Domingo, 17 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

PRIMEIRAS EDIçõES > VIOLÊNCIA CONTRA JORNALISTAS

Mortes "inexplicáveis" no Iraque

Por lgarcia em 19/08/2003 na edição 238

VIOLÊNCIA CONTRA JORNALISTAS

O operador de câmera palestino Mazen Dana, a serviço da agência Reuters, foi morto a tiros por soldados americanos perto da prisão de Abu Gharib, a 25 km da capital iraquiana Bagdá.

O Pentágono confirmou a morte de Dana, mas não soube explicar o motivo. "O incidente está sob investigação. Não era visível, inicialmente, que se tratava de um repórter. Não sei quais eram as circunstâncias. Obviamente esta coalizão não costuma alvejar repórteres. Se ele levou tiros é porque sua identidade foi confundida", afirmou à AFP [17/8/03] o tenente-coronel Ken McClellan.

Abu Gharib tem chamado atenção da imprensa porque ali os prisioneiros estariam alojados em péssimas condições.

A Federação Internacional de Jornalistas [13/8/03] ? IFJ, sigla em inglês ? classificou como "encobertamento cínico" o relatório do Pentágono sobre o ataque de tropas dos EUA ao hotel Palestina, em Bagdá, no mês de abril. Cerca de 200 profissionais da imprensa mundial estavam hospedados no hotel quando tanques americanos dispararam em sua direção. Em conseqüência da ação militar morreram dois operadores de câmera, o espanhol José Couso, do canal Telecinco, e o ucraniano Taras Protsyuk, da agência Reuters.

Aidan White, secretário-geral da IFJ, explica que os soldados que propriamente atacaram não têm culpa, mas reclama que o Pentágono ainda não respondeu porque o comando da operação não avisou seus homens de que o Palestina, um dos edifícios mais altos da cidade, era base de correspondentes. "É claro que se os soldados soubessem que o hotel estava cheio de repórteres, teriam entendido porque havia gente com câmeras e binóculos nas janelas", afirma White.

O documento militar afirma que suas tropas pensaram que havia uma equipe de atiradores iraquianos no edifício. A IFJ chama atenção para o fato de o relatório não dar explicações sobre as alegações mentirosas de oficiais americanos, feitas logo após o incidente, de que tiros teriam sido disparados do hotel antes que fosse atacado ? o que todos os jornalistas ali presentes negaram.

Mohammed al-Jassem está sendo um exemplo a editores e jornalistas. Um exemplo de quão falsa é a liberdade de imprensa do Kuwait. Editor do diário al-Watan e das edições árabes da Newsweek e da Foreign Policy, por 10 anos estimulou a família detentora do poder no país a reformar o Estado do Golfo Pérsico, brigou pelo direito ao voto de mulheres e desafiou fundamentalistas islâmicos resistentes à influência ocidental.

Agora, autoridades kuwaitianas estão processando al-Jassem, alegando ter violado uma lei que proíbe críticas ao emir, Sheik Jaber al-Ahmed al-Sabah. "Eles querem que eu seja um exemplo aos outros", disse o jornalista. "Se pode mover essa ação contra mim, podem fazê-lo a qualquer um."

O governo, segundo Evan Osnos [Chicago Tribune, 11/8/03], alega que ele criticou o emir durante um discurso em reunião privada.

O Kuwait tem sete jornais diários para 2,1 milhões de habitantes. Os jornalistas gozam de relativa liberdade em relação a políticos ? à exceção do emir.

"Você encontra casos assim em todo o mundo árabe, e a única solução é descriminalizar a liberdade de expressão", disse Rami Khouri, editor do Daily Star no Líbano. "Ele fez uma crítica legítima."

Enquanto o Kuwait enquadra um dos principais editores do país, o governo da Arábia Saudita silenciou dois jornalistas que desafiaram o sistema conservador. O colunista Hussein Shobokshi foi dispensado em julho por dois jornais aos quais escrevia, após publicar um artigo prevendo um futuro em que sua filha pudesse dirigir e todos os sauditas pudessem votar e discutir direitos humanos.

Sua demissão não ocorreu muito depois de o governo saudita despejar Jamal Khashoggi, editor do jornal onde publicou um editorial de tom reformista que causou boicote e denúncias de líderes islâmicos. Khashoggi saiu do diário saudita al-Watan após condenar a militância linha-dura, vetora dos bombardeios em Riad que matou cerca de 25 pessoas.

"Temos uma fase crucial à frente", disse Joel Campagna, coordenador do programa de Oriente Médio do Comitê para Proteção de Jornalistas (CPJ). "É preciso reconhecer que a imprensa tem papel fundamental na sociedade contanto que jornalistas possam fazer seu trabalho."

Todos os comentários

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem