Domingo, 18 de Novembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1013
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PRIMEIRAS EDIçõES >

Márcio Senne de Moraes

Por lgarcia em 29/07/2003 na edição 235

TV ALL NEWS

“França quer ter canal internacional de notícias em 2004”, copyright Folha de S.Paulo, 28/7/03

“O governo francês pretende lançar, em 2004, um canal internacional de notícias, numa tentativa de difundir o modo como o país vê o mundo e a cultura francesa, a exemplo do que já ocorre com o Reino Unido por meio da BBC.

O projeto, lançado no primeiro semestre deste ano, tem como objetivo oficial ?garantir uma presença mais importante e mais visível da França na batalha mundial de imagens e contribuir para o pluralismo da informação internacional?, segundo um boletim informativo do gabinete do premiê francês, Jean-Pierre Raffarin.

De acordo com Dominique Reynié, cientista político do Instituto de Estudos Políticos de Paris, isso significa que a administração francesa ?se deu conta de que está perdendo a batalha audiovisual e de que é preciso estender sua esfera de influência cultural por meio de uma rede de TV?.

?Trata-se de uma questão de ?soft power?, o poder que advém da influência cultural e ideológica de um país sobre o restante do planeta. Sabemos que a França era muito importante nessas áreas até o século 19 ou o início do século passado, mas essa influência foi diluindo-se com o tempo. Assim, o plano de lançar um canal de notícias parece inserir-se no esforço para recuperar o atraso?, explicou Reynié à Folha.

?Antevejo uma rede de notícias bem mais parecida com a BBC britânica do que com a CNN americana. Esta é privada, não pública. Assim, deveremos ver programas de forte conteúdo analítico no futuro canal francês?, acrescentou o cientista político.

O chanceler francês, Dominique de Villepin, prometeu, há duas semanas, que Paris dará o apoio financeiro necessário para que o projeto se concretize, dizendo que o poder público dedicará a ele ?meios importantes e duráveis?. Estima-se que o CFI-24 (Canal França Internacional, 24 horas por dia) venha a ter um orçamento de 80 milhões, podendo chegar a 100 milhões, além das contribuições de seus ?membros?, como imagens, reportagens etc.

Um estudo da Assembléia Nacional da França sobre o canal de notícias, divulgado em maio, preconiza uma grande aliança em torno do projeto. Assim, poderiam ser ?membros? do canal a agência de notícias France Presse, as redes de televisão TV5 e Euronews e grupos privados, como a TF1 e o Canal Plus. De Villepin falou de uma ?parceria entre operadores públicos e privados?.

O presidente do CFI-24 será indicado pelo Conselho Superior do Audiovisual. Cerca de 200 pessoas trabalharão na rede, entre os quais por volta de cem jornalistas.

No início, as imagens do canal de notícias -em francês, em inglês e em árabe- serão captadas na Europa, na África e no Oriente Médio. Mais tarde, sua difusão será estendida às Américas e à Ásia, com o português, o espanhol e o chinês podendo ser introduzidos em sua programação.”

 

“A CNN do governo brasileiro”, copyright Comunique-se (www.comunique-se.com.br), 25/7/03

“Era só essa que faltava. E depois dizem que o Brasil é um país pobre e que o governo precisa de mais dinheiro, mais impostos para pagar as dívidas, as obrigações sociais e os inevitáveis excessos. Sempre fui contra TVs e rádios estatais. Em verdade, no Brasil não temos e jamais tivemos um sistema de TVs ou rádios públicas. Essas emissoras não podem criticar o governo que as sustentam. Não têm independência financeira e política para evitar o atalho tão conveniente de um jornalismo chapa-branca e que ignora sempre tudo que é polêmico ou que possa incomodar os ?patrões?. TV pública tem que ser independente e possuir gestão financeira condizente com o papel que a sociedade deve exigir. Se não, é dinheiro gasto para satisfazer a vaidade de poucos.

Não satisfeitos com a Voz do Brasil, que em realidade deveria se chamar a ?Voz de Brasília?, um programa tão bom e tão popular que é ?obrigatório?, agora o deputado João Caldas (PL-AL) apresentou o projeto de lei 1499/03 que cria um canal de TV internacional, sob responsabilidade da Presidência da República, ?para a difusão da língua portuguesa e a divulgação de programas educacionais, culturais, filmes nacionais, noticiários, documentários e vídeos institucionais do Brasil no exterior?.

Ainda segundo o parlamentar, ?o objetivo é proporcionar a estrangeiros e brasileiros radicados em outros países o aprendizado e aprimoramento da língua portuguesa, o conhecimento das instituições, o acompanhamento de fatos relevantes na área política, social, econômica e cultural da realidade brasileira, e a possibilidade de assistir a filmes nacionais, documentários e programas educativos que contemplem a riqueza geográfica e cultural do povo brasileiro?. A forma de tramitação desse projeto, segundo a nota da Agência Câmara de Notícias, ainda não foi definida. Menos mal. Deve ser um projeto da maior importância e urgência em um país que não consegue sequer implementar um programa para acabar com a fome ou convencer funcionários públicos que a reforma da previdência é uma ?boa?.

Essa notícia sobre o canal internacional de TV, ou a CNN do governo brasileiro, parece brincadeira de mau gosto e ainda mais, na hora errada. Deveríamos pensar muito antes de criar novas despesas em um momento de tantas más notícias. Estamos ampliando o alcance e o poder das mesmas pessoas que produzem a Voz do Brasil, um noticiário ultrapassado e perigoso. Distorce uma realidade nacional da mesma forma que o velho JN mostrava um país de milagres econômicos em plena ditadura. TV e noticiário precisam de liberdade para criticar a todos, inclusive o governo. Insisto mais uma vez, acompanhem o debate entre o governo Blair, a morte do funcionário público e o papel de uma TV pública de verdade como a BBC.

O que mais me assusta é que esse canal também se torne ?obrigatório? para todos os brasileiros que residem no exterior. Tudo é possível!

Mas também queria aproveitar a oportunidade e sugerir, novamente, aos defensores de programas de rádio como a Voz do Brasil que também lutem pela obrigatoriedade da transmissão da Voz pela TV. Não me conformo com a discriminação. Deveria ser transmitido, assim mesmo, do jeito que é produzido para o rádio, com todas aquelas informações inúteis sobre o poder legislativo, judiciário e executivo. Aquele mesmo jornalismo estatal concebido e implementado pela ditadura de Vargas durante o Estado Novo que nenhuma das nossas ?mudanças? teve coragem ou vontade política de abrir mão.

Já somos contemplados com verbas públicas enormes para as TVs do Senado, da Câmara e tantas outras TVs estatais que só servem para produzir ?baixarias televisivas? e empregar os ?apadrinhados? do poder. Defender empregos em rádios e TVs estatais e não exigir independência editorial é desperdiçar o nosso próprio dinheiro. Aquele mesmo dinheiro que suamos tanto para ganhar, mas que certos deputados consideram que nunca vai faltar. Qualquer coisa, é só aumentar novamente os impostos e dizer na TV estatal que o Brasil precisa muito de uma CNN brasileira.”

 

FITA PROIBIDA

“Documentário proibido de ir ao ar”, copyright Comunique-se (www.comunique-se.com.br), 25/7/03

“Estava tudo certo. Dia 21/06 seria exibido, às 21h, o documentário ?Sete Faces de uma Guerra – O Brasil contra a Aids?, do jornalista Paulo Markun, na TV Cultura. Mas, graças a uma liminar da Justiça Federal, expedida na sexta-feira, 20/06, o trabalho do jornalista foi impedido de ser exibido. Seis pessoas que haviam sido entrevistadas para a produção foram os autores do pedido junto à Justiça. Segundo Markun, essas pessoas não concordaram com a edição das entrevistas.

?Sete Faces de uma guerra, o Brasil contra a Aids? foi exibido em pré-estréia diante de mais de 400 representantes das ONGs que lutam contra essa doença em todo o país, no Sesc Vila Mariana e terminou aplaudido de pé. A mesma reação positiva, entusiasmada, o jornalista registrou no dia seguinte em outra pré-estréia em São José, na Grande Florianópolis, na Casa de Cultura Estácio de Sá, da parte de 150 convidados.

Mas, alguns militantes dessa luta e personagens do documentário, presentes à primeira pré-estréia, não gostaram do resultado do trabalho e entraram na Justiça, obtendo uma decisão liminar. ?Cheguei a ponderar pessoalmente aos reclamantes que respeitava a opinião deles, mas que não havia nada a modificar no vídeo, já que todos haviam assinado as autorizações necessárias e nem ao menos utilizei o recurso gasto do off ou da participação de um repórter para costurar as histórias?.

Os reclamantes acusam Markun de espalhar a imagem da Aids como morte, preconceito, desonestidade intelectual, irresponsabilidade jornalística, etc.

Em entrevista ao Comunique-se, Markun nos disse que como tantos outros brasileiros de classe média, perdeu vários amigos para a epidemia, acompanhou o noticiário sobre o avanço da doença e procura acompanhar a reação da medicina e da sociedade diante da epidemia. ?Assim, foi com alegria que recebi o convite da TV Cultura para dirigir e editar um documentário sobre a luta contra a Aids. Minha preocupação sempre foi a de realizar um trabalho que aliasse o rigor jornalístico à força do audiovisual para apresentar as várias facetas dessa epopéia coletiva. E me orgulho do resultado a que conseguimos chegar – TV é um trabalho de equipe e o plural aqui respeita essa realidade – depois de três meses de pesquisa, um mês de gravações e um mês de edição?, disse o jornalista.

José Araújo Lima, presidente da Associação François Xavier, uma casa que dá apoio à crianças soropositivas, é um dos reclamantes. Em entrevista ao Comunique-se ele disse que não quer fazer censura e sim que sua imagem seja retirada do documentário. Lima disse que considerou o resultado final do documentário completamente diferente do que lhe foi dito antes de gravar os depoimentos. ?Não estou aqui para proibir a exibição do documentário, só acredito que ainda tenhamos direito sobre nossas imagens?, completa ele. Além disso, Lima nos disse ainda que o juiz acatou um outro pedido feito por eles, o de retirar a imagem de uma adolescente portadora do vírus.

Lima, que considerou o documentário ruim, disse que admira o jornalista, mas acredita que Markum tenha sido mal assessorado na edição do vídeo. ?Com o gabarito e o talento que ele tem, não acho que Markum tenha tido segundas intenções. Acho sim que o erro aconteceu por falta de conhecimento. O produto final ficou com uma visão de dez anos atrás e não a de hoje?. Lima disse ainda que não quer fazer polêmica sobre o assunto, só quer que sua imagem seja retirada do documentário.

Foram três ações: uma pedindo que o Ministério Público abra um inquérito para apurar o interesse da TV Cultura em denegrir a imagem dos portadores do vírus, e duas reclamando a probição do documentário. A Vara da Infância e da Adolescência considerou exagerado o pedido e deteminou que não haja imagem de menores portadores do HIV identificados no vídeo, mas a juíza substituta da 16? Vara Federal de São Paulo, Carla Rister, concedeu liminar avaliando que, se não fizesse isso e tudo o que está no pedido fosse verdade, o dano seria irreparável.

?Apresentamos a defesa, incluindo mais de uma dúzia de cartas de personagens do documentário, autoridades médicas, militantes e especialistas, junto com uma cópia do vídeo idêntica à exibida na pré-estréia. A juíza assistiu a fita, elogiou o caráter informativo do documentário e a programação da Cultura, mas declarou-se incompetente para decidir o que fazer, remetendo o caso à Justiça Estadual. Esta semana, o jurídico da Cultura recorreu ao Tribunal Federal de Recursos, que está em férias e só vai se mexer se houver barulho sobre o caso, segundo me informaram?, disse Markun.

Ainda segundo o jornalista, o documentário é um registro emocionado mas preciso da luta tenaz de doentes, organizações não-governamentais, cientistas, sanitaristas e autoridades de vários governos e instâncias sem a qual a fórmula brasileira não teria dado certo. ?Não importa se o entrevistado é dirigente de empresa, alto funcionário governamental, militante de ONG, parente de vítima ou um jovem interno numa casa de apoio, foram todos ouvidos com o mesmo critério, diante de um dos sete fundos desenhados para justamente igualar os depoentes. A edição buscou tornar as histórias compreensíveis e, claro, deixou de lado boa parte do material, já que coletei 50 depoimentos de aproximadamente meia hora cada um para um resultado final de 56 minutos?, completa o jornalista.

Markun está disposto a exibir e discutir o resultado desse trabalho em qualquer lugar, a qualquer hora, para qualquer platéia. ?Por isso, não posso aceitar que uma tecnicalidade jurídica respalde a incompreensão de pessoas bem intencionadas, mas desnorteadas, para dizer o mínimo?.

Os reclamantes que entraram na Justiça enviaram uma nota explicando as razões pelas quais estão exigindo a retirada de suas participações no documentário. Leia abaixo na íntegra:

Imagem bélica estigmatiza a doença

?O documentário da TV Cultura ‘Sete faces de uma guerra: a luta contra a Aids no Brasil’ reforça estigmas que ao longo de duas décadas a sociedade civil se esforçou para desconstruir. Trata-se apenas de uma história linear, sem qualquer reflexão ou olhar para ver as mudanças promovidas pela doença. Utiliza conceitos equivocados e ultrapassados, prestando um desserviço para a difusão de informações e prevenção contra o vírus HIV. Sem temor de errar, podemos garantir que a conceituação da Aids presente no documentário da TV Cultura se pauta pelo que há de mais conservador e preconceituoso, algo que só vimos nos primórdios da doença.

Aliás, a escolha da trilha musical com marchas militares, agressivas e bélicas, revela muito dos equívocos do trabalho da TV Cultura. Vale aqui citar uma passagem de ‘Aids e sua metáfora’, de Susan Sontag: ‘A metáfora que estou mais interessada em aposentar, mais ainda depois do surgimento da Aids, é a metáfora militar. (…) o efeito das imagens militares sobre a conceituação da doença e da saúde está longe de ser irrelevante. Elas provocam uma mobilização excessiva, uma representação exagerada, e dão uma contribuição de peso para o processo de excomunhão e estigmatização do doente’.

Faltou sensibilidade aos autores do documentário, que retoma a dicotomia entre os culpados – homossexuais, travestis, mulheres que transam com vários homens, usuários de drogas – e os inocentes, hemofílicos, crianças, adolescentes. É o reforço de uma concepção já distante, de que a Aids é um problema de grupos de riscos. Justamente uma concepção contra a qual a sociedade civil organizada vem lutando tenazmente para dissipar. Esta mensagem subliminar, que associa a infecção pelo HIV a grupos de risco, é uma idéia superada. A manutenção deste tipo de representação é perigosa, porque cria a falsa noção de que quem não se enquadra em nenhum dos estereótipos do chamado ‘grupo de risco’, é invulnerável ao HIV. Não corre qualquer risco.

É lamentável também ver que o documentário ainda trata a Aids para culpabilizar as pessoas que se contaminaram ou que tiveram a extrema infelicidade de passar o vírus para seus filhos. Aponta com rigor os culpados, sem qualquer clemência ou compaixão pela natureza humana.

O documentário também insiste em associar a Aids com a morte, uma visão mais apropriada quando surgiu a doença, na década de 80. Como já ficou comprovado em todo o mundo, este enfoque não favorece que o receptor da mensagem adote ações de prevenção ou de inclusão das pessoas vivendo com HIV/Aids.

Permeado do início ao final por esta visão distorcida, o documentário ainda comete o pecado de mostrar os remédios como se fossem uma panacéia para o enfrentamento da epidemia. É possível que se trate de um reconhecimento ao laboratório que financiou o documentário, embora concordemos que a relevância das ações governamentais e a disponibilização dos medicamentos são fundamentais para o combate da epidemia da Aids.

Talvez mais importante do que insistir tanto nos medicamentos, fosse necessário dar um espaço para revelar que desde os anos 90 as pessoas com o vírus podem continuar vivendo, trabalhando, sendo felizes. Seria importante mostrar que hoje existe no país e no mundo redes de pessoas vivendo com HIV/Aids envolvidas no processo de conquista da cidadania, fazendo valer seus direitos e com qualidade de vida.

Algumas dessas pessoas, com histórias de quase vinte anos de respeitável e reconhecido trabalho no movimento de luta contra Aids, foram entrevistadas para o documentário. Ao longo de uma ou duas horas, falaram com orgulho de suas atividades e, em algum momento, fizeram pequenas confidências sobre sua saúde. Na edição final, muitas delas aparecem apenas um segundo ou um minuto falando das mazelas provocadas pelo medicamento. Nada de seu trabalho foi retratado ou nem mesmo referido.

Fica a indagação. Foi um equívoco dos ativistas terem confiado na credibilidade de TV Cultura e terem assinado uma autorização para a veiculação de suas entrevistas? Ou foi uma edição malandra, que só mostrou um instante de suas confidência e nada falou sobre seu dedicado e bem sucedido trabalho como lideranças da sociedade civil na luta contra a Aids?

Como todos sabemos, uma edição de imagem nunca é neutra, transmite uma determinada forma de ver uma questão. A maneira de ver a Aids deste documenário é, do nosso ponto de vista, totalmente equivocada. Basta lembrar que antes de entrarmos na Justiça contra a apresentação do documentário, ele mostrava uma adolescente, identificada pela imagem e pelo nome, contando que ninguém na sua escola sabia que ela era portadora do vírus.

A Justiça exigiu a retirada deste absurdo. Agora, nós queremos tirar nossas imagens do vídeo. Acreditamos ser nosso direito não participar de um documentário que contraria a reconstrução dos olhares sobre a epidemia que dia a dia nós temos construído?.

Eduardo Luiz Barbosa, Professor – Presidente do Fórum de ONG/AIDS de SP

Elizabete Franco Cruz, Psicóloga – Professora Acadêmica.

Hugo Hangstrom, Técnico de Publicidade.

Jorge Beloqui, Matemático – Professor Acadêmico.

Jose Araújo Lima Filho – Comerciário.

Nair Brito- Pedagoga.”

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