Domingo, 27 de Maio de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº988
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PRIMEIRAS EDIçõES > 9/10/02 - Quem não quer mudança

Nelson de Sá

Por lgarcia em 16/10/2002 na edição 194

ELEIÇÕES 2002

“No Ar”, copyright Folha de S. Paulo

“15/10/02 – O terror de Regina

O terror eleitoral fez seu primeiro ataque, de fato, quando Armínio Fraga cobrou Lula no JN e declarou que o Banco Central tinha limites em sua ação contra a alta do dólar. O dólar foi a R$ 4.

Depois FHC e seu candidato falaram coisa parecida, mas eles sempre falam. Foi ontem, na reestréia da propaganda, que veio outro ataque.

Regina Duarte, atriz da Globo, abriu o programa tucano e ameaçou com volta da inflação se Lula for eleito. O marqueteiro Nizan Guanaes usou ?medo? como palavra-chave. Dele, na voz da atriz:

– Tô com medo. Faz tempo que não tinha esse sentimento.

A atriz estaria com medo de alguém jogar a ?estabilidade? na ?lata do lixo?:

– Nós temos dois candidatos. Um eu conheço, é o Serra… O outro eu não reconheço, tudo o que dizia mudou. Isso dá medo. A outra coisa que dá medo é a volta da inflação desenfreada. Lembra, 80% ao mês?

A palavra ?medo? é muito usada por marqueteiros para instilar o terror. O próprio Duda Mendonça gastou o recurso, nas campanhas malufistas.

Daí, por fim, Regina encerrar ameaçando:

– Eu voto Serra. Eu voto sem medo.

Com poucos dias, a José Serra só resta o terror.

O petista, por sua parte, ficou a defender a pouco defensável -a não ser como ?estratégia? de campanha- recusa em ir a qualquer debate que não seja o da Globo.

Apresentadores do programa de Lula repisaram as vezes em que ele foi a debates no primeiro turno, como vai a um debate no segundo etc.

Por outro lado, a mágica de Duda Mendonça sumiu com os vestígios da frustração de não vencer no primeiro turno, em meio a sorrisos e Lula falando em ?caminhão de votos?. Foram apresentados apoios sem fim, coreografados e com discurso controlado, inclusive Garotinho, Ciro e Roseana.

Após as primeiras pesquisas, o aumento dos juros e até a cena da plataforma que ameaça afundar, Lula está mais seguro do que nunca.

O mesmo não se pode dizer de José Genoino em São Paulo. Ele não tem o que mostrar para se contrapor à sequência de obras de Geraldo Alckmin.

Os programas se equivaleram na qualidade dos clipes e até na presença cênica e empatia dos dois, ontem. Mas Alckmin tem dezenas de inaugurações para explorar.

Genoino parece só ter Lula.

11/10/02 Os colloridos de Lula

Depois de José e Roseana Sarney, de ACM, passando pelo vice de Aécio, o pefelista Clésio Andrade, agora chegou a vez dos velhos colloridos José Carlos Martinez, Roberto Jefferson, Hélio Costa.

É a direita de Lula, que não vai parar por aí. Como disse o próprio, na Globo:

– Nós estamos consolidando os nossos apoios.

Pefelistas e ex-colloridos por enquanto não passam de ?apoio?, naquela ?diferença entre aliança e apoio? expressa pelo porta-voz lulista.

Por enquanto, como ?aliança?, constam apenas PL, PPS, PSB, PDT e PC do B. Mas o PTB, por exemplo, pode muito bem chegar a um acordo mais à frente. Martinez:

– Não estamos pedindo nada… Não existe expectativa de governo. Depois das eleições, o partido vai se reunir.

Por enquanto, ninguém está pedindo nem prometendo nada, pelo que aparece nos telejornais e rádios. ?Depois das eleições?, quem sabe.

O malufismo não quer ficar para trás. O PL paulista, que foi Paulo Maluf no primeiro turno, já recomendou o apoio a José Genoino.

Mais estarrecedora, porém, foi a adesão de Delfim Netto. O namoro é de parte a parte. O PT ?entrevistou? o malufista em seu site, sabe-se lá pautado por que marqueteiro.

E Delfim foi só elogios a Lula, um ?estadista?.

Delfim fez mais. Melhor que qualquer petista, reagiu à desastrada intervenção de Armínio Fraga na campanha. Dele, na Jovem Pan:

– Eu acho o Armínio uma pessoa decente. Mas, honestamente, ele transcendeu seu papel de presidente do Banco Central e se transformou num cabo eleitoral.

Fez melhor que José Dirceu, escalado pela Globo para responder e que disse:

– Não sei se é retórica eleitoral. Se for, é ruim. O Banco Central não deve fazê-lo.

Fez melhor também que Aloizio Mercadante:

– O Armínio, em vez de dar coletiva, devia estar sentado à mesa de câmbio.

Nada como a direita, para dar resposta atravessada.

E no fim Garotinho, depois de muito fustigar, abraçou Lula no Jornal Nacional e anunciou, entre sorrisos:

– Saiba que você terá, por onde você andar, todos os nossos companheiros fazendo o possível para que possamos dar ao Brasil a oportunidade de ingressar num outro momento da sua vida, tendo alguém comprometido com o povo. Que Deus lhe abençoe.

Depois reclamam do cinismo dos eleitores de Enéas.

10/11/02 – Tudo, menos anjo

Bastou Ciro anunciar apoio ?irrestrito? a Lula -e Garotinho colocou de lado as exigências para dar apoio sem ?condicionantes?.

E disse que, como o problema eram os petistas do Rio, vai montar um palanque do PSB só para fazer a campanha de Lula. Dele, na Globo:

– Nós organizaremos nossos comícios.

Não foi assim que começou o dia, para o PSB. A Globo dizia de manhã que, ?ao contrário de Ciro Gomes, Garotinho impõe condições?. E que ?emissários? de José Serra já conversavam com ele.

Ao que parece, aos poucos a coisa mudou também porque socialistas como Ronaldo Lessa, de Alagoas, saíram em apoio ao petista.

No fim do dia, o presidente do PSB, Miguel Arraes, irritado, prometia ?não fazer barganha nenhuma?.

O âncora Boris Casoy, diante dos movimentos de Lula e José Serra por apoio, comentou, em relação aos cortejados que criam dificuldades para vender facilidades:

– Em política tem de tudo, menos anjo.

Dos dois lados. Como notou a Globo, o tucano passou o dia cercando aqueles que o apóiam com dificuldade:

– Se no primeiro turno o PSDB tolerou que alguns fossem discretos, o jogo agora é outro. Aécio e Tasso Jereissati terão que ser enfáticos.

Tasso bem que vem tentando. Mas Aécio Neves dizia ontem que fará no segundo o que fez no primeiro turno -apoiar Serra. Não comentou a pouca ênfase do apoio.

Pelo contrário, saiu dizendo, entre outras coisas, como é bom ter dois candidatos ?inatacáveis do ponto de vista moral?. Quer dizer, elogiou Lula.

No PMDB foi bem pior. Michel Temer, o governista presidente do partido, tratava abertamente dos dissidentes na televisão -casos de Roberto Requião no Paraná e de Roberto Paulino na Paraíba.

Declarou aos telejornais que vai falar com todos e propor ?neutralidade?. Do catarinense Luiz Henrique, não vai pedir nem isso.

Num momento de revelação dos ?anjos?, o PFL não poderia ficar de fora.

Marco Maciel arrancou uma recomendação de apoio a Serra, respeitadas as ?peculiaridades estaduais?, mas a cobertura só parecia trazer ?peculiaridades?, mais e mais.

O pefelista Clésio Andrade, eleito vice de Aécio, anunciou voto em Lula. Roseana Sarney reafirmou o seu. O presidente do partido, Jorge Bornhausen, se negou a dizer em quem deverá votar. Só queria saber de ?voltar a Santa Catarina?.

Para o tucano, no PFL como no PPB, restou pouco a somar. Até pelo contrário. O presidente do PT já se aproveitava ontem, na Globo:

– José Serra é o candidato do continuísmo. O apoio do PFL só reforça isso.

9/10/02 – Quem não quer mudança

A ?esquerda?, como diz Garotinho, pode cobrar o quanto quiser pelo apoio a Lula, que o petista segue em compras em outra parte.

É na ?direita? que estão os votos que ele deseja, como deixou claro ontem o próprio candidato. Era o que queria dizer, em seu ?café da manhã? diante das câmeras, ao anunciar que vai atrás do voto ?até de quem não quer mudança?.

Afinal, como sublinhou um dia antes em entrevista ao Jornal Nacional, ?76% votaram contra o governo?. E agora José Serra, no entender de Duda Mendonça, já não tem como escapar -ele é governo.

Do marqueteiro, ontem na Globo, comentando o que muda no segundo turno:

– Muda que, para o eleitor, fica mais claro quem é governo e quem é oposição.

?Colegas de oposição?, como chamou Lula um dia, podem pressionar o quanto quiserem que os seus votos, os que foram de oposição, tendem a se encaminhar naturalmente.

São os outros votos que Lula e Duda cortejam. São os votos dos membros da Igreja Universal, cujo bispo Rodrigues, vice-presidente do PL, já estava dizendo, ontem na CBN:

– Nosso partido tem o vice-presidente (da chapa), então nós temos a obrigação de entrar de cabeça na campanha de Lula. Eu já estou fazendo.

ACM, segundo a CBN, também ?recomendou abertamente o voto em Lula?. Assim agiu uma parte da ?direita?, ontem. Quanto à esquerda, continuou tentando vender.

Roberto Freire, presidente do PPS, começou o dia insinuando que o apoio dependia da ?possibilidade de participação?, ou seja, de cargos. Mas ele foi atropelado por Ciro Gomes, ao vivo na Globo News. Disse o impulsivo Ciro:

– Estou à disposição do PT. Apoio irrestrito e entusiástico.

O mesmo fez Leonel Brizola. Mas não é deles que Lula precisa, nem de Miguel Arraes cobrando ?firmeza? com o FMI ou de Garotinho vetando Sarney. Aliás, nem é de apoio, segundo Franklin Martins:

– É muito discutível se candidato derrotado transfere votos. O eleitor não tem cabresto. Logo (os presidenciáveis) estarão correndo atrás não dos chefes políticos, mas do eleitor.

No que depender do petista, ele vai atrás do eleitor ?que não quer mudança? sem qualquer veto ?ideológico?.

No caminho, vai descobrir que Serra já está por lá, cortejando PFL e PPB -como ficou claro nos telejornais.

Lula e Serra deram entrevistas exclusivas ao JN, anteontem. E só ontem fizeram o mesmo nos jornais da Record e da Band.

“Debate com Lula e Serra na Globo será dia 25”, copyright O Globo, 15/10/02

“Representantes do PT e do PSDB confirmaram ontem as regras, a data e o lugar do único debate confirmado entre os candidatos à Presidência da República no segundo turno, que será realizado pela Rede Globo. O encontro entre o petista Luiz Inácio Lula da Silva e o tucano José Serra acontecerá no próximo dia 25, sexta-feira, dois dias antes da eleição, às 21h40m, na Central Globo de Produção, em Jacarepaguá.

As regras acertadas são diferentes daquelas estabelecidas nos debates do primeiro turno. Lula e Serra responderão a perguntas formuladas por 50 eleitores indecisos, que estarão presentes no estúdio. O mediador será o jornalista William Bonner, que só interferirá se achar que alguma questão não foi completamente respondida. Não haverá perguntas de candidato para candidato.

Câmera permitirá ver todas as reações dos candidatos

Os 50 eleitores formularão perguntas, mas apenas 16 delas, escolhidas por sorteios, serão levadas aos candidatos. No início de cada bloco, Bonner vai sortear uma pergunta e quem irá respondê-la. Ao outro candidato caberá uma réplica e, em seguida, haverá a tréplica. Será o próprio eleitor que fará a pergunta, depois de se apresentar dizendo seu nome, profissão e cidade de origem.

Pela primeira vez, a TV Globo colocará uma câmera com plano geral para que seja possível acompanhar todas as reações dos dois candidatos. O estúdio terá o formato de uma arena e será permitido a Lula e Serra se moverem por toda a área. O formato foi inspirado em debates entre candidatos à Presidência dos Estados Unidos.

No acerto das regras, ontem, representaram o PT o coordenador do programa de governo de Lula, Antonio Palocci, e o assessor de imprensa, Ricardo Kotscho. Pelo PSDB, compareceram o publicitário Nelson Biondi e a assessora de imprensa de Serra, Andréa Gouvêa Vieira. As negociações da Rede Globo para este debate começaram ainda em abril, com representantes dos quatro principais candidatos à Presidência.

– É diferente (o debate) no formato e na importância. O eleitor ganha mais do que no programa eleitoral gratuito, que é uma coisa conduzida – afirmou Biondi.

Para Palocci, o debate tende a ficar mais ágil:

– A novidade interessante é o eleitor fazendo a pergunta. Isso ajuda a esclarecer suas dúvidas.

Para o presidente nacional do PT, José Dirceu, a participação de Lula em um debate em rede nacional de televisão ?é mais que suficiente?. Ele criticou a falta de ?autoridade moral? de Serra para cobrar mais participações do petista.

– O Serra não tem nenhuma autoridade moral para cobrar nada de nós porque apoiou Fernando Henrique nas suas decisões de não participar de debates nas eleições passadas. Nós temos autoridade porque fomos a todos os debates no primeiro turno – afirmou Dirceu.

O presidente do PT disse que a agenda de Lula está muito apertada e que, mesmo assim, o candidato vai debater. Durante os 12 dias que restam da campanha do segundo turno, Dirceu disse que o candidato petista visitará 11 estados.

– Está mais do que evidente que o Lula vai ao debate, quer o debate, mas tem que ser também de acordo com a nossa agenda, também com a nossa estratégia de campanha, não pode ser a estratégia de campanha do Serra – disse.

Para Duda Mendonça,?Lula adora debates?

O publicitário Duda Mendonça, responsável pela campanha do PT, disse que Lula não tem evitado debates com Serra, como insinua a campanha do tucano.

– Lula adora debate, poderia fazer até três por dia, mas ele não tem é tempo – disse.

Em entrevista à rádio CBN ontem, Serra voltou a cobrar a participação de Lula em debates e reclamou da ausência do petista no programa da rádio.

– É uma pena que o Lula não tenha aceitado participar desse debate de hoje. Ele tem desistido de confrontar as idéias dele com as minhas na última semana, e quem perde com isso é o eleitor – disse Serra.”

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