Terça-feira, 11 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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Naomar de Almeida Filho

Por lgarcia em 31/10/2001 na edição 145

GUERRA & TERROR

"Antraz quer dizer ansiedade atroz", copyright Folha de S. Paulo, 24/10/01

"Como definir o ?espírito do momento? nos Estados Unidos? O horror indignado e sofrido das primeiras semanas foi substituído por outro sentimento generalizado, que me interessa compreender. Estresse, ansiedade, pânico: são algumas das palavras que têm aparecido na mídia americana. Na cobertura da imprensa brasileira, além desses termos, encontrei paranóia, histeria e doença sociogênica.

Estresse constitui uma noção confusa, pouco específica e, na minha opinião, inadequada para o entendimento desse fenômeno de massa. Pátria da competitividade, os Estados Unidos orgulham-se de cultivar e gerenciar estresses crônicos como fator de progresso. Paranóia e histeria referem-se a conceitos da psicopatologia clássica, demasiadamente específicos e valiosos para serem desperdiçados em sua acepção de senso-comum. E, com certeza, não há pânico social. Falta caos para tanto. De fato impressiona o esforço que se faz aqui, nos Estados Unidos, para normalizar a vida. Mesmo a corrida às farmácias (até atravessando fronteiras) e a enorme frequência de falsos alarmes provocados pela presença de pessoas e pós de cores suspeitas têm acontecido de modo organizado, sem pandemônios.

Do ponto de vista epidemiológico, síndrome sociogênica coletiva é o mais interessante desses conceitos. Há diversos relatos de sintomatologia de massa compartilhada por estudantes e grupos profissionais nas principais cidades norte-americanas. Um número ainda não mensurado de pessoas, principalmente jovens e mulheres, tem apresentado um quadro neurológico incapacitante, aparentemente contagioso porém benigno. No que pese o arsenal clínico e laboratorial utilizado, nenhum microorganismo ou causa ambiental tem sido imputado como responsável pelos sintomas. Pode ser interessante examinar o registro histórico de surtos epidêmicos dessa natureza.

No ano de 1918, ocorreu uma epidemia desse tipo na Bahia, cujo principal sintoma era perda de visão e uma fraqueza muscular aguda, provocando quedas súbitas. A ?Gazeta Médica da Bahia?, na época uma das principais publicações científicas do país, relata em detalhe a semiologia da doença, parecida com os casos observados nos EUA. Porém o que impressiona é o grau de semelhança dos respectivos contextos. Em 1918, o Brasil acabara de entrar na Primeira Guerra Mundial. O porto de Salvador pela primeira vez recebia navios de guerra aliados; a cidade estava repleta de soldados e marinheiros; as famílias locais se preparavam para enviar seus filhos para uma guerra distante. Para completar o quadro, uma epidemia de gripe espanhola grassava em todo o país (onde acabaria causando mais de 300 mil mortes) ameaçando principalmente cidades portuárias como Salvador. O povo soteropolitano batizou a sua estranha síndrome sociogênica coletiva de caruara. O episódio deixou uma ?cicatriz linguística?: ainda hoje, no nosso dialeto baiano, caruara quer dizer incômoda fraqueza nas pernas, que ocorre nos momentos mais tensos da vida, principal sintoma de um medo atroz.

Em Cuba, início da década de 90, fim da Guerra Fria (e, apesar disso, manutenção do infame bloqueio diplomático e comercial imposto pelos Estados Unidos), 50 mil pessoas foram acometidas de um quadro neurológico altamente incapacitante, com sintomas agudos de fadiga e perda da acuidade visual. Nenhuma lesão ou microorganismo foi identificado, porém, a maioria dos casos experimentou recuperação em poucos meses. Sem muita comprovação, atribuiu-se a misteriosa neuropatia epidêmica à carência nutricional generalizada dos primeiros meses de racionamento que se seguiram à súbita retirada dos subsídios soviéticos e ao bloqueio total da ilha. Porém há algo mais nessa história. Na época, Cuba experimentava uma severa epidemia de dengue, com numerosos casos da forma hemorrágica e muitas mortes. A despeito de se tratar de um território isolado geográfica e politicamente, a epidemia havia eclodido simultaneamente em pontos distantes da ilha. Epidemiologistas cubanos e outros latino-americanos consideraram esse padrão incompatível com epidemias naturais, lançando-se a suspeita de guerra bacteriológica.

Não obstante as ironias históricas, algo se passa, se reprime e se constrói nos ?corações e mentes? do povo americano. (É de propósito que uso tal expressão, emprestada de um glossário ainda atual na língua nativa, mera evocação da Guerra do Vietnã.) Creio que uma síndrome sociogênica coletiva está se instalando. As pessoas temem por tudo e por todos, parentes e pessoas queridas, tempos e eventos, lugares que deixaram de frequentar, hábitos perdidos ou suprimidos. Evidentemente, há uma base factual para tal sentimento, desencadeada pelos atos terroristas de setembro e pela contaminação do antraz, reforçada por uma profunda penetração midiática no cotidiano de todos. Percebo um medo geral, denso e difuso, crônico e contagioso. Um imenso medo contido. Porém um imperativo cívico responde à pátria ameaçada, resguardando laços sociais e reprimindo, ao máximo, o sentimento de pânico. Foi assim na Bahia em 1918 e em Cuba em 1992-1993. É curioso que, como pano de fundo das três situações, ocorrem epidemias de agentes biológicos.

Como todos, procuro respostas, fico ainda mais atento. Novamente é a televisão, esse excepcional veículo de acesso a um imaginário fragmentado, que me serve de oráculo: uma emissora intitula um bloco do seu noticiário como ?Anthrax Anxiety?. Traduzindo para o nosso idioma -Ansiedade antraz. Encontro nesse jogo de palavras um nome para o sentimento que percebo: os americanos padecem de ansiedade atroz. Ou, em bom baianês, caruara. (Naomar de Almeida Filho, 49, é Ph.D. em Epidemiologia, professor da Universidade Federal da Bahia e ensina na Harvard School of Public Health)"

 

"Salaam Cinema", copyright Folha de S. Paulo, 28/10/01

"A notícia apareceu no jornal inglês ?Independent?. Parecia uma farsa, mas não era. Roteiristas e diretores de cinema de Hollywood vêm sendo chamados pelo Exército norte-americano para imaginar quais poderão ser os próximos alvos de ataques terroristas.

Entre os primeiros convocados, incluíram-se o roteirista de ?Duro de Matar?, Steven de Souza, e o diretor de ?Desaparecido em Ação?, Joseph Zito. Talvez por desinformação, também foi chamado o diretor da comédia ?Grease -0Nos Tempos da Brilhantina?. Pelo menos desta Groucho Marx escapou.

O serviço secreto norte-americano argumenta que esse grupo tem a capacidade de antecipar tramas, projetar cenários e entender as motivações de personagens vivendo em situações-limite.

Não sei se você viu ?Desaparecido em Ação?, mas como diria Nelson Rodrigues, aqueles personagens tinham a profundidade de um pires. Se depender dessa tropa, Osama poderá dormir tranquilo.

Talvez seja possível olhar para a informação publicada pelo ?Independent? de outra forma: é a prova de que, hoje, a fronteira entre realidade e ficção se torna cada vez mais porosa. Não é preciso ir muito longe para perceber isso. No Brasil, os casos do ônibus 174 e do duplo sequestro da família Sílvio Santos são a expressão desse estado de coisas. Por outro lado, já virou lugar-comum afirmar que as imagens do 11 de setembro pareciam as de um filme de ação hollywoodiano. E eram. Como dizia Adorno, ?desejam-se as catástrofes que se imaginam?.

Aceitando-se essa tese, pode-se também chegar à conclusão inversa: desejamos a pluralidade que imaginamos. É o que nos traz o cinema que vai na contramão do filme-catástrofe: o cinema como instrumento de conhecimento do mundo. Essa forma de realização de imagens, quase sempre associada ao cinema independente, está amplamente representada na 25? Mostra de Cinema de São Paulo, organizada por Leon Cakoff e Renata de Almeida.

Sintomaticamente, a mostra deste ano traz vários filmes que projetam o cinema no centro dos debates que vivenciamos. É extraordinário ver que ?O Caminho para Kandahar?, de Moshen Makhmalbaf, pode nos ajudar a entender as características de um país que está no coração do conflito. Até Bush percebeu isso e pediu para ver o filme.

?Kandahar? não está só. Há na Mostra documentários como ?Promessas?, de Justine Shapiro, B.Z. Goldberg e Carlos Bolado, que mergulham na gênese do confronto entre israelenses e palestinos. Mas também é possível olhar para os filmes que vão além do caos imediato em que estamos vivendo e que nem por isso deixam de nos oferecer um reflexo do nosso tempo. É o caso de um filme chinês extraordinário, ?Plataforma?, segundo longa do talentoso diretor Jia Zhang-ke.

?Plataforma? é um filme de geração. Um filme político, no melhor sentido da palavra. Mostra um grupo de amigos durante mais de uma década, de 1979 aos anos 90, numa pequena cidade do interior do país. São anos emblemáticos, em que a China abandona a liturgia maoísta para se abrir ao mercado.

É um processo doloroso. No final dos anos 70, os amigos trabalham em um grupo de teatro que encena peças oficiais. Os anos 80 trazem consigo a invasão da música pop de Taiwan e de Hong-Kong, os cabelos longos, a liberação sexual… e o fim dos subsídios do Estado. Diante dos mecanismos selvagens da nova economia, o grupo de teatro vai implodindo aos poucos. As atrizes se globalizam: transformam-se em go-go girls. Privatizado, o grupo acaba melancolicamente à margem das cidades por onde passa.

Jia Zhang-ke filma esse processo de corrosão de forma bressoniana. A câmera raramente se move. Os personagens estão vivos dentro do quadro e nos surpreendem constantemente. Uma intensa melancolia permeia o filme como um todo, impregnando cada gesto, cada tragada de cigarro. Cada dança é vivida como se fosse a última. É como se Zhang-ke dissesse: ainda nos amamos tanto, malgrado as perdas que ainda nem sabemos como contabilizar.

Perda de referências culturais, avanço da globalização, necessidade de resistência. ?Plataforma? não fala apenas da China contemporânea. Fala, indiretamente, de todos nós. Tão distantes e, no entanto, tão próximos, diria Wim Wenders.

É esse cinema diverso e plural, grávido do desejo de refletir e de re-imaginar o mundo, que aniversaria com a Mostra de São Paulo. Aniversário é feito para ser comemorado: longa vida à Mostra. E Salaam Cinema – Salve o cinema.

Oesp, 26

Executiva da Globo defende capital externo

A diretora-geral da Rede Globo, Marluce Dias da Silva, incluída esta semana entre as 50 mulheres mais importantes do mundo – fora dos Estados Unidos – na lista da revista Fortune, defendeu ontem em São Paulo a entrada do capital estrangeiro nas empresas de comunicação do País.

?É importante ter capital estrangeiro no Brasil?, afirmou Marluce durante sua exposição em um simpósio. ?Mas é importante proteger o conteúdo nacional. Que venham os capitais, mas que não se fechem as portas à proteção do conteúdo nacional.?

Sobre a internacionalização na TV paga e na Internet, ela avalia que o ?efeito ainda é muito pequeno? sobre a identidade e cultura brasileiras.

Marluce entrou na lista daFortune em 37.? lugar – que registra as mulheres em postos de comando. Mas ela não é a única brasileira: Maria Silvia Marques Bastos, da Companhia Siderúrgica Nacional, é a 20.? colocada."

    
    
                     
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