Quarta-feira, 22 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

PRIMEIRAS EDIçõES > COLÔMBIA

Napoleão Sabóia

Por lgarcia em 19/02/2003 na edição 212

A GUERRA / DEBATE

“Um olhar globalizante sobre a 1.? Guerra”, copyright O Estado de S. Paulo, 16/02/03

“?Um evento excepcional.? Foi assim que os conferencistas franceses qualificaram a apresentação, na quarta-feira, em Paris, pela Ecole des Hautes Etudes en Sciences Sociales e pelo Centre de Recherches sur le Brésil Contemporain, ligados à Sorbonne, do livro A Guerra (1914-1918), de Julio Mesquita, lançado recentemente no Brasil.

Perante numerosas personalidades francesas e brasileiras do mundo intelectual, universitário, artístico e diplomático, além de estudantes, a apresentação da obra se fez no quadro de um seminário com o título O Olhar Distante – Uma Visão Brasileira da Grande Guerra.

Abrindo a manifestação, a antropóloga brasilianista francesa Marion Aubrée, da Ecole des Hautes Etudes, declarou-se convencida de que os especialistas europeus iriam se surpreender ante ?a contribuição original? que o Brasil oferecia, com o livro, para a maior compreensão da tragédia de 14-18 sob diferentes aspectos. ?Isto?, ela acentuou, ?sem falar do conteúdo premonitório das crônicas do jornalista brasileiro sobre os conflitos que iriam sacudir o mundo a partir dos anos 30.?

Antes de a palavra ser concedida aos dois principais conferencistas, Pierre Miquel e Gilles Lapouge, o editor de A Guerra e representante do Estado no seminário, Ruy Mesquita Filho, historiou os fatos que informaram a elaboração da obra, concebida a partir do levantamento das crônicas semanais escritas por seu bisavô durante os quatro anos do conflito.

Depois de evocar a figura de Julio Mesquita, de retraçar sua saga de jornalista escrupuloso, exigente na exposição dos fatos e na interpretação destes – no que era respaldado pelo seu profundo conhecimento da história e pela ampla visão geopolítica do mundo -, ele sublinhou o apego à filosofia liberal e humanística que animava o magistério exercido pelo autor na redação do Estado e especificamente nos seus comentários sobre a guerra.

?Pude sentir como esse homem (Julio Mesquita) pensava, pude conhecê-lo e penetrar no seu íntimo?, disse Ruy Mesquita Filho, para finalizar, entre aplausos: ?Começou ali a herança que meu avô recebeu, passou para meu pai e este, para seus filhos. Não acredito em jornal sem alma. Foi por esta razão que resolvi editar A Guerra (em quatro volumes).?

?Pois quero felicitá-lo pela concepção excepcionalmente moderna, de vanguarda, da edição de A Guerra que já constitui por seu conteúdo e sua iconografia uma obra original da literatura sobre 14-18?, disse o professor Pierre Miquel, da Sorbonne, e um dos maiores especialistas europeus da temática, dirigindo-se a Ruy Mesquita Filho ao iniciar sua exposição.

Miquel não escondeu a surpresa diante do método adotado pelo editor para compor os quatro volumes. Cada um destes, cobrindo um período de 11 a 15 meses – e não o calendário convencional de cada ano -, se alinha sobre a técnica de divisão dos eventos a partir de sua importância capital na evolução da guerra. ?Só agora?, ele explicou, ?é que os historiadores europeus estão adotando a mesma divisão do tempo.?

Conforme o mestre francês, o primeiro volume de A Guerra focaliza com justeza o conflito (entre agosto de 1914 e julho de 1915) circunscrito às operações dos francesas e ingleses de um lado e, do outro, às ações dos alemães. Já o segundo volume começa com a extensão da guerra a todos países balcânicos a partir do engajamento efetivo da Itália ao lado das forças aliadas, em julho de 1916. No terceiro volume, assiste-se a uma generalização ainda maior do teatro de guerra com as ofensivas aliadas, levando os alemães a reagir com a estratégia nova que se chamaria depois de ?Espírito de Riga?. Ou seja, o ataque à cidade de Riga, na Lituânia, em que os alemães, pela primeira vez, sincronizaram nesse front as ações da infantaria, artilharia, marinha e aviação.

?A estas alturas, as análises de Julio Mesquita já refletiam as preocupações dos beligerantes com a revolução russa que desestabilizou o front oriental – e nisso o jornalista brasileiro demonstrou uma grande lucidez, sobretudo ao prognosticar que a situação Rússia iria mudar o curso da guerra?, ponderou Miquel.

Ainda segundo a leitura do especialista francês, o quarto volume mostra com ?acuidade exemplar? a mobilização mundial empreendida pelos aliados contra a Alemanha, mobilização confortada pela retirada da Rússia do conflito. ?Os aliados puderam enfim alinhar 40 nações de seu lado e vencer a guerra num cenário que hoje se toma uma espécie de ensaio geral do fim da 2.? Guerra Mundial em 45?, comentou.

Foi igualmente caloroso o elogio feito por Miquel à iconografia contida na obra, pois ela, ?sendo extremamente diversa e completa, retrata todos os fronts espalhados pelo mundo, de acordo com a visão globalizante de Julio Mesquita?. Ao mesmo tempo, o acervo enfeixa as diversas categorias de fotos da guerra, desde as cenas intimistas até as de combates terrestres e aéreos, passando pelos flagrantes de trincheiras, de reconhecimento, etc.

No ?olhar distante, globalizante e moderno? que informa os textos de Julio Mesquita sobre a Grande Guerra, centrou-se, também, a análise do escritor e jornalista Gilles Lapouge, correspondente do Estado em Paris e autor do prefácio da obra.

?Com esse olhar distante, brasileiro, Julio restituía o quadro planetário do conflito com o senso excepcional de perspectiva que faltava aos europeus, ofuscados pela proximidade do cenário?, ele afirmou, frisando que somente muito mais tarde os historiadores do ?Velho Mundo? puderam tratar do assunto com a mesma visão despojada e totalizante, abarcando os cinco continentes.

Longe de restringir sua ótica às operações militares, Lapouge prosseguiu, o jornalista brasileiro se interessava pelas conseqüências do conflito na economia mundial: ?Seu olhar se volta para a City de Londres ou para os bancos norte-americanos, antes mesmo que os Estados Unidos entrassem na guerra.? Exprimindo sua admiração pela cultura, elegância de estilo e rigor analítico do autor, Lapouge citou as referências históricas sempre judiciosas e precisas que lastreavam as crônicas agora reunidas em A Guerra.

?Julio evoca Homero, Shakespeare, Fenelon, a Batalha das Termópilas, traça paralelos com uma agudeza de espírito que se tornou rara no jornalismo de hoje.?

?Humanista convicto, ele não oculta seu estarrecimento diante do fato de que as nações mais civilizadas do planeta, França, Inglaterra e Alemanha, pudessem chegar ao estágio da barbárie?, afirmou o escritor. E concluiu que ?a incredulidade e o horror expressos a propósito por Julio em suas crônicas continuam de grande atualidade?. Por sua vez, a pesquisadora Andrée Anita Clemens, da Ecole des Hautes Etudes, ressaltou a lucidez com que Júlio Mesquita efetuava a triagem dos despachos das agências e os interpretava, procurando escoimá-los das deformações veiculadas pela combinação da censura com a propaganda. ?Sem um profundo conhecimento dos povos e de suas histórias, ele jamais poderia ter realizado essa obra monumental num país tão longínquo como o Brasil.?

O embaixador Marcos Azambuja lembrou em seguida a participação do Brasil no fim da Grande Guerra, sobretudo na aviação dos aliados e no setor de assistência médica.

Representando o Ministério francês das Relações Exteriores, o embaixador Robert Richard referiu-se ao trabalho da diplomacia francesa para sensibilização dos brasileiros à causa dos países aliados, em particular nos Estados do Sul, onde se concentravam as comunidades germânicas.

A síntese do seminário realizada pelos conferencistas foi a de que ?o Brasil, com o livro de Julio Mesquita, produziu novos conhecimentos sobre a própria história da Europa?.”

 

COLÔMBIA

“Repórter narra cativeiro na selva colombiana”, copyright O Estado de S. Paulo / Los Angeles Times, 16/02/03

“Era uma oferta que não podíamos recusar. ?Nosso comandante quer falar com você?, disse um miliciano barbado. ?Não vai demorar muito. Talvez ele lhe dê uma entrevista.?

Cerca de dez rebeldes formavam a barreira ao longo de uma faixa estreita da rodovia que corta a ensolarada savana leste da Colômbia. Todos vestiam roupas civis e usavam camisas para fora, sugerindo que levavam armas escondidas na cintura.

A oferta não fazia sentido. Chefes de guerrilha na Colômbia normalmente não procuram falar. Tentar uma entrevista com eles significa percorrer lugares remotos, fazer contatos, mandar mensagens, esperar por resposta.

Eu pensei: ?Isso não está certo. Eles vão nos seqüestrar.?

Os rebeldes me entregaram um copo plástico com refrigerante rosa e eu o entreguei rapidamente para Scott Dalton, o fotógrafo free lance que estava viajando comigo. Eu sabia que se bebesse aquilo eles veriam que minhas mãos estavam tremendo.

Então, eles escoltaram Scott e eu por uma estrada suja, dando início a uma difícil jornada de 11 dias que nos levou para o covil selvagem e os esconderijos isolados do Exército de Libertação Nacional (ELN) – um forte grupo guerrilheiro de 4,5 mil homens com predileção por explodir oleodutos e seqüestrar civis. Era 21 de janeiro. Vários dias passariam antes que eu pudesse respirar aliviada.

Passamos a maior parte do tempo em clareiras na selva, vigiadas por rebeldes de 15 anos com fuzis automáticos pendurados nas costas e granadas presas à cintura. Nossos seqüestradores nos contaram mais tarde que nossa detenção não foi planejada, mas uma vez que a ELN viu a atenção que atraiu, eles procuraram ganhar tempo e trataram nossa libertação com mais cuidado.

Até o nosso seqüestro, jornalistas estrangeiros gozavam de uma espécie de imunidade não declarada na Colômbia. Os grupos armados do país – rebeldes marxistas e seus adversários paramilitares de direita – nos deixavam bem à vontade para relatar as paixões que abastecem 38 anos de conflito civil.

Uma hora e meia depois de nosso seqüestro, encontramos um comandante da ELN uniformizado de nome de guerra Patachicle (algo como pé-de-chiclete). Ele perguntou objetivamente: ?Se vocês fossem detidos, quem deveríamos contatar?? Então, um segundo líder apareceu, um homem rude e agitado com uma corrente de prata. Ele disse que era comandante político de um outro grupo rebelde, as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc). Pediu nossas credenciais e nos interrogou. Por um momento, pensamos que havíamos sido seqüestrados por ambos os exércitos revolucionários de uma só vez. ?Se você detém um membro da imprensa internacional há conseqüências?, eu disse ao comandante da Farc. Ele riu desbragadamente, olhou diretamente nos meus olhos e respondeu: ?Que conseqüências??

Com aquela risada horrorosa, sentimos que os nossos privilégios de imprensa nos foram arrancados. Ficamos com o ELN, tornando-nos apenas mais dois civis entre as 3 mil pessoas seqüestradas na Colômbia a cada ano. Scott e eu não só nos deslocados fisicamente quando fomos para nosso primeiro campo provisório na selva. Entramos em outro mundo, onde geladeiras e banheiros não existem, para não falar de conexões à internet. Carregávamos dois telefones celulares, dois laptops e sofisticados equipamentos fotográficos.

Nossos seqüestradores carregavam facões.

A diferença entre nossos mundos era tão evidente que logo se tornou motivo de piadas. Um dia, enquanto Scott remexia em uma sacola de frutas e bolachas, um rebelde perguntou a ele o que estava procurando. ?Uma cerveja gelada?, respondeu ele.

Nossos iletrados seqüestradores tinham muitas perguntas sobre história, líderes mundiais e acontecimentos recentes. Um guerrilheiro disse a Scott que achava que Adolf Hitler tinha sido o pior presidente americano.

Nossos seqüestradores eram insistentes em duas coisas: capitalistas americanos estavam roubando o petróleo deles e políticos colombianos corruptos estavam dilapidando as reservas públicas.

Nós fomos a essa zona fronteiriça para falar sobre a crescente violência rebelde. Rica em petróleo e sem lei, a província de Arauca se tornou ponto central da campanha do presidente Álvaro Uribe para livrar a Colômbia de facções fora-da-lei ao dar poderes especiais às Forças Armadas. É também sede do campo petrolífero de Cano Limon, operado pela Occidental Petroleum, com sede em Los Angeles.

Os rebeldes dinamitaram o oleoduto de Cano Limon mais de 170 vezes em 2001, privando o governo colombiano de cerca de US$ 500 milhões em royalties. Os ataques estimularam também os EUA a tomar uma atitude. A Casa Branca começou a canalizar US$ 98 milhões em treinamento e equipamentos americanos para tropas locais que estavam protegendo as instalações. Até aquele momento, a ajuda militar americana estava limitada ao combate do comércio ilegal de drogas.

Os primeiros treinadores americanos, 70 ao todo, chegaram em Arauca apenas dois dias antes de nós. ?Deixe que eles (os treinadores) venham aqui a pé para aprender a realidade que vivemos, que essa é uma guerra de guerrilha?, disse um comandante conhecido como Pablo, líder de uma facção do ELN chamada Frente Oriental da Guerra.

?Nós estamos em guerra há 38 anos?, disse Pablo. ?Estamos em treinamento há 38 anos.? A Frente Oriental de Guerra representa o braço mais rico e independente do ELN. Conversações de paz entre o governo e o ELN estão paradas e Pablo deu pouca esperança de uma solução rápida para o conflito.

Perguntei a ele o que faria se não fosse comandante da ELN. ?Eu saí de casa direto para a guerrilha?, disse ele. ?Você se casa com isso. Não tenho muita experiência com a vida civil.?

Perguntamos a nossos seqüestradores se em algum momento havíamos corrido o risco de morrer durante o nosso cativeiro. Algumas frentes rebeldes são conhecidas por preferir matar sua vítimas de seqüestro a deixá-las para trás em um ataque militar. No cativeiro, fazer amigos é como comprar um seguro de vida.

Eu falei muito com a namorada de Pé-de-chiclete, mulher de músculos fortes, com expressão calorosa e uma risada exuberante.Ela tinha minha idade, 35 anos.

Outro combatente, um homem robusto e tímido, não falava conosco de maneira nenhuma. A certa altura, eu sentei perto de Scott e chorei tão disfarçadamente quanto podia. Depois que enxuguei meus olhos, ele se aproximou de mim e colocou três doces na minha mão.

Perguntei a vários rebeldes como eles decidiram se unir à guerrilha. ?Às vezes é o encanto de uma mulher bonita, às vezes são as armas, às vezes é o uniforme?, disse um subcomandante. ?Mas, então, você começa a pensar nas desigualdades da sociedade.?

Nossos seguranças foram instruídos a nos dar tratamento vip. Na noite anterior à nossa libertação, eles trouxeram cerveja gelada. Há, em média, oito seqüestros por dia na Colômbia e a maior parte das vítimas não tem tanta sorte. Algumas são acorrentadas a uma árvore por meses a fio, enquanto suas famílias recebem telefonemas ameaçadores pedindo o pagamento de pesados resgates em dinheiro. Diferentemente da maior parte das vítimas, nós tivemos também o Los Angeles Times e autoridades americanas e colombianas trabalhando incansavelmente para nossa libertação.”

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