano, democrático e justo.

Há três anos assistimos inermes e apáticos
a uma escalada da violência judiciária, pseudamente
legal. Alguns casos provocam alguma resposta da imprensa, outros
quase nenhuma.

O cidadão brasileiro acredita piamente que a censura foi banida formalmente com a Constituição de 1988. Está redondamente enganado. Esta caricatura forense chamada liminar está comprometendo a confiança da sociedade brasileira no Poder Judiciário, o poder dos poderes, aquele que deveria legitimar-se pelo uso da razão.

Ao invés de defender uma cláusula pétrea da Constituição ? a liberdade de informação ? alguns magistrados enredam-se em formalidades processuais ignorando que desta forma superficial aceitam o mérito de que a censura é justificada.

A imprensa, como instituição, não tem sabido reagir a esta homeopatia censórea que está minando nossa capacidade de resistir. Se a reação fosse forte, coletiva, determinada, os magistrados afoitos pensariam duas vezes antes de nos inocular com nova dose autoritária.

Na Alemanha, 1933, quando os nazistas tiraram os disfarces e começaram a escalada de terror, os poupados diziam “não é comigo, é com os outros”. Esta resignação e esta incapacidade de enxergar as grandes ameaças fazem parte de um fenômeno chamado “não-me-importismo”. Enquanto não são vítimas todos seguem suas vidas. Depois é tarde demais.

Prova da progressão da perversa terapia são as duas últimas incursões da censura togada. No Correio Braziliense, ano passado, o magistrado determinou que o advogado de uma parte fizesse a censura prévia do jornal escolhendo o que poderia ser publicado. Agora, outro magistrado dá um passo à frente: determinou como a matéria deve ser editada.

Como este Observatório já disse mais de uma vez: breve teremos nas redações no lugar de redatores e editores, advogados e juízes.

Quem pagará por isto? Você.

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