Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

PRIMEIRAS EDIçõES > TIMOR LOROSAE

Música para revitalizar o português

Por lgarcia em 05/02/2003 na edição 210

TIMOR LOROSAE

Rosely Forganes (*)

Jovens de todo o Brasil vão ajudar na reconstrução do Timor Leste, a mais jovem nação do mundo, principalmente difundindo a língua portuguesa, proibida durante os 24 anos da ocupação indonésia. Os jovens brasileiros não vão dar aulas formais de Português, mas uma formação original que mistura musicas de Leandro e Leonardo e Chico Buarque, Zezé de Camargo e Luciano e Vinicius de Moraes, Roberto Carlos e Caetano Veloso, Teixeirinha e Titãs. Aqueles que já são ídolos dos timorenses com artistas que eles não conhecem.

Estudantes de todas as universidades brasileiras poderão participar do projeto, que foi concebido e será implementado pela Universidade de São Paulo. O objetivo é contribuir para o renascimento do português no Timor, escolhido como língua oficial do país.

Num primeiro momento serão selecionados, capacitados e enviados ao Timor 20 estudantes, formando um grupo experimental. Mas espera-se que este seja apenas o primeiro passo de algo muito maior, não só em ajuda efetiva mas também como marco do início de uma mobilização da sociedade brasileira em prol do Timor, explica o embaixador Jadiel Ferreira de Oliveira, representante do Itamarati em São Paulo. Ele era embaixador do Brasil na Indonésia desde 1995, representando o país durante toda a crise e a guerra no Timor, posto que deixou apenas em setembro, quando voltou ao Brasil. Jadiel de Oliveira visitou o hoje presidente Xanana Gusmão várias vezes na prisão e esteve no Timor durante a ocupação militar Indonésia e depois da independência, oficializada em 20 de maio de 2002.

A iniciativa conta com o apoio do Ministério das Relações Exteriores, mas a criadora e responsável pelo projeto, a professora Magda Maria Sales Carneiro Sampaio, presidente da Comissão de Cooperação Internacional da USP, quer a participação da iniciativa privada num projeto inovador que tem por objetivo dar nova imagem do Brasil no exterior. O projeto pretende inaugurar uma nova fase de solidariedade internacional, mais rápida, ágil, que envolva a sociedade civil por intermédio da universidade. Esses 20 jovens devem ser apenas os primeiros. "A cada seis meses pretendemos mandar uma nova turma, criando um trabalho contínuo e relações permanentes", disse.

Para quebrar barreiras

Esses estudantes brasileiros graduandos ou pós-graduandos poderão contar com alojamento e comida no Timor, mais 200 dólares para despesas pessoais, e serão acompanhados por professores e monitores. Esse estágio no Timor, além da experiência humana que representa, terá peso acadêmico.

O ensino tradicional do português já está sendo feito pelo próprio sistema educacional timorense, com todas as suas dificuldades ? com apoio de Portugal e seu Instituto Camões, e do Brasil, com organizações como o Alfabetização Solidária e o Telecurso da Fundação Roberto Marinho. Cada instituição se dedica a um público específico, como as crianças do ensino fundamental e médio ou adultos analfabetos.

A idéia é auxiliar no processo de revitalização e disseminação da língua portuguesa, em vias de desaparecimento após 24 anos de proibição, entre todas as idades e os grupos sociais, recorrendo ao que o Brasil tem de melhor aos olhos dos timorenses ? e de certa maneira do resto do mundo ? nossa música. Esse foi um dos poucos traços da cultura de língua portuguesa que nem a repressão indonésia conseguiu sufocar. Roberto Carlos, Leandro e Leonardo, Zezé de Camargo e Luciano conseguiram atravessar as fronteiras e atingir em cheio os corações e mentes dos timorenses.

A música mais conhecida e tocada no Timor, entre todas, é Pense em mim, de Leandro e Leonardo. "" Logo que cheguei pedi aos alunos da escola para cantar uma música timorense. E eles, sem pestanejar, cantaram: "Chora por mim, liga pra mim", em coro, conta rindo Simone, missionária evangélica brasileira que dirige uma escola no bairro de Komoro em Dili, capital do Timor Leste. "O problema é que muitos cantam como muitos brasileiros cantarolam em inglês, tentando imitar os sons, foneticamente, sem entender muito. Temos especialistas capazes de transformar essa paixão pela música brasileira num verdadeiro programa de ensino", garante o professor Benjamin Abdala Jr., vice- presidente do CCINT. Não será um curso de Português no sentido tradicional do termo, afirma o professor, mas de Comunicação e Expressão em Língua Portuguesa. Além da música, a dança e as artes cênicas farão parte dos recursos utilizados. É a cultura brasileira num sentido mais amplo que os timorenses vão poder descobrir com esse projeto.

Muitos timorenses têm, inclusive, um razoável conhecimento passivo do português. A mais falada das 30 línguas nacionais, o tétum, incorporou cerca de 30% do vocabulário português, além de estruturas da nossa língua ao longo de quase 500 anos de convivência pacífica, segundo os lingüistas. Mas os timorenses são tímidos e têm muito medo de cometer erros, preferindo não se comunicar a falar de maneira errada. Músicas de que eles gostam e que lhes são familiares, e que provavelmente muitos sempre quiseram aprender a cantar, podem ser o meio mais fácil, agradável e eficaz de quebrar essa barreira.

Ensino aberto e informal

Além disso, a prática compulsória da língua indonésia levou os timorenses a perder a capacidade de pronunciar certos fonemas, com os quais não tinham problemas antes. Os indonésios roubaram até o nome dessas crianças, indigna-se o padre João Filgueiras. Como é o seu nome? Djiaum Brandau (João Brandão), eles respondem. Não sabem mais pronunciar o jota ou o ão. "Cantando, as peculiaridades fonéticas são assimiladas muito mais facilmente." O padre Filgueiras é um dos três jesuítas portugueses que permaneceram no Timor durante toda a ocupação, apesar das perseguições do regime indonésio. Mesmo nos anos mais terríveis, ele foi o grande bastião da língua portuguesa no Timor, ensinando clandestinamente o idioma proibido.

Essa forma de ensino servirá também para difundir a cultura brasileira no Timor, da qual esse povo foi bruscamente cortado com a invasão da Indonésia em 1975. Durante o período português, os artistas brasileiros eram extremamente populares no país, de Nelson Rodrigues a Wanderléia. Os bailes de Dili se davam ao som de música da Jovem Guarda, e os jovens da época imitavam nossos ídolos. O corte foi tão brusco que durante muitos anos o Timor ficou totalmente isolado do mundo, a ponto de o Timor ser talvez o único lugar do mundo onde o cantor Teixeirinha ainda é ídolo. Mais tarde, no fim dos anos 80, início dos 90, com uma relativa abertura, cantores populares, como Leandro e Leonardo, conseguiram atravessar a barreira.

A formação será aberta a todos os interessados, tenham 7 ou 77 anos, inscritos na escola ou não. Basta querer aprender. Mas o principal alvo são as faixas de 13 a 35 anos, aqueles que menos contato tiveram com o português. A escola timorense retomou o ensino em português no ano 2000, começando pelo primeiro ano da escola primária, primeiro e segundo no ano seguinte e assim por diante. Os mais velhos ainda falam português, mesmo que com as dificuldades não tenham podido praticar nem se atualizar.

O grupo que apresenta maiores dificuldades ? e até uma notada resistência, quando não uma certa hostilidade ? com relação ao português é exatamente o dos jovens. Tendo sido escolarizados em indonésio, eles temem se tornarem cidadãos de segunda categoria, sem acesso a empregos e oportunidades por não conhecer a língua oficial do país. Mas são eles justamente os maiores fãs de Leandro e Leonardo e de outros artistas populares brasileiros. Outra vantagem é que esse tipo de ensino, aberto e informal, permite progressos mesmo aos que não podem acompanhar todas as aulas, por razões de trabalho ou familiares.

Parte da identidade

O Timor Leste, a mais jovem nação do mundo, adotou o português como língua oficial, juntamente com o tétum, a principal língua local. No total, a antiga colônia portuguesa tem cerca de 30 línguas e dialetos. Essa opção pelo mundo da língua portuguesa foi concretizada no dia 31 de julho de 2.002, em Brasília, quando o Timor, até então com o estatuto de observador, entrou oficialmente para a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), na IV Cúpula da entidade.

Durante 24 anos o português foi proibido no Timor. Segundo os timorenses, muitos foram assassinados pelos indonésios pelo simples fato de serem professores de Português. Mas todas as lideranças do Timor sempre se manifestaram a favor do português como língua oficial, porque profundamente ligada à identidade nacional.

Mesmo com a saída dos indonésios, em outubro de 1999, as pressões contra o português não acabaram, embora tenham mudado de tipo e natureza. A Austrália, potência regional, pesou para que fosse privilegiado o inglês. Outros preferiam o indonésio, uma variação do malaio, a língua mais falada nessa região do mundo.

No Timor existe o que se apelidou de geração Timtim, que nada tem a ver com o herói das histórias em quadrinhos que corre o mundo atrás de aventuras. Vem de Timor Timur, a maneira como os indonésios designavam a parte da ilha que invadiram. A geração Timtim foi criada e escolarizada em indonésio e tem medo de ser transformada em cidadãos de segunda categoria se o português passar a ser língua oficial.

No entanto, outros jovens, mais politizados, defendem ferrenhamente o português. A Ojetil, Organização dos Jovens do Timor Leste, criada em 1985, com Xanana Gusmão entre os fundadores, teve papel central na resistência à invasão indonésia, principalmente nas cidades. Foram eles que organizaram a série de manifestações que culminou com massacre de Santa Cruz, em 1991, que revelou ao mundo o que estava acontecendo sob a ocupação indonésia. Muitos jovens chegam a defender que o indonésio seja a língua oficial, por comodidade, porque é o que eles aprenderam, afirma Eládio Faculto, presidente da entidade. "Nós, da Ojetil, defendemos o português como língua oficial, porque ela faz parte da nossa identidade, pelos laços históricos e políticos que ela representa."

Fator geopolítico

Segundo Eládio, essa foi uma decisão política longamente amadurecida. "Nós não aceitamos que certos jovens defendam a língua do invasor, que nos oprimiu, nos massacrou, como língua oficial do novo país. Eles fazem isso porque não têm coragem de aprender um novo idioma, mas é um absurdo. A juventude deve ter a coragem de aprender, de recomeçar, porque a escolha da língua oficial é uma decisão política fundamental. Eles têm que deixar de ser preguiçosos, inclusive porque não é tão difícil assim, o tétum incorporou milhares de palavras e expressões do português."

Para o líder dos jovens timorenses, além da identidade há outras razões para escolher o português como língua oficial do Timor. "A língua portuguesa é muito importante porque ela é falada em outros países, em vários continentes, é uma língua internacional, uma abertura para o mundo."

A Assembléia Constituinte do Timor Leste, democraticamente, acabou escolhendo o português e o tétum como línguas oficiais. Mas deixou uma brecha que pode esvaziar totalmente essa decisão. Foram aceitas como línguas de trabalho, além das duas oficiais, o inglês e o indonésio, por tempo indeterminado. Na prática, isso significa que qualquer empresa ou instituição que se instale no Timor pode utilizar uma dessas línguas, em vez das oficiais, e exigir que seus funcionários sejam fluentes nelas.

A língua mais utilizada corre o risco de ser a dos maiores investidores. Se o Brasil, que representa sozinho 80% dos falantes de língua portuguesa no mundo, não apoiar o Timor, o inglês, que os australianos fazem tudo para impor, pode acabar vencendo a batalha, apesar dos laços históricos e da escolha democrática feita pelos timorenses.

O problema da língua hoje ultrapassa muito o plano cultural, tendo se transformado num fator geopolítico. O idioma ? e as associações entre países que ele pode criar ? é uma porta para os investimentos. E em casos como o do Timor, os investimentos podem influenciar decisivamente na escolha de fato do idioma.

Programa

A largada do projeto foi dada em 3 de fevereiro, às 14h, no Anfiteatro da Escola Politécnica, Prédio da Administração da Poli., Av. Prof. Luciano Gualberto Travessa 3, n? 380.

Informações e inscrições

CCInt ? Telefone 3091-2248 (Marina ou Rodrigo); e-mail <ccintdiv@edu.usp.br>

(*) Jornalista, autora do livro Queimado queimado, mas agora nosso. Timor, das cinzas à liberdade, Editora Labortexto, Prêmio Vladimir Herzog de Jornalismo e Direitos Humanos pela série Vozes do Timor. E-mail: <rforganes@uol.com.br>

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