Domingo, 23 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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PRIMEIRAS EDIçõES > ***

Nelson de Sá

Por lgarcia em 17/10/2001 na edição 143

COBERTURA DA GUERRA

"Guerra de notícias", copyright Folha de S. Paulo, 12/10/01

"A justificativa é sempre que o 11 de setembro foi um dia que mudou a história. A partir daí, tenta-se desculpar qualquer coisa.

Por exemplo, o pedido do prefeito de Nova York para ter mais três meses de mandato. Outro exemplo, o pedido da Casa Branca para a TV autocensurar as mensagens de Osama bin Laden e sua organização.

Mas o exemplo maior é outro: a ameaça de George W. Bush de não passar informações ao Congresso americano, por temer que este repasse à mídia -e esta ao público.

O estopim do episódio teria sido uma avaliação do FBI, semana passada, de que os EUA seriam certamente atacados outra vez. Isso foi informado ao Congresso, que vazou.

Foi o bastante para Bush sair dizendo que poderia não cumprir a obrigação constitucional de informar o Poder Legislativo. A exemplo do prefeito de Nova York, ele acabou ouvindo o que não queria e recuou.

E ontem, colocado novamente em seu lugar constitucional, o governo americano deu oficialmente a notícia do dia. Na CNN, por exemplo:

– FBI avisa que o governo tem ?razão para acreditar? que ataques terroristas podem acontecer nos próximos dias nos EUA e contra interesses americanos no exterior.

Nada melhor, para o cidadão americano e para o cidadão do mundo, do que saber o que está acontecendo.

Isso vale, é claro, também para o episódio da TV. Por mais que sejam corretos os argumentos pela autocensura, ver as cinco redes americanas cederem em conjunto não foi boa mensagem para o mundo.

Mais do que CBS, ABC ou CNN, redes exemplares em sua tradição de telejornalismo, o modelo de cobertura do século 21 tornou-se, de uma hora para a outra, o canal do Qatar, Al Jazeera – que avisou ontem que não vai se autocensurar.

É a emissora que transmite as mensagens de Bin Laden, mas também -e ao vivo- as mensagens de Bush e todas as outras do governo americano.

É a emissora que entrevistou Tony Blair e Colin Powell -e que estaria para entrevistar o próprio Bush, segundo o ?USA Today?, citando o porta-voz da Casa Branca.

Por fim, é a emissora -e aqui chegamos ao que importa- que acaba de fechar um contrato com Rupert Murdoch para entrar em seu serviço de satélite. É a emissora que faz US$ 20 mil por cada minuto de cobertura vendido às próprias redes americanas.

Além de participar eventualmente."

***

"Guerra de palavras", copyright Folha de S. Paulo, 9/10/01

"Os ?aliados?, vale dizer, George W. Bush e Tony Blair, ficaram tão boquiabertos quanto o resto do mundo diante do canal do Qatar, Al Jazeera, que cobriu como ninguém o ataque ao Afeganistão.

O porta-voz da Casa Branca disse ontem, à CNN, que o presidente norte-americano assistiu atentamente às declarações de Osama bin Laden transmitidas pelo Al Jazeera.

Bush comentou, entre outros pontos, que o vídeo havia sido gravado à luz do dia, antes do ataque -o que de resto o mundo inteiro notou.

Também concluiu que Bin Laden ?praticamente assumiu a responsabilidade? pelos atentados de 11 de setembro.

Blair fez mais do que comentar. Na ?guerra de propaganda?, invadiu o território do inimigo. Ontem mesmo, deu uma entrevista ao Al Jazeera.

Ele precisava responder às palavras de Bin Laden, para o público de Bin Laden.

Disse que a organização Al Qaeda é uma ameaça tão grande aos governos árabes moderados quanto ao Ocidente. Disse que não se trata de ?Ocidente contra o Islã?. E disse:

– Vamos ser claros. Se dermos atenção às palavras de Osama Bin Laden, se ele conseguir as coisas do seu jeito, os regimes que ele implantaria no mundo árabe seriam como os do regime Taleban no Afeganistão.

Em resumo, se Bin Laden aterrorizou o Ocidente com palavras, domingo no Al Jazeera, ontem foi a vez de Tony Blair reagir, se não com o mesmo terror retórico, ao menos com uma franqueza no limite da ameaça.

Para além das atuações de Blair e Bush, a ?guerra de propaganda? teve ontem uma abertura maior às imagens da parte dos ?aliados? -ou pelo menos uma divulgação maior.

Na BBC, por exemplo, surgiram cenas do lançamento de ajuda humanitária. Na noite afegã, de um grande avião, saíam contêineres inteiros."

"EUA agora querem limitar jornais", copyright Folha de S. Paulo, 12/10/01

"Um dia depois de obter das redes de TV norte-americanas o compromisso de que irão controlar a divulgação de declarações do saudita Osama bin Laden, o governo dos EUA tentou ontem convencer os principais jornais e revistas do país a não publicarem íntegras de suas declarações e de sua rede terrorista, a Al Qaeda.

O argumento exposto ontem à mídia impressa por Condoleeza Rice, assessora de segurança nacional do presidente George W. Bush, foi o mesmo que, no dia anterior, suscitara um debate intenso sobre liberdade de imprensa.

Segundo o governo, as declarações e imagens de Bin Laden poderiam trazer mensagens em código para terroristas à espera de sinais para atacar os EUA. Ou, na melhor das hipóteses, estimulariam o ódio contra os EUA e causariam pânico.

O governo diz que trata-se de um pedido legítimo em tempos de guerra, e não de um ato de censura, pois a decisão final caberia aos meios. No entanto, existe também a impressão, cada vez mais forte, de que essa solicitação representa uma espécie de ?autocensura compulsória? sobre os meios norte-americanos.

A solicitação do governo ocorreu após veiculação de imagens de Bin Laden dando uma declaração na rede de TV Al Jazeera, do Qatar, logo após os atentados, e das ameaças feitas na terça-feira por um porta-voz da Al Qaeda, segundo as quais ?uma tempestade? de aviões atingiria os EUA.

As cinco principais TVs norte-americanas (ABC, CBS, CNN, Fox e NBC) aceitaram o pedido do governo de forma unânime, embora a sugestão da existência de mensagens em código nos vídeos de Bin Laden tenha sido vista, já na noite de anteontem, como fantasiosa e objeto de piadas.

Ao aceitarem o pedido do governo, as TVs anunciaram que não mais colocariam no ar, ao vivo, declarações de Bin Laden ou da Al Qaeda, comprometendo-se a analisá-las primeiro ou a entregá-las ao governo para que a CIA e o FBI as verificassem. O porta-voz da Casa Branca, Ari Fleischer, disse ontem que o presidente Bush ficou ?satisfeito pela reação das redes de TV?.

No entanto, diferentemente das redes de TV, os jornais teriam sido menos receptivos na conversa que tiveram ontem com Rice, segundo informou à Folha uma jornalista do ?Washington Post?.

Oficialmente, Leonard Downie, diretor-executivo do ?Post?, fez o seguinte comentário antes da reunião: ?Nossa conduta é a mesma de sempre: ouviremos (o governo) e tomaremos decisões editoriais caso a caso. O Post não quer dar um cheque em branco ao governo?.

Howell Raines, editor-executivo do ?New York Times?, declarou algo semelhante: ?Nossa prática tem sido a de nos manter disponíveis para conversas com autoridades governamentais graduadas para tratar sobre assuntos de segurança. Também nos sentimos livres para procurar orientação se julgarmos que algumas informações possam ser sensíveis.?

O ?Times? criticou, em seu principal editorial publicado ontem, o fato de o governo ter dirigido um pedido aos meios de comunicação sem ter antes obtido qualquer indício de que as imagens de Bin Laden contivessem mensagens ocultas. O editorial considerou inverossímil essa possibilidade: ?Mesmo se as íntegras (das declarações do terrorista) forem excluídas de TVs e dos jornais, qualquer associado de Bin Laden nos EUA poderá captá-las facilmente pelas transmissões de redes de TV estrangeiras ou via internet?, argumenta o editorial.

Mas uma análise completa sobre o comportamento da mídia dos EUA neste momento só poderá ser feita quando se conhecer as informações que jornais, revistas e TVs aceitaram não publicar nas últimas semanas a pedido do governo."

***

"Sem imagens do front, TVs dos EUA estão paralisadas", copyright Folha de S. Paulo, 9/10/01

"A guerra começou e a imprensa americana, sentindo-se completamente fora dela, compete com voracidade por imagens do canal de TV a cabo árabe Al Jazeera, do Qatar.

Sob censura do Pentágono e impedidos de entrar na parte do Afeganistão controlada pelo Taleban, a mídia dos EUA entrou num clima de desespero batizado pela vice-presidente de jornalismo da rede de TV CBS como a ?síndrome do Marriot de Islamabad?, o hotel dos jornalistas no Paquistão.

Enquanto os telespectadores estão esperando imagens instantâneas da guerra, a mídia dos EUA está paralisada. ?Sabemos das dificuldades de cobrir esse tipo de conflito, mas o público espera que estejamos ao menos no país em que a guerra está acontecendo, e não no telhado do Marriot de Islamabad.?

É na capital do Paquistão, país vizinho ao Afeganistão, onde as TVs norte-americanas concentram seus jornalistas e equipamentos. A CNN ocupa 30 quartos no Marriot, pagando US$ 200 por noite para cada um deles.

São dois os problemas das TVs americanas. O primeiro é a decisão do Pentágono de restringir o acesso de jornalistas a operações militares. Embora tenha dito que entende a importância de manter o público informado, o secretário da Defesa, Donald Rumsfeld, declarou há duas semanas que não irá deixar a imprensa prejudicar o objetivo estratégico militar e colocar a vida dos militares em risco.

Rumsfeld fechara há dez dias um acordo com a imprensa que tinha como base a formação de um pool que seria coordenado pela rede de TV NBC. Segundo esse acordo, toda vez que os ataques iniciassem, os militares avisariam os jornalistas que acompanham os militares dentro de porta-aviões. Fotos e textos são produzidos dentro dos navios de guerra, revisados pelos militares e, depois, enviados para os EUA.

O problema é que, distantes dos alvos, os jornalistas só enxergam aviões levantando vôo dos porta-aviões e mísseis sendo lançados.

Barbara Cochran, chefe do escritório da CBS em Washington, tem a impressão de que a mídia está sendo novamente manipulada, dez anos depois da Guerra do Golfo, na qual jornalistas também foram isolados dos fatos.

O segundo problema da imprensa americana é sua dificuldade de entrar em Cabul.

Como o Taleban baniu a presença dos jornalistas estrangeiros, apenas a Al Jazeera está presente na capital afegã. Ontem, detalhes surgiram sobre a batalha das redes de TV abertas para obter cópia do vídeo entregue pelo grupo do terrorista Osama Bin Laden à rede do Qatar e transmitido no domingo nos EUA.

Embora a CNN tenha um acordo de exclusividade com a Al Jazeera, as TVs abertas, alegando uma situação de emergência, conseguiram ?captar? as imagens da declaração transmitidas pela rede árabe, divulgando-as repetidamente. ?Não há dúvida de que essas imagens da Al Jazeera têm uma importância nacional extrema?, disse o porta-voz da ABC, Jeffreu Schenider. ?Sentimo-nos no dever de divulgá-las para o povo americano e esse dever supera os objetivos comerciais que a CNN pretendia obter com sua exclusividade.?

O presidente de jornalismo da CNN, Walter Isaacson, informou ontem que, embora a rede tivesse os direitos de exclusividade sobre a fita, sua direção decidiu não processar as outras redes. ?Em tempos de guerra, não faremos uma confusão sobre o assunto.?"

"Pedido dos EUA divide TVs no mundo", copyright Folha de S. Paulo, 12/10/01

"Grandes redes de TV em todo o mundo se dividiram quanto aos pedidos do governo dos EUA para que limitassem a transmissão de comunicados do terrorista saudita Osama bin Laden e de seus porta-vozes.

Anteontem, Washington tornou público seus esforços para promover restrições aos discursos de Bin Laden, veiculados pela TV do Qatar Al Jazeera, que incitam os muçulmanos a aderir a uma guerra santa contra os ?infiéis? do Ocidente. Os americanos disseram desconfiar que a rede terrorista esteja enviando mensagens cifradas a seus integrantes por meio desses discursos.

Nos EUA, grandes redes como ABC, CBS, CNN, Fox e NBC disseram que vão avaliar os pronunciamentos antes de exibi-los na integra. Deixarão a partir de agora de retransmiti-los ao vivo e planejam apresentar edições editadas.

Em outros países, como no Reino Unido, as empresas de comunicação observaram não ter recebido pressão oficial para fazerem o mesmo e disseram que tratarão cada caso da maneira que acharem mais conveniente.

?Deixaremos que eles resolvam essa questão por si próprios?, afirmou um porta-voz do premie britânico, Tony Blair.

A japonesa NHK, por sua vez, disse estar apresentando apenas trechos curtos das falas de Bin Laden, para que ?não vire propaganda?. A TF1 francesa decidiu vetar a retransmissão ao vivo dos discursos para evitar mensagens codificadas.

O milionário das comunicações Rupert Murdoch foi um dos que responderam mais positivamente aos pedidos da administração Bush. Afirmou que suas emissoras, que se espalham pelo globo, não apresentarão discursos de Bin Laden se eles aparentarem carregar subtextos obscuros. ?Faremos aquilo que for poss&iacuiacute;vel, dentro de nosso dever patriótico?, declarou Murdoch, que controla a Fox nos EUA, além de várias emissoras na Ásia e jornais no Reino Unido e Oriente Médio.

Na Itália, o jornal ?La Repubblica? perguntou aos diretores dos principais canais de TV o que achavam do ?pedido? americano. Segundo o diário, nenhum canal pretende acatá-lo.

Pressão de Blair

O governo britânico não foi tão longe quanto o americano na recomendação contra a veiculação das idéias de Bin Laden. Mas a relação de Tony Blair com a mídia de seu país, que elogiara sua atuação como articulador da coalizão contra o terrorismo, já apresenta os primeiros sinais de desgaste.

O escritório do primeiro-ministro condenou duramente, em mensagem aos diretores-executivos da BBC, uma correspondente da TV no Oriente Médio, Katie Adie.

As queixas surgiram por que ela disse no ar que Blair viajaria a Omã. As autoridades haviam pedido sigilo aos jornalistas temendo que a segurança da delegação pudesse ser prejudicada com a publicação da informação.

Agências de notícia já veiculavam a agenda de Blair na região antes mesmo de a BBC divulgá-la. Adie estuda agora entrar com processo contra o governo.

Os porta-vozes de Tony Blair também mostraram contrariedade após jornais terem colocado ontem em suas primeiras páginas uma declaração dada pelo premiê a soldados em Omã, afirmando que um de seus filhos tinha intenções de entrar para a carreira militar. As autoridades acreditam que as reportagens violavam a privacidade do chefe de governo do Reino Unido."

    
    
                     
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