Quinta-feira, 14 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

PRIMEIRAS EDIçõES > 2/7/02 – Dois presidentes

Nelson de Sá

Por lgarcia em 10/07/2002 na edição 180

CRÍTICA DIÁRIA

"No Ar", copyright Folha de S.Paulo

"5/7/02 – Medo

?Terror nos EUA?, proclamou a Bandeirantes, às pressas.

Um ministro de Israel foi na mesma linha, no canal de notícias da BBC:

– Quando um atirador abre fogo contra passageiros da El Al (empresa aérea de Israel) num aeroporto internacional, você tem que presumir que é um ato de terrorismo.

Não tão rápido na conclusão, reagiu o prefeito de Los Angeles. Não haveria indícios, segundo ele, de que o tiroteio teve ?conexão com terrorismo?.

Mas ?foi um ato terrorista?, replicou ainda mais definitivamente um comunicado da El Al, ainda na BBC.

Entende-se a pressa da Band e a conclusão israelense.

Aguardavam todos, sobretudo nos Estados Unidos, um ataque assim. Mas foi exatamente nos EUA que a notícia foi tratada com mais cautela. Até na açodada CNN, que não demorou para registrar:

– Parece ter sido um incidente isolado.

Mas o dia era de nervos à flor da pele. Não muito longe do mesmo aeroporto de Los Angeles, caiu um monomotor -e de novo a Band recorreu ao bordão ?terror nos EUA?.

E de novo se ouviu, agora da parte do FBI, que ?a queda do avião parece ser fato isolado?. Mas havia mais -e aí a CNN cedeu à tensão.

Não afirmou nada definitivamente, mas registrou que um iraquiano com ?relações familiares muito próximas com Saddam Hussein? havia sido preso na Flórida.

Um ?enteado?, afirmaram os telejornais brasileiros, que além de tudo teria procurado aulas de vôo como os terroristas do 11 de setembro.

A televisão prosseguiu assim, aos sobressaltos sem fim. Mas, ao menos até a conclusão desta coluna, não havia nada além de medo.

Ou, num sinônimo: terror.

A Globo ainda evita falar das pesquisas que apresentariam o crescimento de Ciro Gomes, mas já cobre a disputa direta com José Serra. Afinal, os dois parecem estar num confronto só deles, nos últimos dias.

Serra, anteontem, acusou Ciro de ameaçar com calote da dívida pública, travestido de ?renegociação?. Ontem, Ciro responsabilizou Serra pelo crescimento da dívida.

No seu canto, como se quisesse voltar à briga e retomar o discurso de oposição perdido para Ciro, Lula saiu dizendo, em pleno Jornal Nacional:

– Nós não queremos a lógica dos fundamentos econômicos deles (do governo).

E pouco importa o mercado.

4/7/02 – Não houve feridos

Depois de um dia de alegria só para FHC, governadores e prefeitos pelo país, em São Paulo, Bahia, Rio Grande do Sul, Paraná, saíram em busca das migalhas de televisão com os ?heróis? -como gosta de dizer o Jornal Nacional.

Mas Geraldo Alckmin, Marta Suplicy e os outros tiveram menos ?heróis? para cultuar e bem menos alegria. Na expressão da Globo:

– Um episódio triste em meio à festa.

Um episódio para mostrar a quantas anda a sede irrefreável de alegria dos brasileiros. Da Globo, mas não do JN, que escondeu o episódio:

– Os pentacampeões dançavam, cantavam, nem parecia que estavam sem descansar há 30 horas. Encontraram uma das maiores e mais alegres recepções que o Rio já viu.

Só que o tempo foi passando e, lá pelas 2h:

– A poucos quilômetros de Copacabana, o destino final, onde milhares aguardavam, os jogadores exaustos decidiram embarcar num ônibus de volta ao aeroporto.

E começou:

– Os fãs não entenderam. Atacaram o ônibus. Jogaram pedras. Quase todos os vidros foram quebrados.

Para encerrar a narrativa, a Globo deu uma frase de quebrar o encanto:

– Não houve feridos.

E eram os ?heróis?. Na Band, para coroar:

– O ônibus seguiu protegido pela polícia.

A CBN destacou uma declaração de José Serra, sobre discussões de tucanos e peemedebistas para a fusão das duas legendas -com a ressurreição do velho e esquecido MDB.

Boris Casoy abriu um sorriso de ironia e perguntou:

– Mudaram os tucanos ou mudou o PMDB?

O suposto crescimento de Ciro Gomes, de que se fala abertamente nos telejornais, mas não se noticia, estaria levando ?terror? aos tucanos.

Ao que parece, a Serra está. O presidenciável tucano se recusava ontem a falar de pesquisas conhecidas apenas nos bastidores -e acusava oposicionistas de culpa pela crise financeira, por seu ?catastrofismo? e ?ignorância? na abordagem da dívida pública.

Dívida pública que é o tema preferido de Ciro -e que Lula abandonou, acuado que foi pelo mercado.

Para quebrar de vez a polarização de Serra e Lula, Garotinho retomou parte da Assembléia de Deus e a Igreja Universal do Reino de Deus.

Um bispo evangélico dizia que Garotinho será Davi e vencerá ?o gigante?.

A Globo noticiou a venda do mandato por um vereador no Paraná. O pagamento, segundo o vereador vendido:

– Ele me deu R$ 2.500, mais R$ 500 por mês

3/7/02 – O melhor país do mundo

– O Brasil sempre foi e sempre será o melhor país do mundo.

Era o lateral Roberto Carlos, em meio à ?festa no palácio?, na expressão do Jornal Nacional, em manchete.

As 300 mil ou 500 mil pessoas que receberam os jogadores, correndo atrás do trio elétrico da Ambev ou dançando diante do parlatório, fizeram o que FHC chamou de maior festa de seu mandato.

Outros descreveram como a maior festa da história de Brasília. No dizer do treinador Luiz Felipe Scolari:

– Uma festa maravilhosa, fantástica.

Acrescentou o presidente da República:

– Estou igual ao Brasil. Só alegria.

Se o preço a pagar pela alegria é a conclusão de que o Brasil é o melhor país do mundo, não há problema -ao menos para a televisão, que concedeu anistia temporária.

Até Boris Casoy, diante das imagens da festa, saiu em defesa da felicidade geral, inclusive dos políticos:

– Muita gente teme o uso político. Vale lembrar que depois da derrota na França o presidente Fernando Henrique recebeu a seleção.

E mais, ?até no Primeiro Mundo?, segundo o âncora do Jornal da Record, é tradição o chefe de governo receber a seleção nacional.

Talvez deva ser assim. Mas, diante de um FHC que chega a tirar a taça das mãos de Cafu para beijar, é impossível negar o uso eleitoral.

Das centenas de milhares de brasilienses, pouco mais de mil tiveram acesso ao palácio -dentre eles a vice de José Serra, Rita Camata.

Longe do palácio e da felicidade geral, Lula fez na Bahia um discurso de rua meio angustiado, preocupado em ser punido pela Justiça pelo ato, proibido por lei.

E ele ainda se mostrou agradecido à mesma Justiça, que livrou de investigação o presidente do Partido dos Trabalhadores, José Dirceu.

Para os amigos, ?só alegria?. Para os outros, a angústia com a Justiça.

FHC buscou se justificar em seu programa de rádio, Palavra do Presidente:

– Eu recebo a seleção, aqui no palácio, como presidente. Mas eu recebo como cidadão, como brasileiro e em nome de todos os brasileiros.

Da Bahia, Lula não deve ter concordado.

Fim da Palavra de FHC:

– Somos campeões e vamos continuar sendo campeões.

2/7/02 ? Dois presidentes

Encerrada a final da Copa, quando já se imaginava que o monopólio de imagem cederia um pouco, lá estava Fátima Bernardes:

– Nosso sonho era entrar no ônibus da seleção. E hoje vamos conseguir. Pedimos muito e conseguimos a autorização.

E entra ela no ônibus, para ouvir -quem mais- o homem a quem chamou de presidente, nada mais.

O presidente reagiu como se tivessem ligado a câmera para ele falar à vontade. Ricardo Teixeira, antes um desafeto, de voltas às graças do monopólio do futebol:

– Eu gostaria de passar duas mensagens. A primeira é que toda esta vitória é dedicada ao povo brasileiro, que merece, pelo sacrifício que passa, esta festa. Os jogadores ficaram muito felizes com isso.

Mas tinha mais:

– E a segunda pessoa a quem nós fazemos questão de oferecer isso é você.

?Você? era Fátima Bernardes, ela mesma.

– Porque nós elegemos você a nossa musa, da seleção brasileira. Isso foi agora, aqui, votaram. Você fez uma reportagem honesta, limpa, mas acima de tudo com coração.

Aí era demais para Fátima Bernardes suportar. Ela se virou e só comentou, aparentemente sem ironia:

– Eu estou envergonhada agora.

A imagem voltou para Galvão Bueno, que entrou com outra atração:

– Nós vimos a festa dos torcedores. Tem um torcedor que quer também mandar uma mensagem para a seleção, o presidente da República, Fernando Henrique Cardoso.

E tome FHC, como se tivessem ligado a câmera para ele falar à vontade:

– Tive a honra de falar com Ricardo Teixeira, que é o presidente que está por lá.

Até FHC fala em presidente, nada mais. E seguiu o presidente da República:

– Eu falei com o Ronaldo, falei com o Marcos, com o Cafu, enfim, com todos os jogadores, e reina uma grande alegria. Eles dizem que fizeram um esforço pelo Brasil.

Corte rápido e FHC brada:

– O Ronaldo é o maior do mundo!

Aplausos, aplausos. E volta Galvão, feliz:

– Está aí, assumindo sua condição de torcedor também o presidente da República.

No Jornal Nacional, na primeira manchete:

– O vôo do penta já está a caminho do Brasil. Os heróis do mundial desembarcam em Brasília de manhã."

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