Domingo, 15 de Dezembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1067
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Nelson de Sá

Por lgarcia em 06/02/2002 na edição 158

CRÍTICA DIÁRIA

"Acampamento", copyright Folha de S. Paulo, 1/02/02

"O Fórum Econômico Mundial, pelo que o próprio anunciava, antes de começar, trataria de temas como a relação entre o terrorismo e a pobreza.

Não foi o que se viu, ao menos na CNN. Por exemplo, na introdução da âncora da cobertura, depois de mencionar ter visto Bill Gates no almoço:

– É como um acampamento. Todas essas pessoas se encontrando para falar de coisas muito importantes. Eu gostaria de citar a Iniciativa Global de Saúde, que fomenta a parceria entre empresas e governos. O presidente do laboratório Merck é um dos líderes do fórum este ano, e isso é algo com que o Merck está envolvido. Me chamem de ingênua, mas este é um encontro que traz à tona o melhor dos líderes empresariais do mundo.

Parece piada, mas era o tom da CNN. Mais para a frente, a emissora entrevistou uma funcionária da Gates Foundation, de Bill Gates.

O motivo foi a nova doação bilionária do dono da Microsoft, novamente às vésperas do fórum -e que favorece laboratórios farmacêuticos como o Merck.

Resposta da funcionária, à pergunta sobre se a doação levaria a remédios genéricos:

– Os laboratórios obviamente vão pôr seu dinheiro em pesquisa, então haverá custos. Alguns remédios serão bem baratos e alguns poderão ser caros.

Na Band, para citar outra cobertura, o registro de ontem do evento foi o seguinte:

– O presidente da companhia farmacêutica Merck afirma, na abertura do fórum: é preciso pôr um fim à discussão sobre a quebra de patentes e a redução do preço dos medicamentos, na adoção de programas eficientes de combate a doenças como a Aids. Para ele, a quebra de patentes não garante acesso dos doentes aos medicamentos.

O problema, como se vê, é ainda a quebra de patentes -que o Brasil conseguiu parcialmente, meses atrás, na Organização Mundial do Comércio.

E o Fórum Econômico Mundial é, ao menos na CNN, uma boa chance de contrapropaganda.

O Fórum Social Mundial mal foi mencionado na CNN, a não ser como contraponto -e negativo- ao econômico. Por exemplo:

– Nova York passou por um dos atos mais violentos imagináveis, seria muito inoportuno dos ativistas incitar qualquer tipo de violência. De fato, há um encontro global no Brasil e muitos dos eventuais manifestantes estão lá, então aqui está em paz."

 

***

"Fantástico", copyright Folha de S. Paulo, 31/01/02

"O circo em que se transformou a cobertura da morte do prefeito petista Celso Daniel, pela televisão toda, prosseguiu na entrevista do criminoso que havia fugido da prisão de helicóptero.

Rindo, com muita ironia nas palavras, o entrevistado perguntava, como a Record reproduziu ontem:

– Me deu a idéia de ir voando. Não foi fantástico?

Depois:

– O Escadinha serviu de inspiração, sem dúvida.

Em sua entrevista coletiva, ele agia e falava como mais uma celebridade da televisão -e assim era tratado.

Foi o bastante para mais uma escorregadela de Geraldo Alckmin, que proibiu entrevistas com presos, segundo a Jovem Pan. Como no caso do celular pré-pago, o governador paulista se expôs à toa.

Mas ele não deixa de ter as suas razões quando reclama que ?há um assédio enorme? da mídia sobre as investigações, levando a cenas como a da coletiva do criminoso. Em suma, que há um circo.

O emaranhado de meias-verdades e interesses políticos nas investigações começa a confundir e irritar a televisão.

A Globo falava ontem em ?quebra-cabeças?, para o qual a polícia ?só conseguiu peças que não se encaixam?. Melhor seria dizer que a própria televisão só conseguiu peças que não se encaixam.

Do suposto homossexualismo de Celso Daniel à suposta vinculação entre a fuga de helicóptero e o assassinato, não é preciso comprovação para chegar aos telejornais.

Pior, do delegado que é filho do senador pefelista Romeu Tuma ao advogado que é deputado federal do PT, passando pela polícia do governador tucano, as fontes dos noticiários se sobrepõem como políticos no horário eleitoral.

Ontem, ?uma nova pista?, no anúncio de Fátima Bernardes, indicava crime político. Pouco depois, outra pista voltava a vincular o crime aos fugitivos do helicóptero.

Em meio à cobertura, surgem sem parar outras investigações e novos e velhos sequestros em São Paulo, em tal quantidade que passaram a ter um registro quase cômico.

Por exemplo, um cativeiro ?estourado? revelou-se ?um casebre que tem até linha telefônica, puxada de um orelhão?. E a Globo anunciou que, num dos novos sequestros, ?o refém foi para o cativeiro de ônibus? com os sequestradores."

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