Segunda-feira, 20 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

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Nelson de Sá

Por lgarcia em 26/06/2002 na edição 178

CRÍTICA DIÁRIA

"No Ar", copyright Folha de S. Paulo

"21/6/02 – Quinta-feira negra

A pesquisa do Ibope foi noticiada com maestria no início da tarde, na Globo:

– José Serra, do PSDB, tinha 16%, passou para 19% e manteve o mesmo número.

Mas a constatação era uma só: as semanas correm e Serra não sai do lugar.

E foi assim que se fez a quinta-feira negra -expressão usada por Boris Casoy.

Ao menos foi assim que avaliou, entre outros, o site da Globo. A Bolsa abriu com alta, mas ?despencou depois da divulgação da pesquisa, que não mostrou mudanças?.

E não ficou nisso. A manchete do Jornal da Record:

– Moody?s rebaixa o Brasil. Dólar sobe 2,5%. E o risco país ultrapassa o da Nigéria.

Até a agência de classificação Moody?s justificou-se com a campanha eleitoral, que estaria provocando ?incerteza? nos investidores.

Para além do Ibope, havia na quinta-feira negra a sombra da aliança do PT com o PL, de José Alencar.

Foi sair a aliança para uma denúncia ?vazar?, expressão do próprio autor. João Francisco Daniel, se explicando:

– Esse processo era para ficar em sigilo, mas como houve vazamento… Como cidadão, eu tenho o dever de informar ao povo brasileiro que o PT nada difere dos outros partidos.

A acusação foi destaque por toda parte. Ouviu-se no Jornal Nacional, por exemplo, o promotor dizer que ?as provas neste caso são contundentes? -embora ele só tenha mencionado depoimentos.

O vice por quem Lula tanto lutou, José Alencar, saiu-se bem no teste da primeira denúncia. Clamou, na Jovem Pan:

– Não tem o menor sentido. Todos conhecem o Lula. O Lula disputou três eleições e é uma liderança há 22 anos, desde que fundou o partido, e antes já era uma liderança sindical respeitável. Não há um arranhão nem moral nem ético na vida do Lula. O Lula é um modelo em termos de comportamento. Eu não admito que haja isso, de forma nenhuma.

Nada mal, para o primeiro dia de um vice. Um vice que ainda traz com ele parte de Minas. Até Aécio Neves.

O tucano, depois de chamar José Alencar de ?digno, correto, de enorme respeitabilidade?, saiu-se com esta, sobre a denúncia contra o PT:

– Sou adepto do fim do denuncismo infundado. O Brasil perde muito quando o tempo que poderia estar sendo usado no debate de idéias é usado para a troca de denúncias.

Para encerrar:

– Sou da corrente que não advoga o terrorismo.

20/6/02 – Abuso de poder

Começou no Jornal Nacional de anteontem, que expôs os diálogos levantados pelo Ministério Público -de traficantes presos em Bangu 1, encomendando pelo telefone celular um míssil.

Na sequência, William Bonner, muito sério:

– A governadora do Rio, Benedita da Silva, não fez comentários. Ela se limitou a falar dos promotores, que impediram a entrada do secretário da Justiça no presídio.

E a petista surgiu bradando não contra o míssil, não contra o tráfico, mas contra o ?abuso de poder? do Ministério Público. Nada bom, para a segunda maior vitrine do PT.

E a coisa piorou ontem. A Globo entrevistou de manhã o secretário da Justiça:

– Por que ainda não foram instalados bloqueadores de celulares?

– Estão para ser. Nós recebemos o Estado com poucas verbas…

À noite, no JN de ontem, o cerco prosseguiu, exclamando já nas manchetes o comércio de ?granadas de guerra? no presídio. E mais:

– A governadora Benedita da Silva se defendeu das acusações de que não estava tomando providências para acabar com o uso de celulares. Disse que esperava apenas uma autorização da Justiça. Ela voltou a criticar o Ministério Público.

E entra Benedita dizendo que ?não era preciso uma operação dessa natureza?.

E a coisa não parou aí. No mesmo JN, FHC abriu a semana antidrogas diante de atores de ?O Clone?, além da autora Glória Perez, que ganhou diploma e beijos do presidente.

Na cerimônia, segundo outros relatos, ele contou como a novela das oito ajudou a ?despertar a consciência nacional? -e como seu governo vai lutar contra o ?mal? que é o tráfico.

Para encerrar, mais uma vez, William Bonner:

– O governo federal autorizou a liberação de R$ 160 mil para a instalação de bloqueadores de celular no presídio de Bangu 1. Amanhã serão mais R$ 160 milhões do Plano Nacional de Segurança. São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais receberão a maior parte do dinheiro.

Um massacre.

Com tudo isso, ontem pode ter sido o melhor dia na campanha de Lula. Estava lá, na última manchete do mesmo JN:

– José Alencar vai ser o vice na chapa de Lula.

Até a Igreja Universal aceitou Lula, deixando Garotinho ainda mais isolado e com a candidatura sob risco.

De braço dado com seu empresário conservador, o petista vai atrás do primeiro turno, a sua maior chance.

19/6/02 – Gostar de Ciro

Disse Alexandre Garcia:

– Os caminhos de Minas têm uma lógica própria.

Disse o líder tucano Jutahi Jr.:

– Minas Gerais têm as suas peculiaridades.

Fala-se em toda parte da idiossincrasia dos mineiros, como se não fosse, no caso, o tão conhecido Itamar Franco.

Dele mesmo, iniciando outra nota tortuosa que divulgou para confundir, não explicar:

– Os mineiros me conhecem.

Os brasileiros o conhecem. Até Alexandre Garcia, o afável, está perdendo a paciência:

– Itamar, depois de dizer que apóia Lula, agora anuncia que apóia o tucano Aécio Neves. Depois de ter perdido a convenção nacional e a estadual, não aceitou ficar no seu partido.

São os caminhos de Itamar que têm lógica própria, toda ela personalista. Escaldado, Aécio, neto de Tancredo Neves, deixou para confirmar a candidatura a governador só hoje.

Lula não foi ao quase debate de ontem por força de compromissos pessoais, pelo que disse em carta à organização.

Deixou a sensação de que, distante na frente, age sob as ordens de Duda Mendonça e não quer se expor tanto.

Os outros três foram, ganhando transmissão ao vivo na Globo News e Band News, além de exposição nos telejornais.

O palanque serviu sobretudo a Serra, que se apresenta mais e mais como governista. Disse que a dívida pública é alta, mas ?manejável?, e que o ?terrorismo? vem do outro lado.

Do outro lado, Ciro Gomes o chamou de ?inescrupuloso? e outras coisas. Nenhum palavrão -que a TV tenha reproduzido. Como Garotinho, Ciro grita ?conspiração? sem parar.

Insinuou que Gugu recebeu o tucano, em seu programa, para ganhar um canal. E que Nizan Guanaes virou marqueteiro com a mesmo paga.

Não devia se desesperar tanto. O veto à sua participação nas inserções da Frente Trabalhista foi o melhor que aconteceu à sua campanha até agora.

Patrícia Pillar, linda, sorriso franco, diz que ?o Ciro quer promover uma distribuição de renda mais justa?. E o telespectador acredita. A atriz diz:

– Os poderosos sabem que, quanto mais você conhecer o trabalho e as idéias do Ciro, mais você vai gostar dele.

E o telespectador já quase gosta de quem ela gosta.

Continuasse Ciro na tela, com Paulinho, Leonel Brizola, com Roberto Jefferson, e o quarto lugar estaria certo. Agora Patrícia pode até ser eleita. Deviam pôr seu nome na cédula, jamais os de Ciro e seu vice.

18/6/02 – Previsão de jogo

Duda Mendonça correu e programou uns poucos comerciais nos intervalos do capítulo final de ?O Clone?. Faz o que pode, com as inserções que tem na mão.

Melhor faz FHC -ou, quem sabe, Nizan Guanaes. Ele entrou no Fantástico da noite anterior ao jogo do Brasil contra a Bélgica para falar da medida provisória do futebol.

Glória Maria anunciou

– O esporte brasileiro começa uma nova fase.

Entra o presidente no Fantástico para prometer, como efeito da medida provisória:

– O dirigente com responsabilidade. O torcedor podendo opinar. E o atleta tendo condições para se desenvolver e saber que ele vai ser respeitado na sua profissão.

E não só. Prosseguiu FHC, como se não tivesse demorado meses, anos, para agir:

– Não tem que ter bancada de bola nenhuma. Nós temos que trazer a bancada das pessoas que querem ver um esporte decente, um esporte limpo, honesto. Não pode misturar isso com patifaria.

O mesmo discurso reapareceu no Bom Dia Brasil, minutos antes do jogo. Também estava lá, a minutos do jogo, o presidente do Banco Central.

Armínio Fraga falou longamente, aparentando estar de volta ao comando. No fim, pergunta e resposta:

– Eu gostaria que o senhor fizesse uma previsão para o jogo do Brasil.

– Brasil, 3 a 1.

É o que se poderia chamar de sinergia -entre futebol, televisão e eleição.

Uma manchete do Jornal Nacional, no sábado:

– O presidente Fernando Henrique manifesta apoio público à candidatura do ex-ministro da Saúde.

Uma novidade, em meio à cobertura de outro fato inesperado, outra manchete:

– O PSDB oficializa José Serra como candidato à Presidência da República.

A convenção dos tucanos foi encenada com todos os detalhes das convenções americanas, que são grandes eventos e costumam resultar em bons percentuais para o candidato.

Mas, com toda a grandiosidade cênica da convenção do PSDB, com direito até a teleprompter transparente, próprio para a transmissão de TV, o destaque foi aparecer na outra convenção, do PMDB.

Foi lá que se atracaram os seguranças com integrantes do MR-8. Foi lá que Rita Camata falou de improviso.

Enquanto isso, Serra ensaiava uns passos toscos de dança -em imagem do JN."

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