Quarta-feira, 22 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

PRIMEIRAS EDIçõES > MÍDIA, ARTES & ESPETÁCULOS

Muita música e poucos livros

Por lgarcia em 12/02/2003 na edição 211

MÍDIA, ARTES & ESPETÁCULOS

Deonísio da Silva (*)

Na segunda metade do século 19, os americanos cunharam a expressão show business, depois reduzido ainda mais para showbiz apenas, para designar os negócios da indústria da diversão. No século seguinte, o cinema, inventado nos finais do século anterior, constituiu-se no carro-chefe dos espetáculos capazes de render um bom dinheiro e, portanto, certeza de bom investimento. A sétima arte gerou empregos diversificados para muita gente, ocupando-se de câmeras a eletricistas, de carpinteiros a costureiras, de maquiadores, cabeleireiros e manicures a operadores de áudio, montadores e diversas outras profissões que surgiram criando também a própria designação. E até escritores foram contratados! Para roteirizar a própria obra ou para adaptar ao cinema textos alheios. Ninguém, entretanto, alcançava as remunerações milionárias das estrelas, como logo foram denominados os atores e atrizes que puxam um elenco.

A mudança de usos e costumes na sociedade norte-americana e de resto naqueles países cujas economias orbitam ao redor dos EUA foi fulminante. Os santos e vultos históricos que serviam de modelo à mocidade perderam feio para as estrelas do show business. E tudo o que as estrelas usavam ou aprovavam, vendia bem. Fosse vestido, colar, anel, penteado ou mania de trocar de maridos. O divórcio substituiu o casamento estável, a virgindade foi para as cucuias e uma declaração de Elisabeth Taylor valia mais do que a última encíclica. A família e a escola tiveram que aprender a lidar com o novo professor, o cinema, que chegava ensinando coisas diferentes.

Grande espelho

No Brasil, o cinema não pegou. Teve surtos de ascensão, mas não pegou. Nos últimos anos da era FHC, ameaçou pegar. Vamos ver se pega. Não desconhecemos os estragos que fazem nas artes os regimes discricionários, especialmente em países como o nosso, onde as instituições balançam a um simples sinal de tempestade. Afinal, o século que seria do cinema, foi da televisão. No século passado, o Brasil foi governado por ditadores ou seus prepostos durante mais ou menos 40 anos, numa conta modesta.

A música, porém, pegou de verdade. É verdade que havia políticos, jornalistas e escritores entre os grandes inimigos do regime pós-64. Mas poucos deles eram tão temidos quanto Chico Buarque ou Geraldo Vandré.

É preciso rastrear em que momento preciso se dá a mudança. Por enquanto, estudos preliminares apontam a década de 1990 para indicar a época em que a arte esqueceu-se da mensagem, do dito conteúdo social e passou a eleger como prioridade ganhar dinheiro. Na literatura, são casos emblemáticos as listas dos mais vendidos publicadas na imprensa e o caso Paulo Coelho, em que o desempenho nas vendas e não nas artes do ofício passou a reinar como indicador absoluto. Os editores encarregados dos temas ? livro, artes, espetáculos ? não raro alimentaram o círculo vicioso. Pautaram o que estava vendendo e fizeram vender o que estavam pautando. O resto foi apagado, como se, no caso do mercado editorial, por exemplo, 1.200 editoras pudessem ter sua produção editorial reduzida a duas dezenas de títulos, divididos ? notemos o insólito critério ? entre ficção e não-ficção.

Na música, entretanto, houve outras maneiras de romper o círculo vicioso que tanto vitimou a literatura, o cinema, o teatro. Com efeito, a imprensa continua a ser o grande espelho de nossas produções literárias e artísticas. Se um livro, peça de teatro e filme não são noticiados, eles não existem. Daí ser esta uma das razões da alta taxa de mortalidade infantil entre livros e espetáculos.

Pelo ouvido

A revista Forbes Brasil (edição com data de 31/1/2003) ocupou-se do caso da música em matéria de capa, com Ivete Sangalo. A chamada é "Show do bilhão". E em letras menores: "O mercado de espetáculos cresce e produz fenômenos como Ivete Sangalo, que, com seu talento, gera 70 mil empregos diretos e indiretos". Dentro, em foto de página inteira, ela aparece com microfone na mão sorrindo e dizendo: "Quando vou sair de férias, quase desisto pensando em todos que terão de parar de trabalhar também".

Ivete é uma dessas novas estrelas do novo carro-chefe das artes no Brasil, a música. Mas qual música? Deixemos que críticos especializados opinem sobre o que abriga a grande barraca da Música Popular Brasileira, ultimamente em domínio conexo e habitação compartilhada com a sertaneja.

O showbiz movimenta no Brasil 1,2 bilhão de reais por ano. Na América Latina, são investidos 6 bilhões de dólares por ano em espetáculos, onde trabalham 500 mil pessoas. No Brasil, o público estimado do showbiz é composto de 42 milhões de pessoas. A maior empresa do ramo é a mexicana CIE, que controla a ATL Hall, no Rio, e Credicard Hall, Direct TV Music Hall e Teatro Abril, em São Paulo.

A matéria, assinada por Silvana Assumpção, com a parceria de Christopher Langner, traz boxes muito interessantes e pertinentes. Um deles, intitulado "Razão e sensibilidade", comenta o desempenho do Teatro Rival BR, na Cinelândia, conduzido pela atriz Ângela Leal. A casa foi fundada por Oduvaldo Viana, há 69 anos, e depois adquirida por Américo Leal, pai de Ângela. Herdeira e principal responsável desde 1998, a atriz diz que a casa fatura 1,2 milhão de reais por ano. São quatro ou seis sessões por semana, sempre às 20h30. A lotação é de 500 pessoas. Está quase sempre lotado. Ali já se apresentaram, entre outros, Cauby Peixoto, Hermeto Pascoal, Nana Caymi e Elza Soares. A atriz recebeu sugestão de aumentar o espaço rumo ao Cine Rex, especializado em outro show, o filme pornô.

Quando o analfabetismo estiver bem reduzido e o Fome Zero não for mais necessário, os brasileiros deixarão de usar apenas o ouvido, e assim mesmo numa só tomada, porque outras músicas vivem à míngua de tudo, sobretudo de recursos e receitas, e se integrarão à Galáxia Gutenberg. Por enquanto, o showbiz está pegando o povo apenas pelo ouvido. O resto está muito distante ou nem aparece diante dos olhos desse público descomunal.

(*) Escritor, doutor em Letras pela USP, escreve
semanalmente neste espaço; seus livros mais recentes são
A Vida íntima das palavras, A melhor amiga do lobo e
Os segredos do baú

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[sobre matéria
da The Economist]

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