Domingo, 19 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

PRIMEIRAS EDIçõES > PAUTA DESAPROPRIADA – II

Na Folha também

Por lgarcia em 04/12/2002 na edição 201

PAUTA DESAPROPRIADA ? II

Natalia Viana (*)

O texto de Arnaldo Carmona não poderia vir em momento mais apropriado. Pois não é que, apenas alguns minutos antes de lê-lo, passei pelo mesmíssimo desgosto ao abrir o jornal Folha de S.Paulo e ver, já devidamente transformada em matéria de destaque, com duas páginas do caderno Sinapse, a minha pauta?

Sou ainda foca, formada no ano passado pela PUC-SP e, portanto, não tenho renome ou qualquer outro dispositivo para fazer prevalecer as minhas palavras sobre as dos editores do Sinapse. Mas o que ocorreu foi, sim ? afirmo sem temer qualquer sobressalto no meu sono hoje à noite ? um roubo de pauta dos mais descarados.

Explico a novela: no dia 28 de outubro liguei para a redação do Sinapse e falei com Izabela Moi, editora-assistente do caderno, propondo uma matéria sobre o brincar. Contei-lhe que a 15? Conferência Mundial da IPA (International Association for the Child?s Right to Play) ocorreria de 4 a 8 de novembro no Memorial da América Latina, e esta seria uma boa oportunidade de entrevistar especialistas internacionais que viriam para o evento. Não só ela não sabia da conferência como ficou muito feliz com a informação, dizendo que "nem que seja para apenas notificar no site, esse evento é muito interessante para nós". Pediu que eu mandasse mais detalhes.

Ingênua como meu caro colega Arnaldo, no dia seguinte enviei o programa detalhado do congresso, acompanhado de algumas propostas de pauta ? entre elas, uma focada especificamente no desenvolvimento da criança através do brincar. Alguns dias depois recebi um e-mail da Izabela dizendo que esta pauta lhes interessava e que ela falaria com o editor para depois entrar em contato. Passaram-se dias e nada. Como paciência não é o meu forte, liguei de novo para a Izabela, que me disse ter certo receio de usar frilas desconhecidos. Pediu que eu mandasse alguns textos meus, que seriam avaliados pelo editor. Mandei.

Crença na ética

No dia 1? de novembro, a apenas um fim de semana da conferência, mandei outro e-mail perguntando se haviam lido meus textos. A resposta foi: "Passei para a Suzana Singer, que é quem toma as decisões de pauta quando o Oscar não está. Acho que ela deve te chamar nas próximas semanas, pra te conhecer". Nem é preciso dizer que nunca me chamaram.

Hoje, Izabela deu a seguinte explicação: "Outro frila nosso propôs a mesma pauta ao mesmo tempo. Foi coincidência." Só que, antes de eu lhe contar por telefone, ela não tinha ouvido falar da conferência. E é muito esquisito o e-mail dizendo para eu aguardar, enviado apenas dois dias antes do repórter cobrir o evento. Com certeza ele já estava pautado e se não me disseram nada foi porque não queriam. O que me leva à conclusão de que estavam "me cozinhando" para que eu não vendesse a matéria a outro veículo.

Sabemos que hoje reina a lei do silêncio, e foi contando com isso que o pessoal da Sinapse fez tão descaradamente a sacanagem que fez. Pois é claro, como uma foquinha como eu pode brigar com esse monstro da comunicação sem correr o risco de ficar marcada? Só que, por mais que esse texto seja absolutamente em vão, não vou ficar quieta esperando uma chance para entrar para a panelinha. Talvez por falta de experiência neste meio dominado por corrupção e hipocrisia, a ingênua aqui ainda acredita em ética.

(*) Jornalista paulistana

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