Terça-feira, 26 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº959

PRIMEIRAS EDIçõES > latente

Muito barulho para informação pouca

Por lgarcia em 01/01/2003 na edição 205

PESQUISAS ELEITORAIS

Antonio Fernando Beraldo (*)

Na reta final das primeiras eleições presidenciais do século, as paixões estão à solta na mídia, com direito a tudo quanto é tipo de exercício de futurologia imediata, tendo por base o alastramento da pesquisite (que está de velas pandas) e o perigoso deleite das correlações estatísticas.

As paixões são para todos os gostos, que se fartam desde antes da bolha precoce da implodida candidatura de Roseana Sarney. Os principais jornais abriram cadernos especiais e os números das pesquisas dão até manchete de primeira página.

Agora estamos diante da sólida possibilidade de Lula faturar esta ainda no primeiro turno e as folhas se assanham, antevendo as estratégias dos adversários para evitar esta ruína (para eles). Qual será a próxima impropriedade a brotar da incontida verve do candidato Ciro Gomes, o melhor cabo eleitoral dos demais concorrentes? Prometerá José Serra um salário mínimo de 400 reais, com direito a férias de 90 dias por ano na Argentina? Anthony Garotinho vai mesmo prometer casa própria a 1 real? Lula provocará um estranhamento diplomático? Êta semaninha quente, sô. Isso sem contar o dólar, alçando vôo rumo a outras galáxias especulativas, sobre as cabeças atônitas e indefesas de Pedro Malan e Armínio Fraga. E tem mais um "papagaio" parrudo pairando na boca do caixa nesta semana…

Última moda

Além da retrocitada pesquisite, como em toda eleição volta à baila o assunto da isenção da imprensa ? ou, pelo menos, da distribuição equânime dos espaços. Inventaram até índices, ou taxas, de notícias "positivas", "negativas" ou "neutras" para vigiar eventuais deslizes da mídia impressa e apontar as "parcialidades" entranhadas nos textos e nas ilustrações. Sinceramente, acho isto tudo uma bobagem.

Numa das primeiras aulas de qualquer curso de Estatística, o aluno é apresentado ao conceito de variáveis. Variável, grosso modo, é a medida de um fenômeno; por exemplo, a temperatura em uma sala, ou o estado civil de uma pessoa, ou a intenção de voto em um candidato.

Existem, para simplificar, dois tipos principais de variáveis: as quantitativas ? aquelas que são expressas por números (caso do percentual da intenção de voto), e as qualitativas, que necessitam de palavras para descrever um fenômeno qualquer (caso da opinião sobre o nosso presidente).

Tentamos ensinar o aluno a distinguir o fenômeno da sua medida. Por exemplo, uma coisa é o calor, ou o frio; outra coisa é o valor da temperatura, que é expressa numa escala arbitrária, e blablablá. Variáveis quantitativas são mais fáceis de trabalhar, enquanto as qualitativas são escorregadias, e carregadas de altas doses de subjetividade, e dependem de um monte de fatores exógenos e endógenos (desculpem, senhoras). O que é "bom" para mim pode ser "regular" para o senhor ou a senhora. E também ninguém pode dizer que gosta três vezes e meia mais de feijoada do que de pizza de mussarela. Isso já foi dito e redito neste Observatório, muitas outras vezes, e não vamos nos alongar. A novidade de hoje é a consideração que temos de fazer sobre o que se chama de variável latente, a última moda nas pesquisas no campo social.

"Tudo depende"

Imagine que você queira medir uma coisa chamada "inteligência". O pesquisador primeiro tem que definir o que ele considera "inteligência" ? que é algo tão complicado quanto adivinhar o que está pensando o governador Itamar Franco, hoje. Digamos que, para este pesquisador, o mundo se divide em dois tipos de pessoas, conforme sua "inteligência": os que conseguem resolver "de cabeça" a raiz quadrada de 324,762103 e os que entram em catatonia só de ouvir falar nisso.

Daí que o nosso prezado pesquisador não está medindo, realmente, uma coisa indefinida chamada "inteligência", mas aquilo que ele convencionou (esta é a palavra) ser "inteligência". Inteligência é uma variável latente, assim como são os nossos sentimentos e paixões, nossas idiossincrasias, nossos preconceitos etc. e coisa e tal.

Back to the cold cow: os distintos que se preocupam com a tal isenção do jornais, medidas em porcentagem de cm2, estão tentando medir a variável latente "imparcialidade", cujos critérios de medição já são, por si próprios, a subjetividade in natura. Se alguém queda-se encantado pelo "Lulinha paz e amor", a simples menção do fato que algum dia ele falou "menas coisas" ou tropeçou nos efes e erres é um insulto covarde e despropositado. Para um seguidor de Anthony Garotinho, qualquer charge mais engraçadinha é um abuso, coisa de baixo nível, onde é que nós vamos parar… Tudo "depende", como se diz.

Costura de farrapos

Já que os cidadãos que se encarregam deste mister devem dispor de tempo, vou meter a colher de pau no que não é da minha conta, e dar um palpite. Por que não pesquisar a variável latente "malícia do leitor"? Os colegas estão tentando medir a imparcialidade dos jornais, que são os emissores das notícias.

Que tal saber mais sobre os leitores, que são os receptores das informações. Sei que já tem muita gente boa se dedicando a pesquisas qualitativas, procurando desvendar a cabeça (e o coração) dos leitores, mas que tal ver se os prezados leitores conseguem sacar o subliminar, a maldade implícita nas palavras, a imensidão do detalhe (onde moram Deus e o Diabo)? Investigar se os leitores sabem "cruzar" as informações vindas das páginas da Economia & Finanças, com as da Política e da Internacional? Uma informação nunca está sozinha, nada é estanque, tudo "tem a ver com". Será que os leitores percebem isso?

A complexidade do mundo atual (já li esta frase antes) é de tal monta que o pobre cidadão é obrigado a entender de tudo, de astrofísica a química das megamoléculas, para não se afogar neste maremoto de informações.

Outro dia a CNBB apareceu com quase dez milhões de assinaturas num manifesto contra a Alca, tachada de coisa do demo. O sujeito se inteirava, por meio de um panfleto, do que será a Alca a arrebentar (mais?) com o nosso sofrido país. Tem muita gente que assinou até contra continuar a negociar com os americanos ? o rompimento puro e simples com nossos irmãos do norte. Aposto que muita gente que assinou este manifesto vai votar, por exemplo, no Aécio Neves em Minas, no Geraldo Alckmim em São Paulo, e em outros ilustres tucanos por este Brasil afora. E vai votar em senadores e deputados que, se deixarmos, irão fazer o contrário de sua (deles) vontade.

Vivemos de tentar saber as coisas costurando farrapos de informações, sem perceber, na maior parte do tempo, a ligação entre os blocos de notícias. Uma triste revelação é o artigo de Belisa Ribeiro, à página A2 do Jornal do Brasil (segunda, 30/9), imperdível. Por favor, procure ler, e entender melhor o que estou dizendo [veja reprodução do artigo na rubrica Entre Aspas, desta edição].

PS 1 ? Uma dica para quem tem tempo e quer se divertir: os artigos do Rui Barbosa no Diário de Notícias, às vésperas da proclamação da República. A Águia de Haia escrevia para meia dúzia de letrados na Corte, com tal estilo e tal capricho (e nenhuma isenção) que mesmo quem não entendia patavina ficava impressionado.

PS 2 ? Por que será que quase todos os institutos divulgam os porcentuais de intenção sem decimais? Meio por cento significa quase 580 mil votos. Dá para eleger mais de dois senadores por Roraima e uns tantos deputados em qualquer estado.

(*) Engenheiro, professor de Estatística da Universidade Federal de Juiz de Fora

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