Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

PRIMEIRAS EDIçõES > ENSINO DE JORNALISMO

Muita expectativa, poucos resultados

Por lgarcia em 01/01/2003 na edição 205

ENSINO DE JORNALISMO

Victor Gentilli

O ano de 2002 foi anódino para o ensino de Jornalismo. Certamente, o mais calmo, mais tranqüilo e menos turbulento desses anos mais recentes.

Caiu bastante a oferta de novos cursos, basicamente em função da burocracia do MEC. Este ano, com o objetivo expresso de dar mais agilidade e impessoalidade na tramitação dos processos, a Comissão de Especialistas não se reuniu, o MEC informatizou todo o seu sistema de protocolo, o sistema funcionou precariamente e pouquíssimos cursos novos foram autorizados a funcionar. Comparados aos anos anteriores, os números devem ser bem menores.

Como as instituições públicas, em especial as federais, continuaram com muitas dificuldades, quem pôde faturar com tudo isso foram os grandes grupos já constituídos como universidades ou centros universitários. Estes puderam absorver toda a demanda de novos cursos, pois independem do MEC para criar cursos ou ampliar vagas. Unip e Uniban, em São Paulo, Estácio de Sá e UniverCidade, no Rio de Janeiro, foram as fábricas de diploma que ganharam com esta nova realidade.

Justiça seja feita: a Unip não oferece cursos de Jornalismo. As outras áreas de Comunicação é que cresceram. Alunos de Jornalismo, ao que parece, assustam o ousado e destemido João Carlos Di Gênio. Quem tiver uma explicação melhor pode enviar cartas a este Observatório.

Desnecessário dizer que tudo isso esteve absolutamente ausente dos jornais.

Nos cursos de Jornalismo as incompreensões continuam. Muitos coordenadores ainda organizam seus cursos como se a Resolução 002/1984, do finado Conselho Federal de Educação, ainda estivesse em vigor. De um modo geral, entretanto, a grande maioria já trabalha com novos projetos pedagógicos e novas estruturas curriculares, mais flexíveis, baseadas nas novas diretrizes curriculares minimalistas. Se o documento encaminhado ao Conselho Federal de Educação não satisfazia a grande maioria dos professores de Jornalismo, o documento aprovado tornou-se uma referência interessante para as instituições sérias e desejosas de uma renovação no ensino. Para os picaretas, o documento parece ter caído do céu.

Avaliação

Os instrumentos oficiais de avaliação do MEC iniciaram o ano centralizados no Inep. O ano começou com a finalização do instrumento de Avaliação das Condições de Ensino, substituindo o antigo instrumento de Avaliação das Condições de Oferta e também os padrões de qualidade, instrumento produzido pela Comissão de Especialistas que gastou mais tempo em sua elaboração do que o tempo em que permaneceu em vigor como documento-referência para o reconhecimento de cursos. Para as autorizações continuam valendo.

Nos últimos três meses, algumas escolas foram avaliadas pelo novo instrumento. Os esforços da Comissão de Avaliação dos Cursos de Jornalismo para a produção de um instrumento rigoroso infelizmente não resultaram num instrumento exigente. Com boa parte dele comum a todos os cursos e já atendendo ao lobby dos mantenedores privados, ao fim, se não resultou em algo permissivo, também ficou longe de um instrumento compatível com as exigências de um bom curso.

Estado e governo

Mas o MEC cumpriu suas funções de Estado, na maioria dos casos, com políticas de governo. Como entramos 2003 com novo governo, a expectativa geral é de mais uma mudança nas regras do jogo. É certo que tudo isso gera enorme insegurança entre os responsáveis por cursos. Pelas atuais regras, os cursos de Jornalismo enfrentarão novo mutirão, semelhante àquele de 1999, e serão avaliados pelo instrumento até agora oficial de avaliação das condições de ensino.

Se todos estão inseguros, os responsáveis pelos cursos de universidades federais sabem que as dificuldades impostas pelo próprio governo que está por encerrar seu ciclo produziram deficiências de todo tipo. Somente neste ano alguns cursos conseguiram realizar concursos públicos para suprir uma parte pequena da demanda de novos professores.

Quanto aos equipamentos, a coisa é verdadeiramente kafkiana. Uma licitação que o MEC realizou em 1996, com o objetivo de atualizar os equipamentos das universidades federais, até agora não resultou em nada para os cursos públicos. Em junho do ano passado, um grupo de coordenadores de curso tiveram uma audiência com o ministro Paulo Renato Souza, para discutir todas as questões que envolvem os cursos.

O ministro prometeu aos coordenadores que em 30 dias as instituições já estariam recebendo os equipamentos. É certo que veio a greve das universidades federais, mas cerca de 500 dias depois, até agora, ninguém recebeu nada.

Os coordenadores saíram confiantes da audiência. Em maio, quando de mais um seminário do Inep, veio a notícia de que os cursos de Jornalismo seriam beneficiados com um acréscimo de 25% nos equipamentos. Poucos meses depois, os mais atentos viram os hospitais universitários receberem tomógrafos e outros aparelhos de alta tecnologia da mesma licitação. Mas o ano e o governo se encerram com os cursos ainda aguardando os equipamentos. Nem mesmo uma boa atualização tecnológica será possível. Muito do que se pediu em 1996 já não existe mais.

Provão

Por fim, o Provão, que parece ter-se consolidado, não deve mais repetir-se em 2003. O programa de governo do PT pretende realizar outro tipo de avaliação. Uma pena. Até porque, inesperadamente, o boicote dos estudantes surpreendeu pelo recuo proporcional. O boicote vinha crescendo ano a ano, chegando a atingir 21% em 2001. Durante a realização das provas deste ano, a Executiva Nacional dos Estudantes de Comunicação anunciava que o boicote ultrapassaria os 25%. Ficou em 16%.

Ainda é significativo, mas mostra que a cultura da avaliação parece ter pegado de vez nas escolas. Ótimo. Se não teremos Provão poderemos tocar o Avaliação pra Valer! valendo de verdade.

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