Quarta-feira, 19 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1018
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Natalie Lima

Por lgarcia em 31/10/2001 na edição 145

SHOWRNALISMO

"?Showrnalismo? do veterano Arbex", copyright Comunique-se (www.comuniquese.com.br) 29/10/01

"Tratar a notícia como entretenimento é uma prática cada vez mais comum nos veículos de comunicação. Quem levanta a tese é o jornalista José Arbex Júnior, professor da Faculdade Cásper Líbero e colunista da revista Caros Amigos. Arbex acaba de lançar o livro ?Showrnalismo? (editora Casa Amarela), com críticas contundentes ao monopólio da informação e à sutil fronteira entre espetáculo e notícia. Em entrevista a Comunique-se, Arbex opina sobre a cobertura jornalística da guerra no Afeganistão e mostra como um assunto sério pode adquirir leveza.

Comunique-se – A quem você atribui a existência do jornalismo do espetáculo: aos veículos ou ao público?

José Arbex Jr. – O jornalismo do espetáculo radicaliza uma tendência americana que existe desde o século XIX. Já nessa época, a notícia era tratada como entretenimento. Isso acabou se tornando um padrão da imprensa de massa. A TV intensificou o processo. Nos Estados Unidos, os jornais ditos sérios, como o NY Times, nasceram como contraponto. O fato é que o público gosta de pão e circo, o que põe em xeque o intelectual que trabalha na mídia. Ele tem de decidir se vai ou não se basear naquilo que dá Ibope. O fato de o jornal ser visto como um produto está diretamente ligado à despolitização das redações, iniciada em 1979, quando houve a greve dos jornalistas. Os patrões reagiram duramente a essa greve. Daí surgiu o conceito de despolitização. À frente do processo estava a Folha de São Paulo.

Comunique-se – A cobertura da guerra ao terrorismo está sendo espetacularizada?

JA – A guerra se torna um grande show a partir do momento em que as vítimas não são vistas pela opinião pública. Ninguém se lembra de ter visto cadáveres na Guerra do Golfo. No entanto, depois, soube-se que muita gente morreu durante os ataques dos Estados Unidos. Em 1996, quando o jornalista Peter Arnett, da CNN, veio lançar um livro no Brasil no programa Roda Viva, disse que entendia a posição do governo de esconder informações e fatos.

Comunique-se – A CNN agiu corretamente ao declarar que aceita não divulgar informações que o Pentágono julgar prejudiciais aos EUA?

JA – A CNN fez campanha de guerra o tempo todo. Basta lembrar dos títulos das coberturas, como ?America under attack? e ?Counterattack on Terrorism?. A mídia americana é francamente pró-governo. Mas o fato é que há uma série de ações contra esta guerra, inclusive dentro dos Estados Unidos. No Brasil, está sendo preparado um ato social que irá mobilizar muitas pessoas em novembro.

Comunique-se – Você disse que o mundo vive um momento gravíssimo, ?uma Auschwitz do pensamento, fabricada pelos meios de comunicação?. Como assim?

JA – Auschwitz do Pensamento é quando os meios de comunicação são capazes de disciplinar o pensamento das pessoas. Por exemplo, a nova novela da Rede Globo. ?O Clone? é assistida por milhões de pessoas, que irão achar que sabem muito de islamismo por estarem vendo a novela. Ou seja, o entretenimento vira telejornalismo. E o pior é que o telejornalismo vira novela. O Jornal Nacional tem essa estrutura. Neste noticiário existem mocinhos e bandidos, bem e mal."

 

Marcelo Rubens Paiva

"?Liberdade de imprensa virou liberdade de empresa?", copyright Folha de S. Paulo, 27/10/01

"Dois livros que estão sendo lançados por dois experientes jornalistas apontam para a grande imprensa o banco de réus.

Em ?Showrnalismo: A Notícia Como Espetáculo?, José Arbex Jr., 43, infunde suspeitas de tudo aquilo que é dito pela mídia, afirmando que a notícia serve prioritariamente ao lucro de corporações e que jornais como a Folha têm se tornado uma ?TV impressa? -caracterizando a notícia como uma mercadoria e resultando no fim da politização.

Em ?A Sociedade dos Chavões: Presença e Função do Lugar-Comum na Comunicação?, Claudio Julio Tognolli, 38, repórter especial da rádio Jovem Pan, aponta o esvaziamento do discurso e pergunta se a linguagem, hoje, pode representar alguma substituição de experiência, já que anda empobrecida no dia-a-dia.

Os livros são frutos de pesquisa para tese de doutorado. Arbex e Tognolli já escreveram juntos ?O Século do Crime? (ed. Boitempo, prêmio Jabuti de 1997) e ?O Mundo Pós-Moderno? (Scipione, 98). Ex-jornalistas da Folha, são ambos colunistas da revista ?Caros Amigos? e docentes em faculdades de jornalismo.

Arbex dá aulas na PUC-SP e na Cásper Líbero. Tognolli dá aulas nas Faculdades Integradas Alcântara Machado. A Folha juntou-os para uma entrevista em que o papel da mídia no conflito no Oriente Médio não passou batido.

Folha – É difícil hoje em dia se adaptar à grande imprensa?

Claudio Julio Tognolli – Eu perdi o encanto pela notícia como mercadoria. Liberdade de imprensa virou liberdade de empresa.

José Arbex Jr. – Eu acho insuportável. O tempo da grande imprensa virou um tempo industrial e obedece a um método nazista de desqualificação da memória. Você vive de sobressaltos, constantemente assaltado pelo novo. Acaba o sequestro da filha do Silvio Santos, vem o escândalo do Jader, depois o ataque terrorista, enquanto a memória se esvai.

Folha – Não existe espaço para o jornalismo investigativo?

Tognolli – O agora é o ápice do tempo. O passado pouco importa, e o futuro não se planeja. Por isso a linguagem da imprensa está cada vez mais empobrecida. Há a programação das pessoas pela repetição, o terrorismo do agora. Quando você tem um universo simbólico menor, reage física e intuitivamente às coisas, o que faz você refletir menos.

Folha – A impressão que tenho é que a imprensa sempre vestiu uma máscara idealista, que caiu agora como o liberalismo.

Arbex – A Guerra do Golfo (91) marcou um ponto de inflexão. Quem assistiu pela TV não viu ninguém morrer, como uma guerra limpa. Mas hoje sabemos que mais de 130 mil morreram. Se a mídia é capaz de falsificar a transmissão ao vivo de uma guerra, o que mais ela é capaz de fazer?

Folha – Na Segunda Guerra, a mídia omitia a paralisia do presidente americano Franklin Roosevelt, não exibia cadáveres.

Arbex – A proporção é diferente. Ninguém viu os cadáveres do WTC porque é ruim explicitar as fraquezas do império e mostrar mortes quando se prepara uma guerra. Para a imprensa americana, secundada pela imprensa servil brasileira, fica difícil preparar a guerra com cadáveres.

Folha – A imprensa quer a guerra?

Arbex – As corporações de mídia movimentam bilhões, o que gera compromissos com bancos, o que gera uma imbricação promíscua de interesses entre mídia e Estado. A mídia se tornou um instrumento de guerra. Hoje, é a maior inimiga da democracia.

Tognolli – Diminuindo a simbolização, você sataniza certos grupos, as pessoas reagem de maneira emocional e compram o produto. As pessoas curtem esse estresse do novo.

Arbex – Há também uma confusão de gêneros. A Globo passa ?O Clone? e 60 milhões vão achar que conhecem o islã porque viram a novela. A novela se transforma em reportagem e o jornalismo adquire a linguagem da novela, com imagens sedutoras e a identificação do bem e do mal. Isso se presta a todo tipo de manipulação.

Folha – A democracia americana está em crise?

Arbex – Quando Bush pediu censura a Bin Laden, foi o maior golpe contra a democracia desde 1776. Hoje os EUA vivem num estado anômalo, que dificilmente se chama democracia. O FBI pode prender e interrogar qualquer um. A mídia está censurada com a anuência das corporações.

SHOWRNALISMO: A NOTÍCIA COMO ESPETÁCULO. De: José Arbex Jr.. Editora: Casa Amarela (0/xx/11/3819-0130). 290 págs. R$ 21,50.

A SOCIEDADE DOS CHAVÕES: PRESENÇA E FUNÇÃO DO LUGAR-COMUM NA COMUNICAÇÃO. De: Claudio Julio Tognolli. Editora: Escrituras (0/xx/11/5082-4190). 248 págs. R$ 13."

    
    
                     
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