Segunda-feira, 20 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

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Na briga Lula vs. Folha todos ganharam

Por lgarcia em 01/01/2003 na edição 205

ALMOÇO INDIGESTO

Alberto Dines

O bom dos confrontos é o esforço dos confrontados em corrigir-se para mostrar que tinham razão. Quando públicos, os embates irradiam-se aos circunstantes passando a funcionar como elemento didático.

Do agitado almoço do Conselho Editorial da Folha de S.Paulo com o candidato Luiz Inácio Lula da Silva, ocorrido na sexta-feira (19/7) e que tanto repercutiu na imprensa [veja a rubrica Entre Aspas, nesta edição], podem ser tiradas as seguintes avaliações:

** São positivos os encontros entre candidatos e jornalistas responsáveis, desde que não sejam secretos. O teor do que se conversou pode ser mantido em off (se assim acordado) mas a reunião não pode ser escondida ? sob pena de tornar-se suspeita.

** O agendamento do encontro pressupõe uma disposição das partes em respeitar-se. De um jornal engajado numa determinada opção será difícil esperar-se recepção acrítica, distanciada (nada a ver com cortesia ou urbanidade). Por outro lado, não se pode imaginar que um candidato desperdice esta oportunidade de queixar-se, lamentar-se ou mesmo espernear, sobretudo quando a campanha está esquentada. É do jogo: candidato quer adesão total à sua postulação. Se assim não for, será um mau candidato, ou com meia-bomba.

** Do exposto conclui-se que o almoço (ou série de almoços) da Folha foi programado em má hora. Jornal deste porte ? e com esta vocação para o protagonismo ? já deveria ter sabatinado os candidatos há mais tempo e não agora, quase na reta final, quando os ânimos começam a se acirrar. Isto teria evitado o oportunismo e alguma irresponsabilidade dos projetos partidários. A esta altura todos prometem tudo e o exercício do jornalismo torna-se supérfluo.

** Já um candidato à presidência da República ? qualquer que seja a colocação nas sondagens ou frustração com os resultados ? deve estar preparado para responder a qualquer pergunta ou provocação de jornalistas. Se os anfitriões, observadas as normas de hospitalidade e respeito, não forem suficientemente cobradores ou provocadores, serão maus jornalistas.

** Esteja na bancada do Jornal Nacional ou na sala de almoços de um grande veículo, o eventual Chefe de Estado deve saber como manter a compostura. Se não souber, mostra que não está preparado para a função. Isto vale tanto para encontros formais como para encontros fortuitos num evento da campanha.

** Na sua postura imperial, a Folha não esperava que o bate-boca vazasse. E, a partir do momento que um incidente intramuros começou a circular na internet (o que aconteceu menos de 24 horas depois), o jornal deveria ter assumido uma postura mais transparente e espontânea noticiando-o em suas páginas. Com o destaque que achasse conveniente. Escamoteá-lo, como de fato aconteceu, foi prova de, no mínimo, “insuficiência imperial”.

** O Globo agiu certo ao noticiar o episódio dispondo de declarações das partes. A Folha agiu errado quando secundarizou-se e permitiu a antecipação do concorrente. Passou a impressão de consciência culpada.

** O efeito da divulgação do bate-boca foi útil, instrutivo. E reparador porque corrigirá distorções na cobertura eleitoral da mídia impressa, diária ou semanal. Prova disso é que já no domingo seguinte (28/7), a Folha comportava-se com mais equilíbrio, sobretudo na primeira página, abandonando um certo “espírito mitingueiro” e evitando que as acusações de campanha dos diversos candidatos contaminassem o noticiário e a edição daquele dia.

** A decorrência mais curiosa do entrevero é que os jornais acusados de “chapa-branca” (Globo e Estado de S.Paulo) mostram-se algo mais ponderados no noticiário do que a Folha e sua apregoada neutralidade.

** Na segunda sabatina eleitoral (domingo, 28/7), o Jornal do Brasil foi ainda pior do que na estréia. Deixou de lado a aparência de “debate” com eleitores e assumiu o seu caráter de rodízio propagandístico. Nada demais se a atração não tivesse o alto patrocínio do principal acionista da Telemar, financiador da campanha de um dos candidatos.

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