Terça-feira, 26 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº959

PRIMEIRAS EDIçõES > 4/6/02 - Todo mundo

Nelson de Sá

Por lgarcia em 12/06/2002 na edição 176

CRÍTICA DIÁRIA

"No Ar", copyright Folha de S. Paulo

"7/6/02 – Lula e o prisioneiro

– Está chegando aqui o futuro presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva!

Era a ?socialista? Luiza Erundina, ela que já foi desafeta de Lula, aclamando o presidenciável do Partido dos Trabalhadores, como reproduziu o Jornal da Record.

O tom de exaltação acompanhou o petista por quase toda parte, ontem, como se já estivesse no poder.

Foi um tucano, Tasso Jereissati, quem abriu o dia dizendo ao jornal ?Valor?, sem o saber, que Lula será eleito. O presidenciável agradeceu e se declarou ?amigo? do tucano.

Depois o peemedebista Itamar Franco se reuniu com o presidente do PT, José Dirceu, e com o possível vice de Lula, o mineiro José Alencar, e deu novas pistas de que pode -vai saber- apoiar o petista. E Lula falou também dele com elogios.

A adesão ao presidenciável parece brotar por toda parte, como comentou Franklin Martins, da Globo:

– Lula praticamente fechou o apoio de caciques importantes como Itamar Franco, Orestes Quércia, Íris Rezende e Roberto Requião e ensaiou um namoro com Pedro Simon. Essa turma pode até não ser a maioria do PMDB, mas tem voto em Estados importantes.

Sobre Erundina, que o aclamou, Lula seguiu com os carinhos e disse se tratar de ?uma pétala de rosa?.

E não foi só a suposta partidária de Garotinho quem recebeu o petista com brados de vitória, no Congresso. Crianças e adolescentes reunidos pelo Movimento de Meninos e Meninas de Rua bradaram obedientemente, ao vê-lo chegar:

– Brasil, urgente, Lula presidente.

Mais um pouco e, ainda no Congresso, o petista falou para integrantes de movimentos contra o racismo. Superior, chegou a elogiar FHC por sua política de direitos humanos.

Ao final, embriagado pelos apoios e adesões, bradou, ele também:

– Axé!

É sempre bom lembrar ao tetracandidato que faltam exatos quatro meses para o primeiro turno da eleição.

Enquanto isso, em seu palácio, FHC recebia Dercy Gonçalves, que ganhou mais de meia hora de audiência com o presidente da República.

Em outro momento, durante cerimônia que definiu o repasse de verbas para Brasília, FHC disse que gostaria de conhecer mais a cidade:

– Talvez eu esteja um tanto isolado. Presidentes do mundo moderno são prisioneiros de luxo."

6/6/02 – Contagem regressiva

No site da Globo, Franklin Martins foi cruel ao falar do espírito de FHC:

– Amigos de Fernando Henrique admitem que ele, apesar de prometer governar com o mesmo ânimo até o último dia, está em contagem regressiva. Também pudera. Metade do ministério é de técnicos de segundo escalão. E deu posse ao novo ministro da Integração Nacional, ex-secretário de finanças de Arapiraca.

Se FHC está sem ânimo, Lula age como se estivesse quase lá. Fala de si mesmo na terceira pessoa, por exemplo:

– Algumas pessoas falam que o Lula está mais moderado, mas não é isso.

Muda para um discurso mais contido, mas não nos elogios em boca própria:

– Eu estou mais responsável, mais maduro e com responsabilidade para governar um país como o nosso.

Quer governar desde já. Dá instruções ao presidente, no Jornal Nacional:

– O presidente da República precisa assumir a seguinte responsabilidade: nenhum funcionário do governo deveria falar qualquer bobagem que pudesse criar mais embaraço para o mercado.

Está aí o que acontece em campanha: Lula sai em defesa do mercado financeiro, contra Armínio Fraga.

Ecoou em toda parte, até em manchete de telejornal, a acusação de ?irresponsabilidade? do presidente do Banco Central, feita pelo responsável e maduro tetracandidato do PT.

?Responsável? foi a palavra do dia, no vocabulário do Lula de Duda Mendonça.

Foi como o petista descreveu na Record a aprovação, pelo Senado, da prorrogação da CPMF. Lula se mostrou preocupado com ?o país?:

– O país não pode ficar órfão de R$ 20 bilhões. Porque não é possível criar nada para substituir…

O âncora Boris Casoy, ao comentar, riu.

Em ?contagem regressiva?, FHC teve bem menos cobertura para os seus elogios ao Senado, pela aprovação da CPMF.

De todo modo, segue com vitórias seguidas a semana eleitoral dos governistas.

Além da CPMF, que garante recursos ao governo em campanha, vão sendo contidos os esforços dos antigovernistas do PMDB para criar problemas na convenção do dia 15.

Mais importante: o Jornal da Record registrou que mais uma pesquisa -e esta encomendada pelo PFL- apontou o crescente isolamento do tucano José Serra no segundo lugar.

5/6/02 – Abdução

Líderes do PMDB foram a FHC, segundo a CBN, ?para avaliar a tendência do partido?. Um eufemismo, como tantos usados pelos peemedebistas em negociação.

Por exemplo, o presidente do Senado saiu dizendo que ?o PSDB tem que agir mais? em prol da aliança. O presidente do PMDB, que ?o PSDB precisa flexibilizar?.

Agir mais, flexibilizar -os verbos foram outros, na versão jocosa de um peemedebista do lado oposto. Para ele, o ?poder de pressão? de FHC pode ?abduzir? os peemedebistas de regiões mais resistentes, como o sul.

Abdução que, ao que parece, começou pelo Nordeste, por Alagoas. É de lá que vem o novo ministro da Integração Nacional, como registrou a Jovem Pan.

O novo ministro de FHC, indicado pelos peemedebistas alagoanos, é o secretário das finanças de Arapiraca.

Também na Jovem Pan, Paulo Maluf declarou seu voto em Lula, dizendo não ter ?preconceito?.

Nem ele nem a embaixadora dos Estados Unidos, que afirmou à CBN que os investidores de seu país não se pautam pela liderança ou não do petista. Até comparou a trajetória de Lula ao ?sonho americano?.

Se Lula ganhou sinal verde da embaixada americana e o voto de Paulo Maluf, Ciro Gomes aceitou o de ACM.

Na Globo, o presidenciável do partido que um dia foi comunista declarou que aceita, sem problemas, o apoio declarado do pefelista baiano -e não só dele, mas de quem mais conseguir, do PFL.

Se sobrarem ?uns cacos? do PMDB, disse que também não vai recusar.

A quebra do PMDB e do PFL em ?cacos? acontece ao mesmo tempo em que o dólar e o risco Brasil, dia após dia, vão rompendo tetos. Nas manchetes do Jornal Nacional, depois do futebol:

– O risco Brasil sobe e o dólar atinge a maior cotação em sete meses.

Da manchete do Jornal da Record, mais carregada:

– Risco Brasil bate recorde.

E o presidente do Banco Central insiste que o nervosismo do mercado, até ?um certo pânico?, reflete o temor de que Lula mude a política econômica. E mais, só para o JN:

– Um pouco de paciência e o quadro vai se reverter.

A frase mais curiosa foi do ministro da Fazenda, ainda de manhã, na Globo:

– Parece redundância, mas é precipitado tomar atitudes precipitadas.

4/6/02 – Todo mundo

– Se liga Brasil.

É a Globo, nos intervalos comerciais, instigando audiência -sem parar- para a sua transmissão exclusiva da Copa do Mundo.

– O país inteiro está ligado na Copa.

É Galvão Bueno, no site da Globo, já chamando para o próximo jogo da seleção brasileira, contra a China.

O locutor que tem a única voz do Brasil na Copa comemorou no ar, de manhã, o que chamou de recorde de audiência no jogo contra a Turquia.

Comemorou ao lado de Luiz Felipe Scolari, o treinador que mais parece um contratado da Globo, para também ele comentar as partidas.

Comemoram todos juntos, Galvão, Felipão, Casagrande, Arnaldo César Coelho, Falcão, tanto a vitória quanto o recorde de audiência. Confundem-se todos, como se fossem da mesma corporação.

No longo debate que se seguiu aos jogos, Galvão e Felipão trocaram outras coisas além de elogios à seleção.

Combinaram ajudar um ao outro, por exemplo, cedendo imagens da transmissão para as orientações do treinador aos seus jogadores.

Num ambiente assim, em que a seleção se mistura com a sua cobertura jornalística, seria de esperar o ?recorde?. E não só de Galvão, mas depois, nos telejornais da emissora:

– O brasileiro dá mais uma demonstração de amor à seleção. Todo mundo acordou mais cedo para acompanhar a estréia na Copa… Trabalhadores cruzaram os braços. Não se tratava de nenhuma greve nem protesto. Era a seleção. Duas horas com os olhos grudados na TV. Foi um jeito verde-amarelo de começar o dia… O jogo termina e agora sim os funcionários voltam ao trabalho felizes.

Na verdade, a maior audiência da Copa de 98 -o recorde- foi na semifinal entre Brasil e Holanda, com 66 pontos, contra os 64 de ontem.

Mas era então, em 98, uma audiência não monopolista, que ainda incluía SBT, Band, Record, até Manchete.

Era uma outra era, quando se falava em hegemonia. Agora é monopólio mesmo.

A semana eleitoral que precedeu a Copa fechou com o esforço tucano de contrapor a sua pesquisa Vox Populi à da Sensus, que apresentou Garotinho em segundo lugar.

O Jornal Nacional deixou passar, desinteressado ou, quem sabe, cuidadoso.

O Jornal da Record deu, ouvindo José Serra -o segundo- e registrando que os demais preferiram nem comentar."

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