Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

PRIMEIRAS EDIçõES > CAIXOTINS

Mordaça, não

Por lgarcia em 27/01/2004 na edição 261

CAIXOTINS

Carlos Brickmann (*)

Muita gente na imprensa está furiosa com a mal-denominada Lei da Mordaça, que pune autoridades pelo vazamento de informações em processos sob sigilo judicial. Alegam que, com isso, seria cerceado o trabalho dos promotores.

Engano: se o processo é sigiloso, é sigiloso. E quem violar o sigilo deve estar disposto a enfrentar as conseqüências de seu ato. Permitir vazamentos praticados por pessoas que, em decorrência da posição que ocupam, têm acesso aos processos, é desleal. Cada processo tem pelo menos dois lados, com direitos iguais. Se um deles pode vazar informações e o outro não, está rompida a igualdade de todos perante a lei.

E se um jornalista chegar à conclusão de que tem informações essenciais para o esclarecimento público? Simples: deve divulgá-las, responsabilizando-se por seu ato.

 

Paulo Roberto Falcão, o lendário volante da Seleção brasileira, surgiu para o estrelato na Copa São Paulo de Futebol Junior. E só os torcedores mais fanáticos, aqueles que freqüentam o estádio mesmo em jogos de amadores, tomaram conhecimento de seu grande futebol. Naquela época (e até hoje) a imprensa mal toma conhecimento deste torneio que revela craques: quando muito, publica o resultado dos jogos, e olhe lá. Quem fez o gol? Não. Qual a escalação dos times? Não. Quais os craques que podem estar surgindo? Nem pensar. Só quando estiverem profissionalizados, com empresário e tudo, já pensando em ofertas do futebol europeu.

Um exemplo: no domingo (25/1), o Corinthians ganhou a Copa São Paulo, derrotando o São Paulo. Em todo o transcorrer do torneio, o jogador-sensação do Corinthians foi um baixotinho de 1,57 metro chamado Elton, ou Maradoninha ? um pequenino que resolve. Pelos jornais, a gente não consegue saber nem se Elton foi ou não escalado no jogo final.

 

Mas difícil de agüentar, mesmo, é quando a imprensa tenta mostrar erudição. Outro dia, comentando o livro de Paul Burrell, mordomo da princesa Diana, o autor cita o gosto inglês por assombrações, e lembra o pai de um famoso príncipe, Hamlet, que o atormenta sobre a podridão do reino. Tudo muito bom, tudo muito bem. Mas Hamlet, personagem do mais conceituado autor britânico, William Shakespeare, não é inglês: é dinamarquês.

Quanto ao piloto americano que fez um gesto obsceno ao ser fichado em São Paulo, um jornal o chamou de "mau educado". Ou seja, é uma má pessoa, mas consegue disfarçar sua condição com uma capa de civilidade.

 

Todo mundo publicou, ninguém comentou. Entre os passageiros do vôo da FAB que deveria ir para o Maranhão, levando personalidades do governo para as últimas homenagens a dona Kyola, mãe do senador José Sarney, estava o advogado brasiliense Antônio Carlos de Almeida Castro.

Por que ele pode voar pela FAB, de graça, e o caro leitor não pode?

 

A mulher que vive seis anos com um homem e tem uma filha com ele deve ser chamada de "esposa" ou "namorada"? No caso do prefeito assassinado de Santo André, o preconceito venceu: toda a imprensa a chama de "namorada" ? apesar dos anos de convivência, apesar da filha.

(*) Jornalista; e-mail <carlos@brickmann.com.br>

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