Sábado, 20 de Julho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1046
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Muita mentira e pouca terra

Por lgarcia em 16/04/2003 na edição 220

OLHO TREINADO

Paulo José Cunha (*)

Minha avó Mariquinha era uma nordestina sábia, conhecedora dos poderes das rezas fortes e das ervas mágicas, autoritária e ao mesmo tempo respeitosa, com aquele respeito antigo que a fazia tratar o marido de senhor para garantir da parte dele o tratamento de senhora (porque, como pregava a sabedoria da época, é sempre conveniente manter uma certa hierarquia e uma prudente distância, fundamental à longevidade sadia das relações matrimoniais). De sua enorme sabença ficou-me a mania de cobrir os espelhos durante as tempestades e a certeza nas verdades guardadas pelos ditados do povo, sedimentadas pelo tempo, comprovadas pelo uso.

Lembro-me bem dela, à luz das lamparinas, no terreiro da fazenda, balançando o indicador miúdo e repetindo, ante os conflitos políticos e as desavenças familiares da época: "Em tempo de guerra, mentira como terra". Ao ressaltar aos netos a necessidade de se investigar bem cada versão dos acontecimentos, lembrava que cada uma reflete os interesses das partes envolvidas. "Melhor procurar saber dereito, bem dereito, antes de repetir as coisas, porque detrás de tudo enquanto se diz neste mundo tem uma vontade recolhida, e a mentira, de tão repetida, vira verdade verdadeira".

Morta no viço dos seus 90 anos, vovó Mariquinha bem que podia ter vivido mais um bocadinho para poder dar umas aulas aos integrantes da imprensa brasileira e internacional envolvidos na cobertura do ataque ao país das mil e uma noites. Pois se em tempo de guerra mentira é como terra, parece que vai faltar terra e sobrar mentira. Senão, vejamos.

Mentimos descaradamente quando insistimos em chamar de "guerra" a uma "invasão" de objetivos conhecidos e inconfessáveis. Mentimos de novo quando usamos eufemismos como "efeitos colaterais" para nos esquivarmos assepticamente do horror da morte. Igualmente mentimos quando em bom português recusamos falar de mortes e substituímos essa palavra tão bela e trágica por algo técnico e inexato como "baixas" ou "óbitos". Mentimos ainda quando não dizemos ao mundo que as imagens (e algumas reportagens) que exibimos não foram feitas pelo olho neutro do repórter, mas, sim, pelo olho treinado e pelas palavras filtradas dos embeddeds, os correspondentes que viajam pelo deserto vestidos em trajes militares, embarcados nos comboios de tropas norte-americanas, compromissados a não processar o Pentágono aconteça o que acontecer com eles.

Mentimos quando repetimos até virar verdade a falácia dos ataques cirúrgicos, e nos esquecemos de contar os mortos quando os mísseis erram os alvos. Mentimos mais uma vez quando até fazemos essa conta mas nos recusamos a olhar nos olhos das crianças mortas, e corremos de vergonha dos gritos das mães desesperadas, e temos nojo de exibir o vermelho do sangue das vítimas, fundamentais sim, para chocar, para horrorizar a audiência, eis que em alguns casos o horror é procedimento jornalisticamente ético, necessário, obrigatório.

Mentimos deslavadamente quando transformamos a morte em show, a desgraça em fator de elevação do faturamento publicitário, a miséria dos refugiados em tilintar de moedas nas registradoras dos jornais, das rádios, das redes de tevê.

Mentimos vergonhosamente ao mundo quando construímos cenários virtuais de altíssima eficiência para demonstrar, na comodidade do ar-condicionado dos estúdios, os deslocamento das tropas, com explosões que parecem reais, e não colocamos sequer uma cruz nos lugares onde alguém tombou para sempre (como aquelas cruzinhas brancas de beira de estrada, diante das quais alguns passantes param para refletir e orar).

Balançando o dedinho

Mentimos quando não insistimos até a exaustão sobre as causas do conflito e sobre os objetivos escusos ou oportunistas dos que a promovem. Mentimos de novo quando damos dezenas de replays das explosões e não dizemos quantas vidas foram estilhaçadas por elas, embevecidos pela cena hollywoodiana. E mentimos quando nos recusamos a realizar debates e esclarecer o público de nossos telejornais sobre os efeitos do pós-guerra para instituições fundamentais para a segurança do mundo, como a ONU.

Mentimos quando amplificamos a queixa de Donald Rumsfeld de que a TV iraquiana desrespeita a Convenção de Genebra ao exibir as imagens dos soldados norte-americanos aprisionados mas "esquecemos" de lembrar e relembrar que, antes de tudo,essa invasão é ilegal em sua essência, desde sua origem, pois condenada pelo Conselho de Segurança da ONU.

Por fim, mentimos, e mentimos com grande desfaçatez quando fazemos a apologia dos artefatos militares, de sua excelência tecnológica, de sua capacidade de "atingir objetivos" com rara precisão, e não nos referimos ao barulho que deveriam fazer (mas não fazem porque ajudamos a abafar) na consciência adormecida do mundo.

Vovó Mariquinha, esteja onde estiver, deve estar balançando aquele dedinho indicador e comentando, pesarosa, que é mentira demais pra tão pouca terra.

(*) Jornalista, pesquisador, professor da professor da Faculdade de Comunicação da UnB. Este artigo é parte do projeto acadêmico “Telejornalismo em Close”, coluna semanal de análise de mídia distribuída por e-mail. Pedidos para <pjcunha@unb.br>

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