Segunda-feira, 11 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº969

PRIMEIRAS EDIçõES > CENSURA EM CUBA

Márcio Senne De Moraes

Por lgarcia em 31/01/2001 na edição 106

CENSURA EM CUBA

"Jornalista relata perseguição em Cuba", copyright Folha de S. Paulo, 28/01/01

"Os jornalistas independentes cubanos são obrigados a ditar suas matérias, por telefone, a um escritório no exterior para poder publicá-las. Eles não têm acesso à Internet e, portanto, não possuem correio eletrônico, que é privilégio dos funcionários do governo e dos estrangeiros.

A afirmação é de Raúl Rivero, poeta e figura de ponta do jornalismo independente cubano, que não pode publicar em seu país, pois é visto como dissidente político pelo regime de Fidel Castro.

Rivero diz que seu grupo de jornalistas independentes costuma definir sua agência, a ?Cuba Press?, como uma ?indiagência?, em alusão à precariedade de suas condições de trabalho.

O poeta e jornalista cubano tem enfrentado um forte policiamento do regime comunista de Cuba e de seu serviço de segurança desde que abandonou a imprensa controlada pelo Estado, em 1988, por ter-se desiludido com o sistema político da ilha.

Para ele, os meios de comunicação cubanos são porta-vozes do Partido Comunista e de Fidel, e a sociedade civil não tem acesso a eles.

De acordo com Rivero, o único setor da sociedade civil que tem um pouco de liberdade é a Igreja Católica, pois o governo não controla suas publicações. Entretanto, ainda segundo ele, elas geralmente se restringem a assuntos religiosos e têm um alcance bastante limitado, atingindo apenas o clero e os fiéis.

Em 1995, Rivero fundou a agência de notícias independente ?Cuba Press?. Como os outros cerca de 40 jornalistas que não trabalham para a imprensa oficial, ele é considerado um dissidente.

Leia a seguir trechos de sua entrevista, por telefone, à Folha.

Folha – Existe liberdade de imprensa em Cuba?

Raúl Rivero – A liberdade de imprensa não existe aqui, e todos os grandes meios de comunicação são porta-vozes do Partido Comunista e do governo de Fidel Castro. Não há nenhum grupo da sociedade civil que tenha acesso a esses meios, nem mesmo a Igreja Católica. Todas as rádios e as televisões, que são duas, e todos os jornais trabalham em função dos interesses do partido.

O único setor da sociedade civil que tem um pouco de liberdade é a Igreja Católica, pois o governo não controla suas publicações. Ela tem 21 ou 22 publicações pequenas, de alcance bastante limitado, que só atingem membros da igreja e fiéis. Essas publicações se restringem a assuntos religiosos e, apenas esporadicamente, tocam em assuntos delicados.

Nossa agência de notícias, a ?Cuba Press?, conta com alguns jornalistas independentes, porém não tem nenhum órgão nacional para veicular suas matérias. Não temos acesso a nenhum meio de comunicação dentro de Cuba. A imprensa é totalmente controlada pelo governo.

Folha – Há um sistema institucionalizado de perseguição aos jornalistas independentes?

Rivero – Para os jornalistas independentes, a situação é bem difícil. Atualmente, dois jornalistas cubanos estão na prisão. Na semana passada, um outro que estava preso foi libertado.

Bernardo Arévalo Padrón (diretor da agência independente ?Línea Sur Press?, que foi sentenciado a seis anos de prisão em 1997) está preso na Província de Cienfuegos. Cumpre pena por delito de desacato ao presidente e ao vice-presidente. Num programa de rádio veiculado em Miami, ele disse algo que desagradou ao governo. As autoridades consideraram que suas declarações eram insultos ao presidente e ao vice e impuseram-lhe três anos de prisão por cada insulto.

Manuel Antonio González Castellanos (da agência ?Cuba Press?) está preso na Província de Holguín, também por desacato. Foi condenado a dois anos e sete meses de encarceramento por desacato à figura do presidente.

As disposições legais não permitem que os jornalistas digam ou publiquem nada que ataque as políticas de Fidel, tudo que é considerado ofensivo ao regime acaba resultando em penas de prisão.

O jornalista que estava preso e foi solto na semana passada é Jesús Joel Díaz Hernández, de apenas 27 anos. Tinha sido condenado a quatro anos de prisão por um delito surrealista, que o governo chama de ?periculosidade?.

Isso significa que, para as autoridades, ele é uma pessoa potencialmente perigosa. Em janeiro de 1999, foi sentenciado por isso, apesar de não ter feito nada. Houve muitos protestos por parte de associações internacionais de jornalismo e de defesa dos direitos humanos, e ele foi libertado.

Digo com toda a modéstia que, aqui, existe um pequeno grupo de jornalistas que ainda tentam fazer um jornalismo verdadeiro. Estamos espalhados por toda a ilha, mas a maioria se encontra em Havana. A agência que dirijo faz parte desse grupo. Existimos há mais de cinco anos, mas também estamos sujeitos a altos e baixos.

Folha – Já que a ?Cuba Press? não tem acesso a meios de comunicação cubanos, como seu grupo publica suas matérias?

Rivero – Não temos acesso à Internet e, portanto, não temos correio eletrônico. Quase ninguém tem acesso à Internet em Cuba, ela só existe aqui para a nomenclatura (classe burocrática governamental) e para os estrangeiros.

O que fazemos, então, é transmitir nossas matérias por telefone para um pequeno escritório que temos em Miami. Esse escritório, que conta com alguns jornalistas cubanos exilados, recebe as mensagens gravadas e as coloca na Internet. Nosso endereço é www.nuevaprensa.org.

Também publicamos artigos em vários jornais latino-americanos, no entanto fazemos isso individualmente, não como agência. Aliás, costumamos dizer que não temos uma agência, mas uma ?indiagência?, em razão da indigência de nossas condições de trabalho. Costumamos dizer também que somos todos ditadores, pois somos obrigados a ditar nossos artigos por telefone.

Folha – O sr. não tem medo de sofrer pressões por dizer tudo isso a um jornalista estrangeiro?

Rivero – Sim, tenho medo, porém tento controlá-lo. Creio que temos o direito de dizer o que estou dizendo. Quando uma pessoa acredita que está trabalhando com honestidade, ela deve ter o direito de se expressar.

Não podemos mentir sobre a situação em Cuba nem insultar indevidamente um funcionário público ou um governante. Nossa agência de notícias procura privilegiar o jornalismo descritivo.

Somos acusados de ajudar os interesses dos EUA. Isso ocorre porque qualquer dissidência em Cuba é logo acusada de se associar aos norte-americanos, pois o governo acredita ter o monopólio do amor pelo país.

Há uma grande confusão na imprensa e no sistema educacional cubanos no que diz respeito a pátria, nação, Partido Comunista e governo. Assim, quando alguém não é a favor de alguma política do governo, logo é chamado de antipatriótico.

Quase todos os jornalistas de meu grupo já foram presos ou sofreram ameaças, mas, realmente, nossos trabalhos buscam não insultar ninguém.

Cada notícia que damos é provada e comprovada, buscamos várias fontes para sustentar nossas histórias. Sendo cuidadosos, buscamos administrar nossos medos e diminuir o perigo de sofrermos represálias. Por outro lado, apesar de podermos perder o medo de vez em quando, ele é a coisa que se recupera mais rapidamente no mundo.

"Cresce pressão do governo sobre correspondentes estrangeiros", copyright Folha de S. Paulo, 28/01/01

"Uma nova onda de pressão sobre correspondentes estrangeiros e agências de notícias internacionais está ocorrendo em Cuba ultimamente. Esse tipo de ataque representa um endurecimento do regime em um momento em que ele se sente cada vez mais frágil e ameaçado, segundo Denis Rousseau, ex-diretor do escritório da agência ?France Presse?, em Havana, e co-autor de ?A Ilha do Doutor Castro?, um livro sobre Cuba e o ditador Fidel Castro.

Na semana passada, a organização Repórteres Sem Fronteiras (RSF) expressou sua ?forte preocupação com as declarações de Fidel contra a imprensa estrangeira?. Em 17 de janeiro, o presidente cubano emitiu uma dura mensagem contra alguns jornalistas estrangeiros, que, em sua opinião, não são ?nada objetivos? em relação ao país, pois ?se dedicam a difamar a Revolução Cubana?.

De acordo com a RSF, Fidel ameaçou ?cancelar a permissão de trabalho? de algumas agências internacionais. Isso ocorreu logo após ataques lançados pela imprensa oficial contra o britânico Pascal Fletcher, correspondente do jornal ?Financial Times? e colaborador da agência ?Reuters?.

?Sofri ataques do regime no primeiro trimestre de 1999. Agora é a vez de Pascal, que é um grande amigo e um excelente profissional?, afirmou Rousseau à Folha.

Em 6 de janeiro, o jornal oficial ?Granma? criticou Fletcher, que já trabalha em Cuba há dez anos, por causa de sua cobertura das comemorações do 42? aniversário da revolução. O diário o atacou porque ele escreveu que, durante os festejos, houve um ?dilúvio de propaganda oficial?, cheia de ?mensagens triunfalistas?.

?Fletcher tem sido alvo de uma campanha de crucificação pública, e o modo como o governo tem tratado a imprensa internacional recentemente nos preocupa?, disse à Folha Lucia Newman, chefe da sucursal da CNN, em Havana.

Fletcher também foi acusado de manter laços estreitos com o Escritório de Interesses dos EUA, em Havana, que representa o país na ilha na ausência de relações diplomáticas entre os dois Estados.

Procurado pela reportagem da Folha, Fletcher não quis tecer comentários sobre o tema. ?Estou analisando minha situação e não gostaria de dizer nada a esse respeito, pois minhas declarações poderiam ser mal interpretadas.?

Para o jornalista independente e poeta cubano Raúl Rivero, os correspondentes estrangeiros têm mais facilidade para exercer seu trabalho que os jornalistas independentes cubanos, pois representam a mídia internacional e não publicam suas matérias dentro de Cuba. Mesmo assim, ainda segundo Rivero, eles não estão isentos da pressão exercida pelo Estado.

?Os jornalistas estrangeiros possuem mais dinheiro, o que facilita seu trabalho, porém também enfrentam problemas, como ocorre com Fletcher hoje em dia?, explicou Rivero à Folha.

Para Rousseau, a pressão psicológica é a mais difícil de ser enfrentada, pois, além dos ataques da imprensa oficial, o governo cubano faz com que seu ?alvo se sinta cada vez mais vigiado?.

?Além disso, o correspondente pode sofrer violência física, um ?acidente?. Sob tanta pressão, o jornalista pode cometer um erro profissional ou cair numa armadilha colocada pelas forças de segurança do Estado?, afirmou.

Tchecos na prisão

Contudo a pressão não se restringe a jornalistas. Ivan Pilip, deputado e ex-ministro da Fazenda da República Tcheca, e Jan Bubenik, que foi líder estudantil em Praga, estão detidos em Cuba desde 12 de janeiro.

Ales Pospisil, porta-voz do Ministério da Relações Exteriores tcheco, anunciou no último domingo que ambos foram presos ?por associação visando provocar uma rebelião? na ilha. Praga e o Conselho Europeu pedem a ?libertação imediata? dos dois, que foram detidos após um encontro com dissidentes cubanos.

O clima de repressão está crescendo na ilha, segundo opositores do regime. Em 16 de janeiro, 70 dissidentes, entre eles Rivero e Elisárdo Sanchez, lançaram um apelo à comunidade internacional para que ela ?ajude a conter a onda de repressão? em Cuba.

Sanchez diz que o embargo dos EUA só faz piorar a situação. ?O modelo totalitário existe há mais de 40 anos, mas a política de sanções econômicas unilaterais dos EUA piora esse quadro, que já é negativo. Assim, o governo afirma que não pode fazer reformas e culpa o embargo de Washington pelas dificuldades que o país atravessa?, disse à Folha."

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