Quarta-feira, 20 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

PRIMEIRAS EDIçõES > 16/12/02 - Nos jardins

Nelson de Sá

Por lgarcia em 18/12/2002 na edição 203

CRÍTICA DIÁRIA

“No Ar”, copyright Folha de S. Paulo

13/12/02 – O dólar dos operadores

Voltou ?o? Lula, no pronunciamento de ontem, ao vivo pela Globo. Ele já entrou antes de todos, esperou em pé, apoiou-se na cadeira, olhou um pouco para as câmeras, cochichou com Marisa.

Ao falar, fez brincadeiras sem fim ?e sem sentido. Do nada, disse que seu escolhido para o BC, Henrique Meirelles, ?está acompanhado de sua esposa, e eu da minha?.

Depois disse que o resto do ministério sai semana que vem e então, sorrindo:

– Vamos ver qual é o jornalista que acertou mais. Vai ganhar de mim um prêmio. Que eu não sei qual.

Brincou até com o que, aparentemente, não devia, prometendo falar pouco:

– Quanto menos eu falar, mais o dólar cai.

Foi um encantamento para as câmeras.

E foi ele sair para a Globo cortar a transmissão. Nada de muito ministro, equipe econômica. O poder é Lula.

Pouco depois, vem a Globo News e registra:

– O dólar fecha em alta.

Lula queimou a língua, mas logo se evidenciarem os motivos do mercado. Meirelles anunciou como seu propósito ?fazer o Brasil crescer?:

– O resto são os meios para se chegar lá.

Não é o que um operador do mercado queria ouvir. Aliás, não se trata mais de um colega no Banco Central, como notou a Globo News:

– Como não veio o nome de um operador, o mercado espera. As atenções agora se voltaram para a diretoria.

Algumas reações de operadores falavam de seu perfil político, não técnico. De ser mais conhecido no exterior do que pelo mercado nacional. Um operador que é ex-presidente do BC falou até em perigo de ?politização do BC?.

Em suma, vislumbrou-se o risco de ganhar menos.

Se os operadores tremeram, seus superiores, ao que parece, não. Curiosamente, houve até operador que de imediato criticou, na CBN, e depois retornou para se corrigir.

Afinal, trata-se do ex-presidente do BankBoston, ?o primeiro não-americano a presidir um banco nos EUA?, como ressaltou a Globo.

Sobraram elogios da federação dos bancos. E, se o dólar dos operadores subiu, no exterior o risco Brasil caiu.

Operadora do extremo oposto, nas restrições a Meirelles, só a senadora Heloísa Helena, que disse que ele ?não serve para os interesses nacionais?.

Mas também ela acrescentou depois que a decisão final é do eleito e ponto.

12/12/02 – Antes para Bush

Lula deu impressão de ter deixado escapar, sem querer, os nomes de Antônio Palocci e Marina Silva. Que nada, espalharam Franklin Martins e Alexandre Garcia, em comentários quase idênticos:

– Tanto o nome de Palocci como o de Marina foram veiculados na reunião com Bush. Lula mencionou que seriam ministros. Apresentou Palocci ao presidente como o futuro ministro da Fazenda. Na hora do almoço, fez a revelação informal para evitar que o vazamento viesse da Casa Branca.

Lula tem todas as razões do mundo para avisar o imperador de suas escolhas em áreas tão caras à opinião pública externa, mas não soa nada bem para a opinião interna.

Martins, desde logo, elogiou os dois nomes, mas sublinhou, voz contrariada, que os anúncios poderiam muito bem ter sido feitos antes ao Brasil.

A Bolsa em alta, o dólar em baixa. O mercado aprovou Palocci, comentou até Carlos Sardenberg na CBN.

A recepção foi unânime, em TV e rádio. Do presidente da Fiesp ao da federação dos bancos, de Sérgio Amaral a Winston Fritsch. Mas a justificação era sempre aquela:

– É um homem com coragem de dizer ?não?… Tem tido coragem de dizer as coisas que têm que ser ditas…

Em suma, ele foi da Libelu, como sublinhou o Jornal Nacional, mas não é mais, muito pelo contrário. Do JN:

– Apesar de formado nos setores mais radicais, teve atuação moderada como prefeito de Ribeirão Preto e conquistou a confiança da elite dos usineiros de açúcar e álcool.

Não foi muito diversa a reação a Marina Silva. Ganhou até ares de idolatria, com destaque em toda parte, a começar do JN, para o passado de empregada doméstica. Ela foi entrevistada no Bom Dia Brasil:

– A senhora chegou a ser empregada. Que país é este que permite que as pessoas de origem humildes cheguem ao topo, que coisa maravilhosa.

– Realmente é emocionante. Vendo a história do Lula, da Benedita, do Vicentinho, isso só demonstra uma coisa: todos nós temos as mesmas capacidades, só não temos as mesmas oportunidades.

E também ela seguiu a trilha de Palocci, na recusa do antigo discurso radical. Sobre o Sivam, por exemplo:

– O Sivam é um sistema que tem uma capacidade fantástica de gerar informações, que serão de grande utilidade para uma política adequada de preservação da Amazônia.

O que diria Chico Mendes?

16/12/02 – Nos jardins

É a ?photo-op?, a oportunidade de foto, mais gasta do planeta, há décadas. De primeiros-ministros a ditadores, os protagonistas da história estão sempre lá.

E era Lula quem cumprimentava George W. Bush, ambos sentados, sorrindo, na Casa Branca.

Havia algo de irreal na imagem, um estranhamento que vinha talvez de Lula ser um personagem que jamais se poderia imaginar tão próximo do máximo poder.

Outra cena de causar estranhamento: a da coletiva nos jardins da Casa Branca, com Antonio Palocci e Aloizio Mercadante logo atrás, Marta Suplicy ao lado, os homens de casacos pesados no frio da capital do império.

Nem de longe aquela figura tão formal, de olhar concentrado, lembrava Lula, o metalúrgico, ou Lula, o eterno presidenciável. Nem nas palavras ele lembrava.

Fazia as declarações mais contidas, ?foi além das expectativas?, ?a partir de janeiro podemos fazer uma reunião de cúpula? etc. Depois, no discurso no clube de imprensa, parecia FHC:

– Estou otimista. O Brasil tem meios de superar as dificuldades e retomar o caminho do crescimento sustentado… Meu governo vai se pautar pela responsabilidade fiscal, pelo combate à inflação e pelo respeito aos contratos.

E por aí foi. Só aqui e ali se pôde vislumbrar algo do Lula que ele já foi. Ao dizer que falou com Bush do Fome Zero. Ou ao comentar, falando de seu passado uma última vez:

– Minha história tem sido de luta contra o preconceito. Um diálogo direto entre presidentes, como o que tivemos, pode pavimentar o desenvolvimento das relações…

Pavimentar desenvolvimento das relações… Não é ?o? Lula. Trocaram.

Semanas atrás, a charge animada do Jornal Nacional trazia Lula às voltas com problemas -e FHC tentando entrar na imagem, chamar atenção, num canto, depois outro.

É o que segue fazendo, ao que parece. Anteontem e ontem, lá estava ele nos EUA, posando ao lado do secretário-geral da ONU, em ?photo-op? de menor impacto, mas bastante para os telejornais. E sempre elogiando, questionando, falando de Lula sem parar.

Ontem, poucos cuidaram dele. A Jovem Pan deu que tinha ?agenda livre?, sem ?compromissos para o dia, nem mesmo encontros reservados com autoridades?. Talvez um musical na Broadway.”

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