Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

PRIMEIRAS EDIçõES > Essas correções não acontecem por acaso – alguém fez uma perversidade, alguém estrilou e alguém fez o jornal mudar.

Na aparência, tudo sob controle; no fundo, tudo na mesma

Por lgarcia em 01/01/2003 na edição 205

OBSERVATÓRIO ELEITORAL

Alberto Dines

É consensual: a cobertura eleitoral parece mais equilibrada. Os veículos esforçam-se para não mostrar opções ostensivas. Às vezes conseguem. Mas a verdade é que o sistema tende a sofisticar-se. As marotagens ficam mais sutis.

A esta altura da temporada um veículo pode dispensar-se de apoiar um candidato mas forçar a mão no noticiário negativo de outro. Pode pretender um apartidarismo e, ao mesmo tempo, ser extremamente partidário. Basta atenuar a vigilância sobre a instância administrada pelo partido do seu coração. Ou o contrário: ser mais severo com governantes de partidos que lhe são antipáticos sem necessariamente exibir suas escolhas.

Pode valorizar as "abobrinhas" favoráveis da campanha de sua predileção e as miudezas desfavoráveis do adversário. Ao incluir os familiares dos candidatos como peças políticas promocionais pode-se perfeitamente jogar confetes sem parecer que se está jogando confete. Um candidato fotografado sempre com um sorriso no rosto e outro sempre carrancudo, um beijo na namorada ou uma vice estatelada no chão são truques que escapam ao leitor médio e contêm enorme carga de indução eleitoral.

Invenções estatísticas ? como o rastreamento pelo telefone fixo inventado pela Folha de S.Paulo ? podem ser engolidas como sondagem legal mas são aberrações sob o ponto de vista técnico e, portanto, jornalístico.

Aspas e vírgulas podem incitar mais do que palavras. Orações intercaladas podem valer mais do que a principal. O sentido oculto pode ser mais poderoso do que o sentido patente. Nas 50 páginas de noticiário de uma edição existem, pelo menos, 500 opções para armações clandestinas, favoráveis ou desfavoráveis.

Exemplo de como um inocente acréscimo pode comprometer o sentido de uma matéria ofereceu a Folha com a manchete na sua edição de domingo ("FHC dá TVs educativas a políticos", 25/8/02). O assunto é grave, a repórter é respeitada e as distorções na rede de televisão educativa são evidentes, sobretudo porque a maioria delas nada tem de educativa.

Na matéria, o ex-ministro das Comunicações Pimenta da Veiga é acusado de ter distribuído a políticos 23 das 100 concessões de canais educativos nos últimos três anos. A malícia está em identificar o ex-ministro na chamada da primeira página e diversas vezes na página interna como "coordenador da campanha de José Serra", com evidente intuito eleitoral. A campanha começou há menos de um ano e nos dois anteriores Pimenta da Veiga estava mais preocupado com o seu próprio futuro político.

Indício de que o jornalão errou no domingo está na edição do dia seguinte: voltou a tratar do assunto com destaque na página interna (26/8/02, pág A6), mas, desta vez, o nome do ex-ministro aparece sem qualquer conotação ou referência eleitoral. Essas correções não acontecem por acaso ? alguém fez uma perversidade, alguém estrilou e alguém fez o jornal mudar.

No mesmo domingo, o ouvidor da Folha (25/8, pág.
A6), devidamente autorizado, publica um memorando interno do diretor
de Redação do jornal dirigido aos colunistas e advertindo-os
para eventuais "desvios proselitistas".

Duplos parabéns, pela iniciativa e pela divulgação. Mas não é com os colunistas que o jornal deve se preocupar. Mesmo que opinem a respeito de candidatos ou partidos o farão de forma inequívoca. O leitor gosta de opiniões quando identificadas. Não gosta de armadilhas escondidas e camufladas.

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