Domingo, 17 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

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Nada a comemorar

Por lgarcia em 05/10/2000 na edição 99


Mais um aniversário do Brasil em que não temos o que comemorar. Diante da reação das TVs quanto à suposta "censura" do governo e após a leitura do texto de Alberto Dines [remissão abaixo], me sinto mais lúcida mas não menos agoniada. É difícil ter razão, não?

Às vezes é como estar só, como estar ilhado entre as palavras. E o preocupante é que, na maioria das vezes, são elas que nos acordam. É claro que temos coisas até louváveis no vídeo mas, sinceramente, a televisão desligada já é um bonito quadro, não?

Usam essa desculpa de que a censura está voltando para continuarem sem rédeas (rédeas essas elaboradas para guiar melhor e não para fechar os olhos, penso eu). Tem jeito não. E além do mais as rédeas do governo estão frouxas. A comemoração? Bom, a Globo, por exemplo, já está comemorando há muito tempo! Lembra do jingle famoso? "Hoje a festa é sua, hoje a festa é nossa, é de quem quiser…" (Nessa eu não entro nem de penetra). Ô paisinho difícil. Como dizia Tom Jobim: "Realmente o Brasil não é para iniciantes"

Carolina Veiga

O conteúdo da programação das emissoras deveria ser analisado pelo poder concedente usando critérios do interesse público, ou seja, mais educativo e informativo, menos comercial, como é próprio de uma concessão pública. O poder concedente tem o dever e a obrigação de constante reavaliação dos concessionários, das emissoras. Os usos sexual, bizarro e religioso de uma concessão afronta a inteligência de quem é obrigado a assistir apenas às TVs de sinal aberto. Não seria realmente obrigação do governo reavaliar ou controlar seus concessionários? Quem poderia defender esse interesse público? Seria o Ministério Público?

Julio Rodrigues

Aprovo-a totalmente, há anos os brasileiros tentamos exigir das concessionárias o cumprimento de seus deveres morais ante a sociedade, mas elas se omitem, fingem ser donas do nariz (arrogam-se um poder ilegítimo – não aceito, não eleito pelo povo do Brasil, quem sabe pelo povinho que ela exibe como brasileiro lá no exterior, nas campanhas de turismo sexual como o carnaval, as praias nordestinas com mulatas exuberantes como se fossem objetos expostos em prateleiras, sem família, sem bons costumes…)

Obrigado, até que enfim, ministro! Quem sabe algum limite quanto à exposição sádica dos capitalistas da indústria da violência – a TV! – possa melhorar o nível de criminalidade nas ruas. A TV não faz pesquisas sobre sua influência, por que será que tem tanto medo? Campanhas de cigarro, dinheiro, dinheiro, dinheiro, ibope, competição acirrada por mais dinheiro, salários milionários expostos como sendo a razão de viver das pessoas improdutivas como os jogadores de futebol, o mundo do luxo e da luxúria, o mundo das estrelas e seus gigolôs (em grande parte das vezes!). Salvo raras exceções, a TV está a serviço das minorias desajustadas socialmente, que buscam revolucionar por este pseudo-poder extralegalitário.

Do interior de Sampa, com muito orgulho do Brasil, contra os exageros da maléfica TV dos vícios e lesa-virtudes.

Orlando Galdi

Acho que é necessário classificar a programação da TV por faixa etária e horário, porque hoje a televisão brasileira está despida de valores. Tenho 25 anos e cheguei a pegar uma programação menos apelativa. Não é conservadorismo, mas acho que, se a forma como alguns programas são apresentados não for reavaliada, a tendência é termos um cardápio cada vez mais indigesto em nossa TV.

Joselani Soares, jornalista, Jacareí, SP

E por que, em vez de brincarem de censores, o ministério não usa a bancada governista para fazer andar o projeto de regulamentação do uso do VChip, que está enterrado no Congresso pelas bancadas carolas? Dessa maneira o Estado não estará usurpando o direito dos pais de cretinizarem seus próprios filhos, selecionando o que possam ver/aprender/pensar…

Alexandre Barros

Entendo que a censura deveria voltar, penso que o governo soltou muito as rédeas e agora está tentando controlar o incontrolável. As emissoras só estão preocupadas com os pontos do ibope e com seus lucros. Sinto que todos pensamos a mesma coisa e só agora apenas poucos despertaram para essa dura realidade da televisão brasileira. Faustão e Gugu, em meu ponto de vista, são os precursores da baixaria televisiva e um marco da falta de criatividade e da apelação, nos tornando vítimas de tanta grosseria.

Sandro Santos

Sou favorável à classificação por faixa etária como um recurso extremo e incipiente. Na verdade, a TV é uma concessão pública e deveria ser regida pela vontade, ou melhor, pela cultura e o bom senso. O caso está sendo colocado como se fosse um problema dos telespectadores o fato de os dirigentes serem insensatos.

Vicente Melo

Acho necessária a classificação da programação da TV por faixa etária, pois atualmente a programação é muito apelativa e utiliza dos recursos mais baixos e incentiva a violência.

Marilda L. Moraes

Acredito que ficaremos nessa discussão interminável enquanto os debatedores não levarem em consideração alguns aspectos:

1. Antes de perguntarem "o que fazer", perguntem "por que fazer". Por exemplo, a necessidade do combate às drogas é baseada em informações científicas e dados sociais que possibilitam avaliar e justificar uma repressão. Mas o bumbum da Feiticeira causa um malefício ainda não quantificado e divulgado de forma clara, o que torna difícil formar opiniões a respeito.

2. Mais uma vez a sociedade está sendo engabelada pelo governo, pois ele, com o pretexto de melhorar a qualidade da TV, visa na verdade criar instrumentos de repressão àqueles que o expõem. Consequentemente, os bumbuns e a cama no horário nobre vão acabar ficando, e censuradas as críticas à frouxidão do governo com relação à violência e ao abandono da educação.

Douglas Fiorentini

Sou a favor de um certo controle sobre a programação das emissoras. Não acredito na disposição das emissoras de se auto-regulamentarem de maneira séria, visto que há longo tempo se discute a questão da adequação da programação ao horário e nada foi feito por parte das emissoras. Parece-me que os interesses econômicos sempre prevalecem.

Milton Espindola

Venho acompanhando essa polêmica que se instalou recentemente em nosso país, sobre a classificação nos programas de TV, e observo que fala-se muito em cenas de sexo, erotismo, violência, sensualidade, banheiras etc., coisas que realmente não combinam com crianças e pré-adolescentes, mas estão esquecendo do principal: os programas são realmente direcionados a eles? Tenho dois filhos, um com 7 anos, outro com 1, e faço questão de assistir aos programas infantis para saber o que "rola".

1º) Xuxa Park: Programa altamente feminista, no qual a apresentadora enaltece a todo momento e "torce" para os participantes do seus sexo (as meninas, como ela as trata) em todas as brincadeiras, sem exceção, fazendo com que "as meninas" sintam-se superiores "aos meninos", o que não é saudável. No programa há discriminação mais clara e evidente quanto ao sexo no quadro dos bonecos Xuxinha e Guto, pois enquanto a Xuxinha, representando as meninas, aparece toda arrumadinha, bonitinha, pintadinha (demais para representar uma criancinha) e só falando coisas "sensatas e úteis", o "coitado" do Guto, representando os meninos, aparece todo desarrumado, boné de lado, voz de malandro e só falando besteira e asneiras.

2º) TV CRUJ: Ultra-jovens que detestam ser chamados de crianças, "meio loucos", morando sozinhos, sem família, vivendo eternamente em Conselho Revolucionário dos Ultra-Jovens, aconselhando aos nossos filhos o que eles devem ou não devem fazer. Não deve fazer: tomar banho na hora em que estiver passando TV CRUJ.

3º) Band Kids: A maior parte do tempo passa o desenho Dragon Ball, luta do começo ao fim, pouco texto, poucas falas.

Sem tratar no Planeta Xuxa que se fosse bem observado deveria ser direcionado ao público das lésbicas.

Ana Claudia Passos, administradora de empresas

Meu nome é Sandra Regina Santos, de Foz do Iguaçu, PR, sou jornalista e trabalho em TV. Concordo que há abuso em determinados horários, inclusive com a erotização da criança. Mas não devemos nos esquecer que a qualidade do produto depende do consumidor. Acho que isso tem que ser discutido também. Como diz o ditado, "se não há platéia, não há show". Por que esses apelos na TV? Por que tantas cenas de violência ou por que tanta erotização? Se esses programas não tivessem audiência com certeza não haveria programas. Veja o caso de No Limite, ou então das videocassetadas.

Acho que tudo depende da qualidade e da maturidade de caráter do consumidor. Se esses programas existem é porque existe audiência. E a qualidade de caráter e de pensamento não começa na TV (tudo bem, ela até influencia), mas começa principalmente dentro de casa e na escola. E qual a qualidade do convívio familiar ou das escolas hoje?

Acho que a discussão é mais profunda. Uma criança bem criada e educada não se deixa influenciar por qualquer coisa. Quem é que leva a menina de 5 anos vestida de shortinho para imitar a Carla Perez na TV? São os pais. Então acho que a discussão – e o problema – é bem mais embaixo. O mal deve ser cortado pela raiz. A TV que temos hoje é mais o resultado do que a audiência quer do que qualquer outra coisa. Prova disso é que programas excelentes já caíram. Se o público quisesse qualidade a TV Cultura seria líder em audiência, e infelizmente não é o que acontece.

Sandra Regina Santos

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