Sexta-feira, 15 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

PRIMEIRAS EDIçõES > 25/6/02 - Símbolos

Nelson de Sá

Por lgarcia em 03/07/2002 na edição 179

CRÍTICA DIÁRIA

"No ar", copyright Folha de S. Paulo

"28/6/02 – Explicações

Anteontem no JN, o ministro da Justiça fechou a cobertura sobre a investigação de petistas -cobertura que não deu a investigação de Lula- em tom agressivo.

Miguel Reale Jr. respondia às acusações do PT de uso eleitoral da Polícia Federal:

– Eles querem esconder as irregularidades que estão aí e que estão efetivamente lesionando a imagem do partido.

Lula, em resposta ontem, chamou Miguel Reale Jr. de ?leviano? para baixo. O petista, numa entrevista para rádio:

– O ministro deveria estar dando resposta sobre o procedimento da PF, que está me investigando há dois anos.

A investigação de Lula já estava num jornal anteontem, a ?Gazeta Mercantil?, mas a Globo só foi entrar no assunto um dia depois -e ainda assim de forma contida. No Bom Dia Brasil, por exemplo, quase justificando as ações:

– A assessoria da PF explicou que não havia um inquérito, mas, sim, um procedimento de investigação… A investigação foi suspensa até que apareça um fato novo…

Como se a investigação não tivesse sido suspensa pelo escândalo que causou, pelo Watergate que pode ser.

Mas agora todos querem explicações. Até Reale Jr., antes tão agressivo, foi manchete do Jornal da Record:

– Ministro da Justiça quer que a PF explique por que investigou Lula.

Até o tucano José Serra, também na Record:

– A PF tem que dar explicação de tudo o que está acontecendo. Há coisas realmente estranhas e eu vou querer saber as explicações.

Até a Polícia Federal quer explicações de si mesma, segundo a manchete do JN:

– PF abre sindicância para saber se houve irregularidade na investigação de Luiz Inácio Lula da Silva.

Em meio à cobertura do JN, que conseguiu registrar que nem havia investigação de Lula, Reale Jr. teve a última palavra outra vez. Cobrou ?retratação? do petista.

Diante do choque da investigação de Lula, quase passou despercebida a mudança na meta de inflação, determinada por Pedro Malan, com elogios imediatos de Serra.

Como diz Boris Casoy, em ano eleitoral é preciso perguntar:

– A quem interessa?

Ciro Gomes, de início, buscou preservar Patrícia Pillar -em tratamento. Mas ele demorou a crescer e, no último programa, apelou de vez, associando sua imagem à da atriz.

27/6/02 – Ser brasileiro

Dario, o centroavante que o general presidente pediu na seleção em 1970, bradou simpaticamente que se orgulha de ser brasileiro.

Foi na Globo, minutos depois da transmissão da semifinal. Galvão Bueno entrou na sequência, aparentando certa emoção:

– Eu também me orgulho de ser brasileiro.

E emendou:

– Felipão disse, quando ganhou o jogo contra a Inglaterra: isso é para mostrar a força do brasileiro e que sirva -vou repetir as palavras do técnico- que sirva de exemplo.

E tome discurso político, da boca do narrador que monopoliza, na Globo, os jogos da seleção brasileira:

– Que não seja só a força que o brasileiro tem no futebol, não. É a força que o brasileiro tem como nação, como país, como realização. Porque tem força realmente para isso. Basta um pouquinho de ajuda de cada um…

Pequena pausa.

– E a ajuda de certas pessoas que têm o poder nisso tudo.

Até que não foi mal, a única voz do Brasil na Copa. Foi quase crítico. Mas Dario e ele, diante dos olhos do país, deram a deixa para um dia de corrida ao uso político da vitória.

FHC, em mangas de camisa, saiu pelo gramado do Palácio da Alvorada, ao lado de um Pedro Parente sem gravata, e foi aos turistas e às câmeras para distribuir elogios a Luiz Felipe Scolari, Ronaldo, Cafu, até Gilberto Silva.

Chegou a autografar, ?como um craque?, segundo a Cultura, a camiseta apresentada por um torcedor que avançou sobre o espelho d?água. E declarou FHC, como um jogador de futebol, no Jornal Nacional:

– Não dá para botar salto alto… Mas vamos vencer.

Foi quase um happening. Do outro lado, Duda Mendonça desta vez não dirigiu para Lula uma encenação à altura daquela que o colega Nizan Guanaes fez com FHC.

O petista acompanhou o jogo ao lado do também candidato José Genoino e de incontáveis partidários -e câmeras, claro. Depois do gol, saiu aos pulos com Genoino e fez o sinal da cruz, também ele como se fosse ?um craque?.

Argumentando que era ?dia de futebol?, recusou-se a falar das denúncias de propina. A única opinião política que tiraram dele, no Jornal da Record, foi que ?Felipão recuperou os fundamentos? do futebol, mas ?Malan não?.

O dia só não foi de vitória dos tucanos porque José Serra, em vez de futebol, preferiu falar que ?a economia está sólida?.

26/6/02 – Contracampanha

Boris Casoy disse não acreditar que FHC ou José Serra tenha ordenado a ?patifaria? da escuta telefônica de líderes do PT.

Mas o PT acredita e está ?indignado?, pelo que diz Franklin Martins:

– Os ?serviços de informação? do PT, sempre muito diligentes e presentes em boa parte do coração do sistema bancário e da administração federal, já receberam ordens para sair a campo, coletando material para uma contracampanha.

Mais:

– O comando da campanha de Lula decidiu vazar o resultado de investigações anteriores. A avaliação é que, se o PT não mostrar as garras, os governistas tomarão gosto.

O primeiro ?resultado? já entraria no ar nos próximos dias. Enquanto isso, do outro lado, a primeira carga antipetista prossegue, na CBN:

– O procurador-geral da República recebe documentos relativos à denúncia de um esquema de propina na prefeitura administrada pelo PT.

Para Serra, no site da Globo, ?o PT tem que parar de acusar, tem que dar explicações e tentar se defender?.

E ainda falta mais de um mês para o horário eleitoral.

O candidato tucano Geraldo Alckmin entrou ao vivo, no Cidade Alerta:

– São 12,8 quilômetros de metrô. Finalmente assinamos, aqui em Washington.

Foi em meio à cobertura da greve dos motoristas de ônibus. Alckmin falou dela, instigado por Luiz Datena, e deu o metrô como única solução para o trânsito de São Paulo.

Na Globo não foi diferente. Desde o dia anterior, as cenas da greve se concentravam no metrô, não nas ruas. No SPTV, no início da tarde:

– Muita gente que não conseguiu ônibus decidiu usar o metrô. Hoje, o governador Geraldo Alckmin está em Washington, tentando conseguir um empréstimo para mais uma linha do metrô.

É por essas que um candidato à reeleição já sai na frente.

A pesquisa Vox Populi foi destaque no Jornal Nacional e no Jornal da Record -e um comercial de Ciro Gomes foi destaque nos intervalos.

A inserção dizia, como se estivesse a ecoar a pesquisa:

– Não tenha dúvida: Ele vai vencer.

Ciro tem chance -era o que martelavam os intervalos. Boris Casoy, diante da pesquisa, só concedeu o seguinte:

– O segundo lugar de José Serra ainda não está com toda essa certeza não.

25/6/02 – Símbolos

FHC foi ao prédio da prefeitura do Rio, posou diante das janelas destruídas, mostrou cartuchos de balas e gastou o verbo:

– Estas balas que estão aqui são o testemunho de que passou de tudo que é limite.

Depois:

– Não dá mais!

Depois:

– É um símbolo… É para mostrar que há um outro poder no Brasil. Não há!

Mas ficou, ele também, nos símbolos -ação nenhuma.

E tome ataque do âncora do Brasil Urgente, Roberto Cabrini, que bradou que o governo FHC só aparece quando já se passou do limite.

Luiz Datena reestreou no Cidade Alerta atirando para o outro lado. Mostrou a petista Benedita da Silva dizendo, com o titubeio de sempre:

– É uma situação localizada.

E Datena:

– Localizada não é. Acontece todo dia nos morros.

Foi mais um bom dia para o ?poder paralelo? nos programas popularescos. Não foi um bom dia para o presidente tucano nem para o ?poder eleito? da governadora.

Ainda assim, nada que se comparasse ao uso que fez o JN, semana passada, dos titubeios de Benedita.

Cesar Maia, no JN:

– É ato de terror. Quando os atos de violência têm por finalidade a intimidação, deixam de ser crime organizado para tornar-se terrorismo.

E exigiu o Estado de Defesa. A senha histérica do ?terror?, aqui também, serve aos têm outras agendas, não contra a violência -contra direitos.

Seguindo no ?terror?, as cenas da greve dos ônibus em São Paulo, com milhares na estação Sé do metrô, prestaram novo serviço eleitoral.

Na CBN, Marta Suplicy apontava o dedo para o vice de Ciro Gomes, Paulinho:

– Gostaria de saber o que o Ciro pensa em fazer com essa pessoa, que põe a política eleitoral acima da cidade. O que ele fez é indigno.

Paulinho, talvez por coincidência, foi estrela do programa do PTB, horas depois.

CBN, meio da tarde:

– O risco Brasil apresenta queda agora. Começou a cair depois da divulgação de uma pesquisa indicando crescimento de José Serra.

É aquela pesquisa -antes tão questionada pelos tucanos- da Confederação Nacional dos Transportes. Vale registrar que o pefelista que presidia a CNT acabou de virar vice do tucano Aécio Neves."

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