Terça-feira, 12 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº969

PRIMEIRAS EDIçõES > NEWS CORP.

Neil Chenoweth

Por lgarcia em 05/12/2001 na edição 150

NEWS CORP.

"Nasce um bebê de US$ 600 milhões. Uma revolução no império Murdoch", copyright The Guardian / O Estado de S. Paulo, 2/12/01

"Membros da família Murdoch em todo o planeta ficaram encantados com a chegada, em Nova York, de Grace Helen Murdoch, o orgulho e a alegria de seus pais, Rupert e Wendi. ‘A família está ‘eufórica’ com o nascimento’ disse Lachlan Murdoch, herdeiro do trono da News Corp. Mas para os acionistas da empresa, um herdeiro dos Murdoch não é um assunto assim tão simples. Esses investidores precisam saber se o nascimento não alterou nada e se perguntam: está garantida a sucessão de US$ 6 bilhões da News Corp?

As atenções dadas ao nascimento, na semana passada, eclipsaram a questão mais urgente: o que Murdoch fará agora na Europa depois de sua humilhante derrota nos Estados Unidos, na fracassada negociação com a General Motors para a compra da DirectTV e sua empresa holding, a Hughes Electronic?

As duas questões – a sucessão e o que Murdoch fará a seguir com o império – não estão separadas. Estão ligadas pela figura maquiavélica do antigo amigo e rival de Murdoch, John Malone, da gigante da TV a cabo nos Estados Unidos, a Liberty Media.

O custo desse recente revés de Murdoch ainda está sendo mensurado. Na América do Norte já foi desencadeada uma nova e preocupante onda de fusões e incorporações de meios de comunicação. Grupos de TV e jornais britânicos já estavam em ação nos bastidores, mas agora os lances são reais. Existe uma interrogação em relação à estrutura de propriedade da BSkyB. O setor de televisão paga na Alemanha, na Itália e na América Latina está em polvorosa.

E depois da semana que vem, a família Murdoch não continuará sendo a maior acionista da News Corporation.

O fato de todos esses efeitos derivarem de um único negócio fracassado, em que a operadora de satélites Echostar apoderou-se da DirectTV no nariz de Murdoch, ressalta o enorme malabarismo que a oferta de Murdoch pela Hughes exigiu. Hoje essa oferta parece estraçalhada. Mesmo que o negócio da GM com a Echostar seja obstruído no próximo ano, sob a justificativa de medida antitruste, fica difícil enxergar Murdoch juntando os cacos da sua oferta inicial.

Antecedentes – Não é a primeira vez que uma derrota de Murdoch tem repercussões mais amplas do que suas vitórias. Isso é particularmente verdadeiro hoje, no momento em que o colapso das ações do setor de tecnologia altera o equilíbrio de poder entre empresas de conteúdo de mídia e redes de distribuição. Mesmo a participação da Grã-Bretanha nessa batalha refletiu-se no mundo todo. O governo Blair fez seu lance na disputa com um sinal público, na semana passada, de que a revisão que fará na legislação para a mídia mista tornará menos onerosa a vida dos sacrificados magnatas americanos.

Mas o que Murdoch vai fazer na Grã-Bretanha e na Europa vai depender de suas maquinações com Malone e estão inevitavelmente ligadas à sucessão de Murdoch. O que nos leva de volta a Grace.

Raras vezes a chegada de um novo herdeiro da mídia provocou tal abalo em uma dinastia. Os lances públicos – a ex-esposa de Murdoch, Anna, dando uma entrevista irada sobre o divórcio, e o guru britânico de relações públicas, Matthew Freud, criticando seu futuro sogro na revista Vanity Fair — indicam o turbilhão que sacudiu a família Murdoch por causa do nascimento. A troca de insultos entre os Murdoch representa algo mais do que alimento para os tablóides. A forma como essa família resolve suas diferenças tem implicações em todo o mundo.

Na realidade, o futuro do império global de mídia foi determinado por um papel que Rupert Murdoch e Anna assinaram por ocasião de seu divórcio, em 8 de junho de 1999. Foi um acordo elaborado para garantir a Anna que os quatro filhos de Murdoch — Prudence McLeod, Elisabeth Freud, Lachlan e James Murdoch — herdarão o controle da sociedade fiduciária AE Harris e da Cruden Investiments Limited, por meio dos quais a empresa familiar controla a News Corp.

Uma semana depois, os quatro filhos começaram a nomear seus próprios representantes nos conselhos das empresas da família Murdoch, o que foi concluído em 26 de junho. Murdoch desposou Wendi Deng em 29 de junho. Por meio do grupo Cruden, os Murdoch possuem mais de 16% do total de ações da News Corp, que valem US$ 6 bilhões.

Controle – Em março de 1999, dez semanas antes do divórcio, Murdoch concluiu a compra da parte de suas irmãs na Cruden. As ações de Murdoch, que juntas perfazem 90% das ações da Cruden, são mantidas em fideicomissos. Os quatro filhos serão beneficiários iguais desses fideicomissos. Eles detêm quatro dos oito assentos no conselho da Cruden, com executivos e advogados da News Corp ocupando os restantes.

Há um outro bloco de 10% da Cruden, de propriedade da mãe de Rupert, a senhora Elisabeth, que passará para Rupert por herança — e dele para os seus herdeiros. Acredita-se que esses 10%, atualmente no valor de US$ 600 milhões, passarão em última análise para Grace e seus irmãos, embora ela só deva entrar de posse da sua herança em 2031, quando fizer 30 anos. Até essa data, depois da morte de seu pai, a sua herança será controlada por agentes fiduciários. A chave para os fideicomissos de Murdoch é quem tem poder para nomear agentes fiduciários. Embora as estruturas do fideicomisso sejam tão labirínticas que fica difícil ter certeza, presumivelmente esse poder será detido pela sua guardiã, que seria Wendi.

É claro que as ações não podem ser vendidas e qualquer decisão para pagar os dividendos sobre essas ações seria dos filhos mais velhos. O que acontecerá se eles entrarem em desavença é um território desconhecido. A posição agora é que, enquanto Murdoch controlar uma fortuna de US$ 6 bilhões, qualquer decisão sobre muito dinheiro tem que envolver seus filhos.

Depois de uma vida inteira sem retirar ações, no auge do surto de crescimento da tecnologia, há 18 meses, Murdoch recebeu 24 milhões de ações preferenciais da News avaliadas em US$ 35 milhões. Essas ações teriam proporcionado segurança financeira para sua nova família. Mas com o preço da ação News hoje bem abaixo dos US$ 11 da época, elas não fornecem a mesma segurança.

Com uma nova família para cuidar, os rearranjos na sucessão de Murdoch geraram suas próprias pressões. O que leva à pergunta: o quão abrangente e fechado foi o acordo? E o que exatamente vão levar os herdeiros de Murdoch?

Império – A News Corporation é uma empresa peculiar. Grande parte dela é americana e é muito maior por dentro do que parece quando vista de fora. Suas ações valem US$ 36 bilhões. Ocupa apenas o quinto lugar entre os maiores grupos de mídia, atrás da AOL Time Warner, Viacom, Disney e Vivendi. Mas a força da News Corp está no seu sistema de distribuição, que controla – com participações minoritárias — empresas como a BSkyB. Se o valor pleno dessas empresas for considerado, Murdoch controla um império de mais de US$ 65 bilhões, o que o torna o segundo maior grupo de mídia do mundo, à frente da Viacom.

O sistema de registro de ações da News é como uma caixa preta. Cerca de 60% da sua composição acionária é de ações preferenciais sem direito a voto e sem exigência de informações sobre os seus acionistas. Ninguém sabe quem possui as participações acionárias nas empresas associadas. Metade das ações é comercializada nos Estados Unidos como American Depositary Receipts (recibos de depósitos de ações), que são retidos em bloco por agentes fiduciários e, portanto, mais uma vez, somente Murdoch sabe quem as possui.

Há três problemas com esta estrutura. Primeiro, é perfeita para ser objeto de fraudes.

Segundo, qualquer grande grupo de mídia que comprasse uma participação acionária de 20% das ações com direito a voto da News Corp (o número máximo que um comprador pode comprar antes de fazer uma oferta de aquisição) colocaria Murdoch em maus lençóis. Essa participação acionária custaria US$ 36 bilhões. Murdoch permaneceria no controle com seus 29% das ações e direito a voto, mas sua posição seria precária o suficiente para que o novo investidor pudesse exigir que ele levasse ao ar qualquer programação que quisesse na sua rede de distribuição global no valor de US$ 65 bilhões.

Tenhamos em mente que Michael Eisner, da Disney, acaba de pagar US$ 5,2 bilhões pela Fox Family para veicular a programação da Disney em apenas um canal a cabo.

Terceiro, o obscuro registro de ações esconde o fraco controle de Murdoch na News. Ele possui apenas 16,2% do total de ações. Os números indicam que, dentro de dez anos, os Murdoch não mais controlarão a News. E é por isso que John Malone assume tanta importância no horizonte de Murdoch.

Em 13 de novembro, Malone revelou que os ativos que se supunha fossem para a transação com a Hughes depois de 27 de novembro serão agora usados dentro da News. Com as ações que receberá, Malone deterá 18% da News Corp. Essas são todas ações sem direito a voto, como Murdoch enfatiza continuamente. Mas representa muito dinheiro, e Malone é muito esperto para permitir qualquer sucessão de Murdoch sem sua aprovação.

Prejuízos – Malone transformou a Tele-Communications Inc. no maior grupo a cabo da América do Norte, antes de vendê-lo para a AT&T por US$ 56 bilhões. Agora na Europa, América do Sul e Austrália, está reunindo uma das maiores redes de televisão a cabo fora dos Estados Unidos, com um descaso pelos prejuízos no estilo de Murdoch.

Quando Murdoch finalmente se deu conta, na noite de 27 de outubro, que tinha perdido a batalha pela Hughes, imediatamente telefonou para Malone: ‘E agora, o que fazer a seguir?’, perguntou Malone. Barrados nas suas ambições em território americano, os dois voltaram os olhos para a Europa. Na Alemanha, estão atualmente atormentando Kirch por causa da participação acionária de 24% da BSkyB na plataforma de TV paga Premiere. Na Grã-Bretanha, Malone parece estar usando sua participação de 25% no grupo a cabo Telewest para preparar o que parece uma fusão inevitável com a NTL.

A opção preferencial de Murdoch na ITV Digital pode ser sintetizada como eutanásia. Sua estratégia está sendo finalizada com o acordo para a BSkyB veicular o canal ITV da televisão comercial britânica.

A determinação do governo britânico de descontinuar gradualmente a TV analógica altera drasticamente o equilíbrio de poder afastando-o do produtor de conteúdo, como a BBC, na direção das redes de distribuição como a BSkyB.

Murdoch capitaliza em cima desta mudança, pressionando para um investimento direto em televisão, dando sinais de que está preparado para se livrar de alguns de seus jornais como uma concessão estratégica.

O grande imponderável é o que acontecerá à BSkyB. Mais particularmente, à participação acionária de 22% que Jean-Marie Messier, da Vivendi, precisa vender. Em abril, Messier esteve conversando com Malone sobre a troca de suas ações na BSkyB por um controle acionário de 20% na USA Networks; Murdoch comprometeu-se com Messier a fundir a sua Stream SpA com a Telepiu da Vivendi, para acabar com sua dispendiosa guerra da TV paga na Itália; e as discussões entre Murdoch e Malone com a General Motors voltaram aos trilhos.

Flutuando lá no éter estavam as nebulosas linhas gerais de um acordo ou talvez apenas uma expectativa: Messier ficaria com a Itália enquanto sua participação acionária na BSkyB acabaria, via Malone, na fusão entre Sky Global e DirectTV de Murdoch.

Por razões tributárias, essas transações só poderão ser realizadas dois anos depois que Murdoch tiver acertado com a General Motors. Em consonância, Messier decidiu colocar a participação acionária na geladeira por uns dois anos em uma sociedade fiduciária.

Ambições – Já houve um acordo? Nunca saberemos.

Mas a primeira providência de Murdoch depois do fracasso com a Hughes e com a transação entre a Stream e a Telepiu sob fogo cruzado por parte dos reguladores de Roma, foi falar em reavivar as hostilidades na Itália. A BSkyB permanece sendo a pedra de toque das ambições em satélite global de Murdoch. E a participação acionária da Messier é essencial para a BSkyB.

O que leva Murdoch de volta para Malone.

Grace foi concebida no período em que Murdoch completou 70 anos, um evento que ele comemorou calculando quantas horas de trabalho lhe restavam. O que podem dizer os Murdoch a respeito deste bebê e de sua jovem mãe … a não ser parabéns?"

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