Terça-feira, 19 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

PRIMEIRAS EDIçõES > LÍNGUA PORTUGUESA

Márcio Chaer

Por lgarcia em 14/10/2003 na edição 246

DOMINGO ILEGAL

“O envolvimento de Nizan Guanaes com o Domingo Legal”, copyright Revista Consultor Jurídico (www.conjur.uol.com.br), 12/10/03

“O publicitário Nizan Guanaes tem um jeito peculiar de explicar porque as pessoas devem se preocupar mais com as aparências do que com a vida real. ?Eu amo meu personal trainer?, exemplifica. ?Mas ele é gay?, diz num tom mais baixo de voz. O publicitário acentua cada palavra para explicar que não tem preconceito algum. ?Eu sou baiano?, explica. E para provar que vê o homossexualismo com naturalidade, Nizan garante que tem muitos amigos que são gays: ?Até meu irmão é?, reforça. No grand finale de sua parábola, ele arremata: ?Agora, o que eu não vou fazer nunca &eacuteeacute; sair à noite com o meu personal trainer, porque isso destruiria minha reputação?.

O código de conduta de Nizan é praticado todo dia pelos meios de comunicação. A hipocrisia e a demagogia-todo profissional da área sabe-são ingredientes fundamentais para a construção de imagens. O abismo que separa a importância da aparência e a da ética tem mais ou menos a mesma distância que há entre os índices de audiência da TV Cultura e da TV Globo. Ou, ainda, entre uma peça de Bertolt Brecht e o programa do Ratinho.

O que se chamava de ?marmelada? na época do Telecatch Montila, quando um grupo de musculosos simulava luta livre fazendo acrobacias num ringue de boxe, evoluiu para as pegadinhas ensaiadas e outras encenações rebatizadas de dramatizações.

Essa realidade é tão sabida que as eleições se tornaram, reconhecidamente, um torneio onde vence quem tem promessas mais saborosas a oferecer e quem melhor souber cortejar a massa ignara. É por isso que o comando das campanhas fica nas mãos de publicitários e não de cientistas ou especialistas em saúde, educação ou agricultura.

O jogo da hipocrisia, é claro, tem lá sua complexidade. Os comunicadores fazem de conta que a grande maioria da população é civilizada e se choca com as palhaçadas da televisão. Como se a massa ignorante, imbecilizada e desorientada quisesse outra coisa e a produção do Domingo Legal – ?esses farsantes?-estivesse empurrando, goela abaixo da população, essas porcarias.

Os críticos, esses anônimos que escrevem para menos de 2% da população, decretam que a população não tolera mais essas marmeladas. O Ministério Público e a polícia abrem inquéritos e o ministro da Justiça dá entrevistas.

No caso da entrevista falsificada do PCC, no Domingo Legal de Gugu Liberato, a pantomima derivou até mesmo para uma proibição de o programa ir ao ar com uma decisão jurídica inconsistente e insustentável. Mas cumpriu-se a obrigação de dar uma satisfação à estreita fatia ilustrada da população que sabe distinguir valores de antivalores.

Lutar contra a realidade pode ser a luta mais vã. Entanto, contemporizar com a co-existência de dois universos tão distantes dentro de um mesmo país torna as coisas muito complicadas.

Aproximar esses dois universos seria útil. Se não para eleger presidentes que prometam na campanha o que vão fazer, de fato, nas suas administraçõesao menos para que o Nizan possa sair com o personal trainer, de quem tanto gosta, à noite.”

“Gugu”, in Cartas, copyright Veja, 15/10/03

“Fiquei abismada porque senti um tom de menosprezo do jornalista Ricardo Valladares, e talvez de seu editor, Mario Sabino, ao mencionarem, em relação à ação em que se obteve punição contra o SBT no caso da ?entrevista? com membros do PCC, que ?uma liminar foi pedida por uma procuradora, concedida por uma juíza e mantida por uma desembargadora? (grifos meus). Mais à frente ele nos cita, todas, nominalmente para dizer que atropelamos ?clamorosamente? a Constituição e que foi praticado ato de censura. Duas coisas justificam meu espanto: sentir o incontido desrespeito ao trabalho realizado por mulheres e o jornalista não ter tido sequer a ética de consignar a nossa opinião. Não foi por falta de entrevista, já que eu atendi pessoalmente o senhor Ricardo, por telefone, após as 20 horas, quando eu ainda trabalhava em meu gabinete, exatamente na semana que antecedeu a publicação da reportagem. Sua entrevista foi realmente inesquecível, porque, além de eu ter falado com ele por aproximadamente trinta minutos, após um dia de trabalho extenuante, cheguei a ler todos os trechos da Constituição aos quais me referia, a seu pedido. Ele anotou artigos, incisos, parágrafos e as combinações respectivas nas quais nos embasamos para a ação. Quer dizer: na reportagem constou que atropelamos a Constituição, mas a revista nem se deu ao trabalho de dizer onde ela foi ferida. Com certeza por não saberem mesmo, até porque, após minhas explicações, ficou muito claro que havia sim respaldo constitucional. Mas não, a revista se limitou a reproduzir opiniões de quem provavelmente nem leu a petição inicial e as decisões judiciais para rebater nossos argumentos jurídicos de forma mais fundamentada. Porém todos devem dar sua opinião, ainda mais o Ministro da Justiça. Só que também ao nosso lado existem muitas opiniões de respeito, as quais foram solenemente ignoradas por VEJA. Quanto à tal censura prévia a que se refere a reportagem, vale esclarecer que nossa Constituição não admite censura, nem prévia nem posterior (art. 220, ? 2?). Mas admite o acesso ao Judiciário contra os abusos das emissoras (art. 220, II c.c. 223, ? 4? e art. 5? XXXV), quando houver lesão ou ameaça de lesão a direito. Então, censura e acesso à Justiça não podem ser a mesma coisa. Do contrário, a Constituição seria contraditória ao vedar a primeira e admitir o segundo. Mas, enfim, é só a opinião de uma mulher, mas que, é bom lembrar aos responsáveis pela matéria, agiu em nome de uma instituição, que se chama Ministério Público Federal e no exercício da função de Procuradora Regional dos Direitos do Cidadão no Estado de São Paulo, em defesa dos cidadãos que têm direito a que as emissoras atuem com total liberdade de expressão, mas que não precisam tolerar que as redes de TV, em nome dessa liberdade, despejem em suas casas o que quiserem, sem qualquer conseqüência. Nesse caso, a conseqüência foi a suspensão de um programa, mas talvez devesse ter sido pedida diretamente a cassação da concessão, expressamente prevista na Constituição (art. 223, ? 4?). Quem sabe assim a atuação na defesa dos cidadãos não fosse ironicamente (foi o que senti) chamada de ?pegadinha da Justiça?, como ocorreu na reportagem (?Todos atropelaram a lei?, 1? de outubro). Eugênia Augusta Gonzaga Fávero, Procuradora da República, São Paulo, SP”

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Censura ou punição? — Eugênia Augusta Gonzaga Fávero

 

PESTANA NA ESCALA

“Escala convoca Flávio Pestana para acabar com o reinado da Abril”, copyright Aol Notícias (www.cidadebiz.com.br), 10/10/03

“Editora de revistas no Brasil é sinônimo de Abril, que edita entre outras Veja, Claudia e Playboy. Nem por isso, ela é única a faturar pesado na venda em bancas. Nesta área, é seguida de perto pela desconhecida Escala, que detém um quinto do mercado, à frente da Globo. ?A Escala publica 140 edições de revistas e vende 4 milhões de exemplares por mês?, afirma Flávio Pestana, que acaba de assumir o cargo de diretor-superintendente da empresa, contratado pelo presidente e fundador, Hercílio Lourenzi.

A estratégia da Escala para dominar o setor de bancas é de guerrilha. Edita um grande número de revistas, com ou sem periodicidade e com foco no leitor popular. Entre as áreas que cobre, estão culinária, costura, fofocas de artistas e serviços à mulher. Outro diferencial é que na Escala as revistas não têm redação própria. A editora fecha acordos com oficinas de jornalistas, contratadas quase sempre na base do lucro: têm lugar os projetos vendáveis.

?Todo mês, a editora lança e mata revistas, não tem pudor em descontinuar títulos?, diz Pestana. O ponto central desta estratégia é a gráfica Oceano. Em vez de esperar a demanda do mercado, a Escala cria o próprio mercado para a Oceano, que este ano dobrou sua capacidade de produção com a compra de uma nova máquina e se tornou a maior gráfica comercial do país. Além de imprimir para a Escala, a Oceano fatura com trabalhos para terceiros, que representam 70% dos serviços que realiza.

A Escala não possui um único assinante e o faturamento com a comercialização de espaços publicitários é quase zero. A receita provém mesmo das bancas, da Oceano e da Padilla, gráfica adquirida este ano. Juntas, as três operações devem faturar R$ 200 milhões em 2003, 50% mais do que o registrado pelo Grupo Escala no ano passado. Historicamente, a empresa vinha crescendo 20% ao ano. A forte expansão deste ano se deve à ampliação da capacidade da Oceano, à aquisição da Padilla, e à já mencionada tática de guerrilha.

A entrada de Pestana deverá mudar um pouco esta estratégia focada em bancas e serviços gráficos. O plano é fazer com que o comércio de rua respondam por apenas 50% da receita da editora e que o restante seja alimentado pela venda de assinaturas e publicidade. Para tanto, diz o executivo, os lançamentos passarão a ser mais planejados, para ter mais qualidade, como a revista Flash, inspirada no programa do colunista social Amaury Jr. Lançado em julho, o título, segundo Pestana, marca o início da nova fase da Escala.

A editora vai ganhar uma área de projetos especiais e também uma área de revistas customizadas, a exemplo da Abril, que anunciou recentemente um núcleo de publicações feitas sob encomenda para empresas. A Escala já conversa com dois possíveis clientes. Segundo Pestana, a editora leva vantagem sobre a rival porque tem custos de gráfica, mão-de-obra e administração mais enxutos, o que lhe confere maior competitividade.

Além disso, a editora vai investir no reposicionamento de alguns títulos. Devem ser contempladas aí a 7 Dias, a Conta Mais, e a TV Brasil, que, com a Flash, são as únicas revistas da Escala aferidas pelo IVC, o Instituto Verificador de Circulação.

A venda de assinaturas tem início em um mês, justamente com a Flash. Para atingir o consumidor, haverá investimentos em contato por telefone e em marketing. A editora deve contratar uma agência publicitária para, em primeiro lugar, divulgar a desconhecida marca Escala. ?A preocupação é de atingir o formador de opinião?, adianta Pestana.

A trajetória da Escala teve início há 11 anos, com um investimento de US$ 20.000. No começo, o faturamento da editora, a primeira empresa do grupo, não passava de US$ 200.000 anuais.”

 

LÍNGUA PORTUGUESA

"A língua do presidente da ABL", copyright Jornal do Brasil, 14/1003

"Bons livros nos ensinam a escrever melhor. Não me refiro às gramáticas, que reunidas compõem a Constituição da Língua Portuguesa, mas a livros de autores que têm o que dizer e sabem como fazê-lo, respeitando as normas prescritas. Quanto aos complexos critérios, certamente controversos, que nos permitem qualificar e avaliar livros e estilos, o espaço de uma coluna é insuficiente para reflexões indispensáveis. De todo modo, os leitores são capazes de intuir a qualidade do que lêem por meio do gosto, uma categoria que merece acolhimento.

Embora não esteja em todas as listas dos mais vendidos, vem obtendo extraordinária receptividade o livro A manilha e o libambo: a África e a escravidão, de 1500 a 1700 (Editora Nova Fronteira), do poeta, ensaísta e diplomata Alberto da Costa e Silva, atual presidente da Academia Brasileira de Letras.

No título, duas palavras de uso restrito, incomuns no vocabulário corrente. Manilha procede do espanhol manilla, argola, pulseira, bracelete. Seu significado literal é mãozinha, tendo vindo originalmente do latim manicula, diminutivo de manus, mão.

No caudaloso volume de 1.072 páginas, os pontos altos são a elegância no trato da língua portuguesa e as pesquisas sobre temas e problemas do comércio de escravos africanos. Diligente com suas fontes, Costa e Silva já nos dera antes o clássico A enxada e a lança. Poeta de reconhecidos méritos, não deixa que o arrebatamento artístico lhe embote outros saberes, como, aliás, ocorreu a Castro Alves, que era meio jejuno em História e Geografia, apesar de sua grande sensibilidade e extraordinários recursos de expressão poética. O poeta dos escravos errava feio no curso dos rios e nos limites de nações e desertos.

Quem já teve o prazer de ler a obra poética e ensaística de Costa e Silva, ouvi-lo em conferências e degustar sua prosa à beira de livros — e também de copos e pratos, pois os imortais precisam comer e beber como os mortais — sabe tratar-se de uma de nossas melhores inteligências, senhor de invejável percurso intelectual, enriquecido com sua atuação como embaixador do Brasil em Portugal, na Nigéria, na Colômbia e no Paraguai.

O título deste esplêndido livro, conquanto soe meio insólito, recupera duas palavras que muito têm a dizer sobre a escravidão. Nos primeiros séculos da África portuguesa, manilha designava bracelete de metal, em geral feito de latão ou de cobre, utilizado como enfeite em braços e tornozelos e também como moeda. Ao contrário de algemas e pulseiras, apresentava a forma da letra ”C”, pois não se fechava inteiramente.

Libambo é vocábulo que veio do quimbundo, língua africana de bundos e ambundos, grupos da família banta, que habitam, entre outras, as províncias do Bengo, de Luanda, e parte do Bié, em Angola. Certa vez o cartunista Jaguar fez em O Pasquim uma charge muito engraçada a propósito de bunda designar, além das nádegas, uma língua africana.

Voltemos ao libambo, que designa espécie de ajoujo de ferro, utilizado para amarrar pelo pescoço um grupo de escravos. O autor dá ainda no prefácio uma cena perfeita de como os mercadores de escravos usavam o libambo: ”não era raro que o colar e a corrente de metal fossem substituídos por meios mais antigos e mais baratos, e em muitas caravanas de cativos o que se via eram a corda, a tira de couro e a forquilha”.

É comum que espíritos esclarecidos temam, em épocas de eleições, que seja escolhido o pior candidato. Em 1933, havia o medo difuso de que Getúlio Vargas escolhesse Benedito Valadares para interventor de Minas Gerais. Nasceu naquela época a frase famosa ”Será o Benedito?”, depois utilizada até como blasfêmia. E o escolhido foi justamente o Benedito!

Às vezes, os imortais nos decepcionam. No caso da presidência, com a eleição de Alberto da Costa e Silva, a Academia acertou. Não foi nenhum Benedito o escolhido. Foi um escritor que jamais ofende a mãe gentil e respeita as normas gramaticais em vigor, a Constituição de nossa língua."

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