Sábado, 20 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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Morte de Kelly fomenta crise política

Por lgarcia em 22/07/2003 na edição 234

O JORNALISMO PODE MATAR?

Depois de tentar preservar a confidencialidade de sua fonte na crise que travou com o Parlamento britânico, a BBC não tem mais razões para continuar guardando segredo. A corporação declarou que David Kelly, especialista em armas biológicas do governo do Reino Unido encontrado morto no dia 18/7, era sua fonte sobre armas de destruição em massa.

A polêmica reportagem de Andrew Gilligan havia ido ao ar em um programa de rádio da BBC e despertara a ira da Downing Street. Segundo a matéria, os políticos britânicos haviam "exagerado" em trechos de um dossiê sobre armas de destruição em massa no Iraque.

A revelação da fonte foi feita por Richard Sambrook, diretor de jornalismo da BBC, após falar com a família de Kelly. Ele disse que sua corporação acredita ter interpretado e reportado de forma correta as informações obtidas a partir do depoimento de Kelly. Sambrook disse ainda que a BBC havia, até o último momento, se comprometido com o dever de confidencialidade garantido a Kelly, e que "sente profundamente" que seu envolvimento como fonte das reportagens terminou em tragédia.

O premiê Tony Blair afirmou estar satisfeito com a revelação da BBC. "Diferenças à parte, ninguém queria que essa tragédia ocorresse", disse. A polícia confirmou que Kelly morreu ao cortar o pulso esquerdo.

Em um e-mail enviado a um jornalista do New York Times algumas horas antes de morrer, Kelly falou sobre "muitos atores obscuros fazendo jogos". Kelly também disse a um repórter do Sunday Times que se sentiu traído pelo vazamento de seu nome pelo Ministério da Defesa e que estava sob "pressão intolerável" ao ser posto no centro da crise sobre as armas.

Na semana passada, Kelly disse a parlamentares que havia conversado com Gilligan, mas não achava que era a principal fonte da reportagem que afirma que o dossiê havia sido deturpado. "Não vejo como ele poderia ter feito uma declaração tão impositiva a partir dos meus comentários", disse aos membros do Parlamento. Tom Mangold, jornalista de TV e amigo de Kelly, afirmou que o cientista achava que era fonte de cerca de 60% da reportagem de Gilligan.

Sobrou para a BBC

A declaração da BBC levou alguns parlamentares a criticar a corporação. Tory Robert Jackson, por exemplo, pediu a demissão de Gavyn Davies, presidente da BBC. Jackson acusou o repórter da BBC Andrew Gilligan de inventar parte da reportagem polêmica que gerou a crise e culminou no que parece ter sido suicídio de Kelly.

O parlamentar culpou a BBC pela morte do cientista. "Se eles [a BBC] tivessem feito essa declaração enquanto Kelly estava vivo, acho que ele ainda estaria vivo", afirmou.

Jackson, de acordo com reportagem da BBC [20/7], acha que o repórter também deveria ser demitido, uma vez que, para ele, "está bem claro que Andrew Gilligan inventou uma parte substancial dessa reportagem tão danosa". Ele também acha que Greg Dyke, diretor-geral da BBC, deveria reconsiderar seu cargo.

Há, ainda, políticos que achem que a culpa está do outro lado. A ministra Glenda Jackson, ex-trabalhista, acha que Tony Blair deveria sair de cena, já que, para ela, a morte de Kelly é culpa da Downing Street, a qual, diz, usou a batalha com a BBC para desviar a atenção sobre a falha em encontrar armas de destruição em massa no Iraque.

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