Segunda-feira, 18 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

PRIMEIRAS EDIçõES > LEITURA & LEITORES

Nas encruzilhadas da crise

Por lgarcia em 23/12/2003 na edição 256

LEITURA & LEITORES

Deonísio da Silva

Carta de uma leitora, comentando, agora em dezembro, a matéria "Como Hitler pôde acontecer", publicada na edição de novembro da revista Superinteressante: "Incrível como a vida de Hitler foi contada. Isso não se lê nos livros de História. Foi uma das melhores matérias de capa da Super".

Na mesma revista, Hitler lidera, com 51% dos votos dos internautas, a lista dos piores ditadores da História. Os editores omitem, entretanto, um dado que deixa o leitor curioso, ao afirmarem que "a diferença entre os 1.832 votos da enquete da Super Online não foi grande". Quais teriam sido os outros classificados que ameaçaram a liderança do conhecido genocida?

Combinados, a carta da leitora e o resultado da pesquisa dão indícios de velhas falhas. O que será que a leitora quis dizer com "isso não se lê nos livros de História"? Na escola, o que se vê é que o ensino da História, com raras exceções, como o de outras disciplinas das Humanidades, vem sendo reduzido a manuais simplificadores. A maioria das escolas e universidades está presa a um círculo vicioso que fragmenta as disciplinas, isola conteúdos arbitrariamente, sem nenhuma relação, por exemplo, entre matérias de domínio conexo, e exige dos alunos que devolvam nas provas pequena parte do que os professores lhe adiantaram nas aulas. É o que Paulo Freire um dia denominou "educação bancária". O professor deposita e depois faz o saque nas provas.

Efeito placebo

Baixos salários, excessiva carga didática e outros males seculares são os principais agentes da calamidade, mas nenhum é pior do que a ausência de livros. Bons alunos sobrevivem a professores desqualificados ou atormentados com dificuldades inauditas. Mas para isso precisam de livros. Os acervos das bibliotecas escolares ? mas muitas não têm bibliotecas ? são de uma pobreza descomunal, embora tenha melhorado muito nos últimos anos. No segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso, o então ministro Paulo Renato de Souza, da Educação, afirmou, sem ser contestado, que o governo federal estava entre os maiores compradores de livros do mundo.

Convivemos com outro paradoxo. O Brasil conta com um quadro de bibliotecários qualificados que, entretanto, são vítimas da falta de recursos para dotar as estantes de bibliografias essenciais. São freqüentes os pedidos a autores e editoras para que dêem livros de graça às escolas. Naturalmente, seus dirigentes não tiveram a mesma ousadia diante das empreiteiras que construíram os prédios. Nenhum tijolo chegou ali gratuitamente.

Em tal contexto, bancas e livrarias vão completando a formação escolar e, muitas vezes, apresentando conteúdos essenciais das disciplinas, dos quais os alunos foram privados. Não apenas pelas falhas já aludidas, mas também, no caso das escolas públicas, por greves que afetam diretamente a qualidade. E quando enfim os governos resolvem atender os docentes, o calendário escolar é ajustado de modo a que as disciplinas, que não foram ministradas no semestre, tenham um arremedo de reposição de aulas que tem o fim de fazer de conta que a situação didática foi sanada com o conhecido exagero de enfiar em dois meses o que não pôde ser ministrado em 4,5 meses.

Não é à toa que outra pesquisa recente chegou à conclusão de que o aluno brasileiro não entende o que lê. De todo, confiemos no efeito placebo de leituras como as apresentadas, que conciliam textos escritos numa linguagem bem diferente daquela em que foram escritos os livros, apelando ainda para uma criativa diagramação, acompanhada de ilustrações adequadas, que complementam a mensagem.

Muros de 68

Ao aceitar o convite do paulista Martinho Botelho, de São Carlos, para fazer uma revista brasileira em Paris, Eça de Queiroz ponderou que a publicação deveria ser ilustrada, pois desconfiava de que os brasileiros, como os portugueses, somente se interessam por textos ilustrados. A coleção completa da referida publicação está na biblioteca da Fazenda Pinhal, de Helena e Modesto Carvalhosa, e serviu de corpus a uma tese defendida na USP.

Em resumo, o avanço tecnológico permite que revistas e jornais tornem-se cada mais atraentes aos leitores. Outra questão, entretanto, continua pertinente: por que não se combinam as qualidades? Televisão de alta definição, sim, existe. E a programação, como anda? Jornais e revistas cada vez com mais recursos editoriais, mas sem o texto de qualidade, por melhor que seja a tecnologia empregada, não atrai o leitor.

De todo modo, registrem-se os novos caminhos, como é o caso da Superinteressante, que no número de dezembro apelou para conhecida controvérsia, dando-lhe matéria de capa: "São Paulo traiu Jesus?" Exageraram também a chamada: "Sem Paulo de Tarso, o cristianismo que você conhece não existiria. Agora surge a polêmica: ele é o herói que disseminou a fé em Cristo ou o vilão que deturpou as palavras de Jesus para sempre?"

Nos muros de Paris, em maio de 1968, uma das frases era: "Exagerar é já um começo de invenção". Um de nossos mais terríveis exageros, porém, é outro: não existe nada tão ruim que não consigamos piorar. Não bastasse a praga do analfabetismo, diminuído muito nos últimos anos, descobrimos que boa parte dos alunos não entende o que lê. Note-se a gravidade do diagnóstico: entre eles, quem lê, é minoria. E dentre esses, muitos não entendem o que leram.

A crise da imprensa não passa por essas encruzilhadas?

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