Segunda-feira, 18 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

PRIMEIRAS EDIçõES > 9/7/02 - Ciro, o calote e a musa

Nelson de Sá

Por lgarcia em 17/07/2002 na edição 181


CRÍTICA DIÁRIA


"No Ar", copyright Folha de S. Paulo


"12/7/02 – O tetracandidato evoluiu

– Parabéns pela grande representação da mulher brasileira.

Era Lula, para a musa da Copa, Fátima Bernardes, desconcertando a apresentadora do Jornal Nacional e tomando conta da cena.

O petista, em sua quarta campanha presidencial, está em casa diante de perguntas sobre a sua falta de ?experiência administrativa?. Sabe as respostas de cor, parece inabalável em sua segurança.

Até quando se aborda indiretamente a falta do saber escolar, quando se diz que outros ?estudaram geografia, história?, ele reage com bonomia.

Até a eventual corrupção em Santo André:

– Se tiver culpado, tem que ser punido.

Até as alianças inesperadas e heterodoxas com o PL ou Orestes Quércia:

– Não tem problema. A arte da política é conversar.

Até a velha defesa petista do calote da dívida externa. Aí, sorrindo, Lula diz que ?o PT evoluiu? e pronto.

– Já em 98 a gente não falava mais disso.

Se alguém queria saber por que desta vez muitos acham que Lula tem mais chance, o Jornal Nacional mostrou.

José Serra faz o possível para escapar da armadilha do veto de FHC à intervenção no Espírito Santo. No JN, disse que foi um erro -do procurador-geral, não do presidente.

No site da Globo, lançou indireta contra Ciro e seus pefelistas recém-conquistados:

– Faço um apelo público ao PFL. Que não dê legenda ao senhor Gratz, suspeito de comando do narcotráfico.

Falava do presidente da Assembléia Legislativa capixaba, ao lado de sua vice capixaba. Faz o que pode.

De quebra, ainda no JN, reclamou do aumento do gás.

É preciso trazer Patrícia Pillar de volta, correndo.

Foi Ciro Gomes aparecer sozinho, sem a mediação da atriz, para sair pela TV chamando adversários de ?verme? ou, ontem, ?desonesto?.

É como ele trata quem o compara a Collor.

Ciro soltou o insulto ao lado do ex-ministro collorido Antonio Cabrera, seu candidato em São Paulo, e da tropa de choque sindical de seu vice, Paulinho -a mesma que fez de Antonio Rogério Magri um ministro collorido.

Tropa que, segundo a rádio Bandeirantes, tumultuou o centro de São Paulo e levou comerciantes a fechar as portas com medo de arrastão.

Ciro culpou a imprensa.


11/7/02 – Desastroso

De cara, Fátima Bernardes questionou o tucano José Serra como alguém que ?não agrega?.

Na sequência, no dizer de William Bonner, Serra surgiu como alguém sempre ligado a ?dossiês? contra adversários eleitorais.

No dizer de Fátima Bernardes, ele é ligado a Ricardo Sérgio, que foi seu arrecadador e depois virou diretor do Banco do Brasil -o que pode não ser crime, mas seria ?antiético?.

No dizer de William Bonner, o ex-ministro da Saúde ?errou? no combate à dengue e ?o resultado foi desastroso?, com dezenas de mortes.

Não sobrou quase nada do presidenciável tucano, no fim dos pouco mais de dez minutos de sua entrevista no palco do Jornal Nacional.

Não, a Globo não é governista, foi a mensagem de um JN que, relativamente, tratou Ciro Gomes e Anthony Garotinho até com carinho.

José Serra pagou por 89, pela edição do debate, ultimamente pelo BNDES -e por tudo mais, desde sempre.

De Serra, a Globo cobrou Ricardo Sérgio. De Garotinho, cobrou as fitas. De Lula, hoje, deve cobrar Santo André.

E nada de Beach Park.

Um dia depois de declarar publicamente o seu apoio a Serra, o apresentador Gugu Liberato baixou no Ministério das Comunicações.

Segundo a Jovem Pan e a Radiobras, foi dizer que pretende criar um canal de notícias em TV aberta.

Seria para ?engrandecer o Brasil? com informação para todos e ?não só para quem assina TV a cabo?.

Foi o dia errado.

Franklin Martins cobrou no Jornal da Globo:

– Ficou claro que Fernando Henrique combinou uma coisa com Miguel Reale Jr. e voltou atrás. Por quê?

Cobrou na CBN:

– FHC deve explicações.

Acuado, FHC respondeu em carta a Reale Jr. divulgada nos telejornais. Disse que o ex-ministro não ?deu os elementos para que formasse juízo? e que nem pediu audiência para tratar da intervenção.

Chegou a chamar Reale Jr. de traidor, num ataque que raras vezes se viu na TV.

Mas quem ficou com a última palavra foi Reale Jr. Respondeu, segundo Fátima Bernardes, que ?há dois meses discutiu com o presidente, numa audiência, a intervenção?.

Em suma, acusado de traição, acusou de falta com a verdade. Tudo no Jornal Nacional.


10/7/02 – Diante de Garotinho

As entrevistas do Jornal Nacional, agora resta claro, são menos para conhecer os presidenciáveis e mais uma prova para William Bonner e Fátima Bernardes.

O teste de ontem, feito com o profissional de populismo que é Anthony Garotinho, foi demais para ambos.

Diante de perguntas hesitantes sobre segurança pública no Rio e aumento do salário mínimo, seus temas preferidos, o presidenciável não demorou a dominar o palco do JN.

Na primeira questão, repetiu números de seu governo e disse que Benedita da Silva perdeu a autoridade. Na segunda, prometeu elevar o mínimo como fez no Rio -e disse que FHC, que prometeu, não fez.

Não se ouviu uma única intervenção que constrangesse Garotinho, pelo contrário. Ele fez seu discurso como faria no horário eleitoral, livre -até olhando para a câmera, não para os apresentadores.

O primeiro sinal de resistência só foi surgir nos últimos segundos, quando Bonner cobrou e tirou de Garotinho a autorização para mostrar fitas censuradas pelo candidato -supostamente revelando corrupção.

E já anunciou que o JN vai pôr as fitas no ar. O âncora reage. Só precisa de tempo.

Foi quase unânime, de Boris Casoy a Franklin Martins, de Rita Camata a Geraldo Alckmin, dos capixabas no JN à Anistia Internacional. Na CBN, Franklin Martins:

– A repercussão foi a pior possível para o governo.

Falava da derrubada da intervenção no Espírito Santo.

A decisão evidenciou, para Boris Casoy, o fracasso de oito anos de planos federais para a segurança. Nada bom para José Serra.

O presidente e o procurador-geral da República não quiseram comentar, no JN. A defesa da derrubada da intervenção sobrou para o governador, atrevido:

– Não aceito que interventor pise no Espírito Santo.

Na mesma linha, surgiu na TV o presidente pefelista da Assembléia Legislativa capixaba -ele que ?foi indiciado pela CPI do Narcotráfico?, segundo o Jornal da Record.

Festejou a vitória da ?ordem?, com arrogância:

– Eu nunca perdi nenhuma. Os meus adversários são poucos, fracos e burros.

Ah, segundo o site da Globo, quem também se declarou contra a intervenção foi Ciro Gomes, ao receber o apoio do presidente pefelista.

Ciro disse que a intervenção seria ?uma violência?.

9/7/02 – Ciro, o calote e a musa

Ciro Gomes tem sorte com estrelas da Globo.

Além da namorada, que ainda ontem aparecia ao seu lado no Jornal Nacional, já chamada de ?mulher? pela Globo, tem Fátima Bernardes.

No dizer de William Bonner, marido da ?musa da Copa? e co-apresentador do JN, a segunda-feira abriu uma ?semana especial? para o principal telejornal do país.

Primeiro, pelas entrevistas. Segundo, ?temos de volta? Fátima Bernardes.

Ela, a exemplo de Patrícia Pillar na propaganda da Frente Trabalhista nas últimas semanas, garantiu ao JN a boa vontade -a atenção- dos telespectadores.

E era preciso boa vontade da audiência, porque foi uma segunda colada a um feriado, para os paulistas.

Na longa e algo óbvia entrevista, que ficou para o fim do JN, a musa teve para com Ciro quase a mesma benevolência que demonstrou com Luiz Felipe Scolari e seus jogadores, desde o início da Copa.

Tornada celebridade, ela não vestiu de volta a velha máscara de severidade, antes tão flagrante no JN. Ao fazer a primeira pergunta, depois de prometer ao telespectador que ?aqui não se verá troca de ofensas?, ela declarou, toda sorriso:

– Como o senhor pretende controlar (…) a sua fama de pavio curto?

Ciro nem precisou responder direito, disse que não passava de lenda e saiu representando segurança e simpatia. O problema de Ciro veio depois, com William Bonner.

Enfim âncora, entusiasmado como uma criança com a liberdade para falar e não apenas ler, ele insistiu no ?pavio curto? de Ciro -e o presidenciável começou então a mostrar as garras conhecidas.

Ciro afirmou ser ?um homem de convicções?, um homem ?indignado?, porque só ?um verme? não seria indignado com o Brasil.

A sombra de Fernando Collor, cujo nome não foi pronunciado nas perguntas e respostas mas esteve quase sempre presente, prosseguiu na insistência do mesmo Bonner com a renegociação da dívida.

De novo Ciro tremeu, perdeu-se em detalhes, disse não ser ?renegociação? e sim ?alongamento negociado? -eufemismo que se autodenunciou.

Pior foi quando, ao falar do respeito à poupança, ele prometeu que ?não haverá quebra de contrato?, mas usou, do nada, sozinho, por conta própria, a palavra ?calote?.

Não fosse o sorriso de Fátima Bernardes e as coisas poderiam ter sido desastrosas."

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